O dia de ontem começou com as celebrações da 100ª edição da Caderneta de Cromos, a minha rubrica da Rádio Comercial. Cumpri o prometido de forma surpreendentemente ágil: tinha jurado ao vasto auditório que iria comemorar os 100 cromos fazendo rodar 100 vezes um dos lendários limões de plástico populares no fim dos anos 70, princípio de 80s, à volta do meu tornozelo, enquanto os meus colegas - Pedro Ribeiro, Vanda Miranda e Vasco Palmeirim - enunciavam, por cada volta do limão, o título de cada uma das 100 edições da rubrica. O limão - e a reportagem video que se segue - foi gentilmente cedido pela Mónica Albuquerque, uma fã tão dedicada da Caderneta de Cromos que, se um dia fizermos a CadernEXPO, a grande exposição de pedaços das nossas infâncias e juventudes, ela será o nosso Joe Berardo. A Colecção Albuquerque, que a Mónica vai revelando em inúmeras fotografias na página oficial da Caderneta de Cromos no Facebook, é de uma riqueza ímpar, incluindo brinquedos, livros e gadgets que quase todos tivemos e que há que tempos que não víamos.

 

A Mónica filmou o momento em que, no ar, em directo, para todó Portugal, eu abracei - ao som, inevitavelmente, de Chariots of Fire - o desafio de dar 100 voltas com o limão. Praticamente em jejum, à excepção de um pedaço de bola de berlim. Apesar de um ligeiro e quase invísivel percalço, a coisa correu bem. Peço que atentem e se deixem banhar na emoção que os meus colegas emanam ao gritarem os títulos dos 100 cromos da Caderneta:

 

 

Foi bonito de se ver. Só faltava Eládio Clímaco a relatar este momento que, para ser digno de comparação com uma edição dos Jogos Sem Fronteiras, só precisava de envolver uma piscina.

 

À tarde, ficou gravado o primeiro episódio da saga de webisódios Asfalto Morninho, uma aventura da vida real que acompanha todo o meu processo de aprendizagem do maravilhoso mundo da condução automóvel. Achei que era interessante, depois de tantos anos de militância anti-carro, eu imortalizar, num verdadeiro docudrama, a minha saga de tirar a carta. Ou de chumbar. Seja como for, a série vai mostrar tudo - as vitórias, os falhanços, os embaraços, tudo. Vai ser a coisa mais emocionante envolvendo carros desde o Knight Rider. Neste momento ainda só está disponível um teaser explicativo, mas em breve poderão ver o episódio 1.

 

Maravilhosamente surreais foram os acontecimentos de fim de tarde, num centro comercial aqui da minha zona. Quando passeamos os três - eu, a Ana e o Pedro - depressa nos apercebemos que suscitamos o interesse e a simpatia das mais diversas pessoas e temos targets diferentes: a Ana - para além do vistaço que faz por ser a Deusa que é - atrai pessoas de alguma idade, fiéis seguidoras do Jogo Duplo; eu atraio pessoas mais jovens, ouvintes das minhas rubricas radiofónicas e seguidoras do Facebook, Twitter e do blog; o Pedro atrai, basicamente, toda a gente que tenha um mínimo de entusiasmo por bebés. Aqui para nós: fizemo-lo bem, perfeitinho e encantador, e com um poder de sedução gigantesco.

 

Uma senhora na casa dos 50 aproxima-se de nós, encantada com o bebé, e por fim dispara: "Muitos parabéns pelo seu papel no filme. Eu não gosto de nada do que faz, mas no filme está tão natural, gostei muito. Vai-me desculpar, mas não aprecio nem acompanho o que faz, porque gosto nada de programas da treta, mas adorei vê-lo n'A Bela e o Paparazzo."

 

Confesso que fiquei com vontade de dizer: "Não aprecio nada o seu cabelo, mas adorei o elogio." Em vez disso, digo: "Mas eu acho que nem me vê muito em programas da treta. Eu faço mais é rádio". Diz a senhora, depois de uns segundos de confusão: "Mas na rádio o senhor é mais sério". Perante isto, na minha mente passa um flashback da minha actuação matinal, fazendo um limão girar 100 vezes à volta do tornozelo enquanto os meus colegas gritam.

 

Preparo-me para pagar o lanche da família, na caixa do bar onde abancámos, quando uma jovem simpática, chamada Mariana, se aproxima de mim e me pede um autógrafo. A senhora que me está a cobrar o lanche diz, num forte sotaque brasileiro: "Mas quem é o senhor? É famoso? Porque está dando autógrafo? Quem é ele? Quem é ele?". Eu tento despachar a situação dizendo "faço umas coisas".

 

A Mariana explica quem eu sou. E de repente, todas as atenções estão sobre mim, naquele estabelecimento de sandes. Atrás do balcão, cada uma das quatro empregadas tem a sua teoria sobre o que eu faço, mas ninguém tem bem a certeza. Uma delas afirma: "É um que faz rir". Outra afirma: "Toda a gente sabe que é júri dos concursos de dança". Ainda outra, e sem dúvida o meu palpite favorito de todos: "É patinador".

 

Pelo meio da confusão, tento ouvir a Mariana, que diz que adorou o filme e que, tal como a personagem da Soraia, chama-se Mariana Reis. Enquanto tento explicar à Mariana, no meio da confusão que se gerou no bar, a origem dos nomes do argumento d'A Bela e o Paparazzo (na verdade são nomes de pessoas que o argumentista do filme, o Tiago Santos, conhece, entre amigos e família), constato que um senhor de idade se aproximou da Ana e do Pedro. O Pedro sorri para o senhor e este pega-lhe ao colo por uns momentos, antes de sacar de um espesso maço de notas da algibeira e dizer: "Ele já tem mealheiro?". Nós tentamos demover o senhor de oferecer dinheiro ao filho de estranhos como se fosse avô dele, embora agradecendo a simpatia, mas o senhor insiste ao ponto de começar a achar quase ofensiva a nossa recusa, deposita 10 euros nas mãos do confuso Pedro e vai-se embora, fazendo ouvidos moucos às nossas incessantes tentativas de recusar amavelmente o dinheiro.

 

Tudo isto aconteceu de forma imparável e foi divertido, embora eu queira acreditar piamente que aquele senhor do maço de notas faz isto também com bebés que realmente precisam. Foi divertido, claro está: excepto a parte em que o Pedro deu um safanão numa chávena de café bem quente para cima das minhas calças. Coisas que acontecem.

 



Diz o António-Pedro Vasconcelos, e muito bem, que uma ante-estreia como a de ontem não deve ser tomada como avaliação do sucesso de um filme. Foi uma mega-operação, com um mar de espectadores desesperadamente tentando trocar os seus convites por lugares não só na sala 1 mas também na sala 3, onde o filme foi projectado para quem não chegou a tempo para conseguir lugar na sala principal, mas a verdade é que havia lá muita gente do meio, muitos amigos das pessoas que trabalharam no filme. E isso, quer-se queira, quer não, acaba sempre por influenciar o olhar daqueles espectadores. 

 

Mas estava lá muita, muita gente - e muitos espectadores imparciais. E foi um gosto perceber que a sala estava agarrada à história - simples, directa, inteligente - que o Tiago Santos criou para o António-Pedro realizar e que, numa observação de alívio mais pessoal, a minha personagem - tal como o argumentista, Tiago de seu nome - cumpriu o seu papel de comic relief da obra. Eu trabalho em comédia, e nada se compara, para quem faz disto a sua vida, à visceral reacção de uma sala gigante cheia, rindo em uníssono. O meu trabalho não foi o mais difícil: o Tiago acaba por ser a tal variação do que eu sou, aquilo em que eu me teria tornado se tivesse tomado escolhas diferentes em momentos decisivos da minha vida; o mais difícil - e que merece todas as honras e elogios - é o trabalho de escrita do outro Tiago, o Santos. Tanto ele como o António-Pedro permitiram-me "marklizar" algumas coisas, mas, na sua essência, aquilo que fez a sala rir foram as brilhantes ideias do Tiago, a começar pelo conceito da personagem que quer transformar um prédio num estado independente. Estarei sempre grato ao Tiago por ter escrito aquele material precioso e por ele e o António-Pedro mo terem posto nas mãos, opção arriscada tendo em conta a minha inexperiência como actor - no sentido mais puro e duro da palavra.

 

Mas foi uma noite feliz e divertida. A começar logo pelo encontro dos actores no Hotel Altis. Rever o Marco d'Almeida e o Pedro Laginha e beber com eles uma bica da sorte no bar do hotel foi reeditar a química que nos uniu no filme. Na verdade o Laginha tentou convencer-nos a beber um shot de qualquer coisa, o grande maluco, mas a mistura entre eu não ter comido nada de jeito o dia todo (os nervos!) e o bar do Altis não ser uma tasca levou à ajuízada situação de entrarmos no São Jorge totalmente sóbrios.

 

Confesso que nunca pensei que tanta gente quisesse assistir à ante-estreia do filme. A decisão de projectar o filme em duas salas para caber toda a gente gerou um caos tão extremo que, por momentos, temi que não houvesse lugar para a minha própria mãe - mas tudo se compôs. Adorei ter a Ana do meu lado quando a luz se apaga e a hora da verdade começa. Adorei vê-la rir e, como já tinha visto o filme, pude reflectir sobre o quão importante foi o papel dela em tudo isto. Quando o António-Pedro me convidou para esta pequena odisseia, o meu filho Pedro estava prestes a nascer e eu temia que a rodagem me afastasse dos primeiros meses de vida dele e sobrecarregasse a Ana com uma trabalheira de dimensões titânicas. Isso e o medo de não estar à altura do convite: o que iria eu fazer rodeado de actores a sério, num filme dirigido pelo homem que fizera O Lugar do Morto, Aqui d'El Rei, Jaime, Os Imortais, Call Girl? A Ana não só me encorajou a avançar, como teve a trabalheira de fazer os papéis todos do filme, em sessões caseiras de "bater texto" que foram essenciais para eu ir com outro à vontade para as rodagens. Uma mulher assim é preciosa! E eu só podia estar à altura da confiança que ela depositou em mim. Foi a sensação da noite, perceber que ela adorou genuinamente o filme e o trabalho que ela ajudou a construir e que me afastou, alguns dias e noites, de casa. Isso vale mais que qualquer crítica, há que dizê-lo...

 

Também foi emocionante ver a minha mãe comovida. A minha mãe é de um realismo e frontalidade extremos, e estava receosa de ver o filho meter-se num buraco. O episódio mais divertido que se passou sobre isto aconteceu na noite em que fui com ela e com a minha irmã ao Corte Inglês, à ante-estreia d'O Sítio das Coisas Selvagens. No átrio do cinema há um enorme stand-in d'A Bela e o Paparazzo. A minha mãe consulta a ficha técnica do cartaz e diz, num tom de lamento: "Não estás aqui, filho. Não te puseram no cartaz."

 

"Mãe, olha para ali: Soraia Chaves. Marco d'Almeida. Nuno Markl."

 

"Ah! Estás no princípio da ficha técnica! Eu estava à procura do teu nome cá para baixo..."

 

Acho que ela não estava à espera que o Tiago atravessasse o filme de uma ponta à outra e ela é o indicador mais animador, apesar de ser minha mãe: se ela não tivesse gostado, ela tinha-o dito com a sinceridade que a caracteriza. O facto dela ter gostado foi, acreditem, importantíssimo para mim.

 

No final da sessão houve aplausos, ovações e momentos quase surreais. No melhor dos sentidos. De repente surge o Presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, dando-me os parabéns e dizendo "se quiser prédios para declarar a independência, eu arranjo-lhe uns quantos em Lisboa!". E, de repente, o antigo Presidente da República, Mário Soares: "O senhor é um grande actor". E eu penso: à partida, nada nesta frase bate certo comigo, a começar no "senhor" e a terminar no "grande actor". Mas percebi que havia ali sinceridade e entusiasmo: aparentemente, consegui fazer Mário Soares rir com gosto. A parte mais delirante é que - obviamente ele não se lembra disto, no meio de tudo o que tem sido a vida dele - mas nos meus tempos de jornalista, eu consegui irritar o nosso ex-Presidente (era ele Presidente!), quando, ao serviço da rádio e como jovem e anónimo repórter, tentei obter umas declarações dele sobre um tema qualquer da actualidade durante uma visita dele a uma exposição já não sei de quê. Vocês não queiram irritar Mário Soares, é só o que digo!

 

A noite de ontem não terá sido a hora da verdade, mas uma semi-hora da verdade. Foi bom sentir a respiração da sala e perceber que os mais diversos tipos de público, juntos na(s) mesma(s) sala(s), mantiveram o interesse naquela história. E foi bom, hoje, começar a encontrar elogios destes, na net. O que claramente anula o efeito de lixo deste, escrito por alguém que não viu o filme, mas que já tem sábios juízos sobre ele, baseados em ignorância iluminada, preconceito, estupidez e total e completo desconhecimento do que é A Bela e o Paparazzo, da intenção do filme, da acutilância e inteligência do argumento do Tiago Santos e de como este, como vários outros filmes do António-Pedro Vasconcelos, consegue trabalhar a sério para ser o elo perdido entre chegar ao público e nivelar por cima.

 

É verdade que o cinema português não anda com a melhor das imagens, mas só posso, neste momento, pedir que os mais cépticos dêem o benefício da dúvida a um filme feito por um grupo de pessoas preocupadas em contar bem uma história, em dizer alguma coisa de relevante, em fazer com que o cinema português recupere a fusão de acessibilidade e inteligência que movia os ilustres veteranos da Idade de Ouro da comédia portuguesa. Seria presunção dizer que o conseguimos, mas todos, em todas as áreas, trabalhámos a sério para chegar lá perto. 

 

Dito isto, eis um pouco do ambiente de ontem, no São Jorge, seguido do making of que a RTP exibiu ontem, realizado pelo Sebastião Albuquerque. 

 

 

 

 



Conforme prometido, na 2ª feira ao serão acontece nesta fanpage do Facebook o estonteante jogo-relâmpago d'A Bela e o Paparazzo, iniciativa que junta a ZON Lusomundo e o Cão Azul e que será uma frenética competição por um lugar na antestreia VIP do filme e por t-shirts da colecção criada pelo Cão Azul para a personagem levemente alucinada que interpreto no filme, o empreendedor Tiago.

 

Tudo acontecerá quando eu publicar um post na página do Facebook dando o tiro de partida. Imediatamente a seguir, cabe aos interessados desatar a deixar comentários nesse post dizendo apenas "Estou com uma erecção!" (que, conforme sabe quem já viu o trailer do filme, é uma coisa extremamente digna que a minha personagem diz a dada altura da obra). Não há limite de comentários por concorrente, tudo vale no frenesim de ser o autor do 100º comentário. O autor ou autora do centésimo "Estou com uma erecção!" será o(a) feliz contemplado(a) com um convite duplo para a antestreia VIP do filme - que acontece no Cinema São Jorge, em Lisboa, na quinta-feira, às 21h30 - e também com uma das t-shirts da colecção A Bela e o Paparazzo, do Cão Azul, à sua escolha (e por escolha entenda-se também o esquema de cores).

... e há ainda um modelo que não aparece no final cut, mas que é bem catita:

 

 

Os autores dos comentários 98 e 99 não terão direito a convite para a antestreia, mas não saem de mãos a abanar, ganhando também, cada um deles, uma t-shirt à escolha, entre os espécimes da colecção do filme.

 

2ª feira à noite, estejam atentos. Aqui.



 

Nem parece que foi assim há tanto tempo que eu andava aqui a fazer o diário dos meus dias de rodagem n' A Bela e o Paparazzo, a comédia romântica agridoce do António-Pedro Vasconcelos e do seu argumentista, o Tiago Santos. E agora, aí está a obra acabada... e vista! Ontem a ZON e o produtor, Tino Navarro, organizaram uma sessão na sua sala de projecções para a Soraia Chaves, o Marco d'Almeida e eu - e confesso que, antes da projecção, eu estava com os nervos em franja. Não por causa do filme em si - um argumento sólido como o do Tiago e a realização sempre segura do António-Pedro nunca poderiam resultar num mau filme - mas por causa de mim. É que uma coisa é imitar uma orca num sketch; outra, é atravessar um filme de uma ponta à outra e manter uma personagem que, por muito confortavelmente próxima que seja da minha pessoa, é uma figura com nuances, twists, surpresas, variações de tom e segredos do fundo do coração - e no cinema está tudo em grande.

 

Mas a verdade é que estou muito contente com o resultado: A Bela e o Paparazzo não quer mudar o mundo; quer entreter as pessoas ao mesmo tempo que as espicaça a pensar sobre o vampirismo mediático. É uma comédia romântica que vai beber a sua inspiração não àquilo que hoje se convencionou chamar "comédia romântica" ou "rom-com", mas às da velha guarda: a Billy Wilder, por exemplo, que, como o prova O Apartamento, conseguia equilibrar histórias de amor doces com uma certa acidez que está presente no filme do António-Pedro e no argumento do Tiago. Não é uma Pretty Woman nem um You've Got Mail: é um filme que chama bois pelos nomes e diz palavrões (e o Tiago sabe escrever muito bem diálogos com palavrões) e dá murros no estômago (e, coitado do Marco, também na cara dele). Ao mesmo tempo, e mesmo que se preveja que apareçam críticos a dizer que é um filme americanizado, é uma história intensamente lisboeta e que, nas cenas de bairro, tem um espírito muito Pátio das Cantigas que a todos nos deu grande gozo ressuscitar.

 

Não faço ideia como é que público e crítica vão reagir (a bem dizer, prevejo como vai reagir alguma crítica e, como é de esperar, não será bonito de se ler), mas independentemente do que se diga, escreva e aconteça, A Bela e o Paparazzo fica-me no livro das memórias de várias formas especiais. Não só porque acho que ficou feito um bom e inteligente filme comercial (e percamos o medo de usar a palavra "comercial" porque o António-Pedro Vasconcelos tem provado, ao longo da carreira, que o cinema pode falar ao público e ser inteligente), mas também porque o processo foi divertido, didáctico para mim que estava habituado a ver os bastidores nos extras dos DVD e que, desta vez, estava lá dentro, e porque as rodagens coincidem com o nascimento do Pedro - e o gozo que A Bela e o Paparazzo deu, acabou por ser uma espécie de celebração involuntária de uma das alturas mais inacreditavelmente felizes da minha vida. Por tudo isto - e porque o António-Pedro é tão bom a dirigir actores que faz com que eu não me tenha envergonhado nada de me ver na fita - A Bela e o Paparazzo será sempre um grande momento da minha existência.

 

E não se preocupem - não pretendo seguir carreira de actor, que onde me sinto bem é a escrever para actores a sério, a fazer rádio e a imitar orcas. Isto foi um acidente feliz e se mais alguém quiser uma perninha numa fita, que se lembre que eu só sei fazer de mim próprio e que é provável que até haja quem faça de mim próprio melhor do que eu!

 

Dito isto, estou ansioso para que vejam o filme. Na segunda-feira, dia 18, à noite, haverá um passatempo-relâmpago alucinante na minha página de fãs do Facebook onde será atribuído um convite duplo para a antestreia VIP que acontece na quinta-feira, 21, no São Jorge, com a presença do realizador e do elenco. Quem não conseguir ir à antestreia VIP, pode sempre, nessa noite, ver o promissor making of da fita que a RTP vai exibir ao serão.

 

Dia 29, sexta-feira, o António-Pedro Vasconcelos, a Soraia Chaves, o Marco d'Almeida e este vosso amigo estarão numa sessão especial do filme no Colombo, à noite, onde apresentaremos a obra e, se alguém estiver para aí virado, rabiscaremos autógrafos. Isto é uma sessão normal de cinema, com bilhete comprado.

 

Dia 30, sábado, este mesmo grupo estará no Parque Nascente, no Porto, para outra sessão de apresentação e autógrafos.

 

Vemo-nos num dia destes!



 

 

Ontem foi um daqueles dias. A minha Jamie, fiel companheira desde há 12 anos, partiu, acredito eu, para o Grande Paraíso dos Cães (não sei porquê, mas ouço sempre a música Pepperland, que o George Martin compôs para a banda sonora do Yellow Submarine quando penso no Grande Paraíso dos Cães). A razão porque consegui, hoje, na rádio, não transparecer nada da tristeza e das saudades que sinto é porque, primeiro, chorei tudo ontem e não foi pouco; e depois porque há meses que a saúde da Jamie se estava a deteriorar a um ponto extremo. A morte parecia ter-se esquecido da minha velha amiga e ela, muito longe de ser a boa velha Jamie que entrou na minha vida e na da minha ex-mulher, Anabela, em 1997, transformava-se numa genuína personagem canina de um filme de Tim Burton: uma cadela-zombie - e digo isto com todo o amor e admiração que tenho pela Jamie. Toda a gente me dizia que se o Guinness Book tivesse descoberto a Jamie, ela já lá estava imortalizada naquelas páginas.

 

A teoria mais realista aponta para que a super-rafeira Jamie tenha vivido quase duas décadas. Mas perante o sofrimento e a indignidade dos últimos tempos de vida, não tivemos outro remédio senão fazer o que mais custa, mas o que era menos egoísta e mais humano: proporcionar-lhe uma partida serena, relaxada, mas que me arrasou completamente. Sim, já não era a velha Jamie - mas, que diabo, era. E nunca mais a vou ver. E isso dói como o caraças.

 

À noite, estive na ante-estreia de O Sítio das Coisas Selvagens, de Spike Jonze. É, provavelmente, o melhor filme que se fez sobre a infância, construído com um detalhe, um amor e uma ausência de lamechice (apesar de toda a sala estar a lacrimejar, no final) que fazem desta adaptação do fantástico livro infantil de Maurice Sendak, uma obra que devia existir em todas as casas, essencial para ser vista por crianças e por pais, porque está lá tudo. Obviamente, um filme que fala sobre afecto entre um humano e criaturas peludas não será a coisa mais animada para ver no dia em que me despedi da Jamie - mas, por outro lado, houve ali quase um tributo involuntário. Rafeira até à medula, vira-lata e, nos seus tempos áureos, muitíssimo brincalhona, a Jamie podia, perfeitamente, ser uma daquelas wild things.

 

Há umas coincidências interessantes sobre a passagem da Jamie pelo meu mundo. Ela apareceu em Janeiro de 1998, estava eu na Comercial e O Homem Que Mordeu o Cão a dar os seus primeiros passos. Outros primeiros passos na altura: os da vida realmente adulta. Eu estava recém-casado, vivendo na primeira casa própria. A Jamie representou mais um pedaço das novas responsabilidades: eu já gostava de cães, cães já tinham passado pela minha vida, mas ali estava agora o meu cão, a ensinar-me a preocupar-me a sério com outras criaturas do planeta que não apenas os humanos. Graças à iluminação Jaminiana, acendeu-se o meu interesse pelos movimentos de defesa dos direitos dos animais, pela ajuda a instituições dessa natureza. Há que estar eternamente grato à Jamie por isso.

 

A Jamie foi-se embora noutro Janeiro, o de 2010 - estou eu de regresso à Comercial e uma outra rubrica, A Caderneta de Cromos, a dar os seus primeiros passos. Já lá vai a responsabilidade de início de vida adulta, quando ela apareceu; ela deixa-me no momento em que me estreio - e, até ver, com algum sucesso e competência! - noutra responsabilidade: a de ser pai. Provavelmente são tudo coincidências, mas que se lixe. Não faz mal nenhum pensar que a Jamie andou por cá com uma agenda, fez o seu trabalho e, como o anjo do filme Do Céu Caiu Uma Estrela, agora ganhou as tais asas e foi à vida dela.

 

Foi a minha musa Ana quem acompanhou a Jamie nos últimos minutos de vida e assegurou que a idosa cadela adormecesse em paz. O facto dela ter lá estado com a Jamie, só me faz gostar da Ana ainda mais - e ficar furioso comigo próprio por não ter adiado tudo o que tinha para fazer ontem à tarde para estar lá também. A Anabela era impossível estar, já que está a viver no estrangeiro, mas sei que os pensamentos dela estiveram com a velha Jamie.

 

À tarde, tive tempo para me despedir dela, para lhe dar festas e agradecer-lhe estes 12 anos. Reagiu com a desorientação dos últimos tempos, como se fosse só mais um dia e mais uma mão indiferente a tocá-la. Depois de me despedir da Jamie, fiz a viagem de comboio pela Linha de Cascais, até Lisboa, a tentar - em vão - conter as lágrimas. Tive esperança que, se alguém olhasse, pensasse só que eu estava constipado ou com um ataque particularmente violento de sinusite. E depois, defequei de alto nas aparências e pensei que era merecido que alguém me visse naquele estado. A Jamie já andava noutra dimensão e não reconhecia os donos, tentava morder e assustava-se sempre que alguém lhe tocava, independentemente de quem fosse - mas, ainda assim, eu devia ter lá estado. Tarde demais para lamentar isto. E estou feliz pela Ana ter lá estado. Fica-me o consolo de ter feito o meu melhor, nestes 12 anos, para assegurar que nada faltou à Jamie. Se alguma vez a refeição foi dada mais tarde ou mais mal servida, as minhas desculpas, Jamie! Mas acho que foi uma bela vida... 

 

É para a Jamie que vai esta dedicatória: o muitíssimo apropriado tema musical principal de Where The Wild Things Are, All is Love, pela Karen O. Sim, a Jamie vai para o Grande Paraíso dos Cães, mas quer-me parecer que esse belo e verdejante condomínio fica num bairro algures no Sítio das Coisas Selvagens.

 

Boa viagem, Jamie. E obrigado por tudo.

 

 



... é esta criatura incrível, um prodígio de tecnologia animatrónica e marionete criado pelo meu caro amigo Sérgio Alxeredo. O Alxeredo, para além de ser o maquilhador-mor da televisão nacional - foi ele, por exemplo, que operou incríveis transformações nos elencos de Gato Fedorento e Os Contemporâneos - é um talentoso inventor de criaturas que já devia estar a trabalhar na Jim Henson Creature Shop (pelo menos!). E convidou-me para dar a voz e o meu sofrível inglês de Benfica a esta sua misteriosa criação numa maquete que já anda a correr mundo e que requer o vosso feedback. Visitem o blog Do Do You Know Me Me? para saber mais, deixem lá o vosso comentário e espalhem a palavra!

 

 



 

Há uma certa verdade nisto: em supermercados baratuchos como o LIDL, encontra-se, muitas vezes, produtos de altíssima qualidade a preços irrisórios, produzidos por empresas de que nunca ninguém ouviu falar. Actividade Paranormal está para o cinema de terror como a lasanha do LIDL para a gastronomia: é baratucho e ninguém sabe bem de onde é que veio, mas deixa um indivíduo satisfeito e mais bem alimentado do que se tivesse optado por muita marca mais cara e reputada.

 

É fácil dizer mal de Actividade Paranormal, como era também fácil dizer mal não só da lasanha do LIDL, como de Projecto Blair Witch. Basta assumir a pose arrogante de "eu-tenho-lá-algum-medo-de-fitas-de-terror-baratas" (no que toca à lasanha, já esgotei as analogias; se me dão licença, concentremo-nos agora só nos filmes de terror). A verdade é que, com os seus ridiculamente baixos orçamentos, são os dois filmes americanos de terror dos últimos dez anos mais preocupados em... meter medo. Porque quando não há dinheiro nem CGI para povoar uma fita de espectros vistosos e criaturas medonhas, coisas tão rudimentares e elementares como a espera ou o ruído valem por tudo. O que mais estreia são filmes de terror preocupados em fazer bonito (boa parte dos recentes remakes de clássicos do género) e só depois pensar se a coisa mete, de facto, medo. Actividade Paranormal, falso documentário sobre um jovem casal que tenta capturar, em vídeo, os espíritos que lhes tiram o sono, tem como missão prioritária provocar valentíssimos arrepios na espinha do espectador - e se ele for predisposto para tal, consegue-o com grande eficácia.

 

A espera é o mecanismo mais extraordinário do terror, como o prova este filme hiper-baratucho do jovem Oren Peli, feito com amigos na casa dele, mas com uma tremenda sede de perfeccionismo e vontade de inquietar. Boa parte do tempo de projecção de Actividade Paranormal é ocupada pelo plano fixo de um quarto, como se vê aqui em cima, e o espectador sabe que algo irá acontecer, algumas vezes requerendo uma atenção quase "Onde-Está-o-Wally" para não perder nenhuma subtileza. E coisas acontecem, em crescendo: sons que cortam a madrugada, objectos que se movem... e mais não se avança para não estragar a experiência. Apenas se diz que este objecto típico da geração You Tube é dos que mais se aproxima das intenções mais antigas do cinema de horror e que isso, para um fã devoto do género, faz de Paranormal Activity um verdadeiro maná de gostosa cagufa.



... ou PAI, como apreciamos chamar-lhe, é um novo talk show que o Diogo Beja e eu apresentamos aos sábados, entre o meio-dia e a uma da tarde. Estreia amanhã, com uma emissão que foi gravada hoje e que conta com o Bruno Nogueira e os Deolinda como convidados. É uma experiência nova, porque usamos, numa hora de rádio, o tipo de estrutura que geralmente se usa nos talk shows televisivos. Vamos lá ver se resulta, mas pelo menos assegura que a emissão tem um ritmo considerável. Na conversa com o Bruno, recém-saído de um implacável mas veloz ataque de gripe A, desenterramos alguns momentos do passado que ele apreciaria esquecer e que lhe provocam alguma angústia; os Deolinda dão um belíssimo show ao vivo; e eu e o Diogo Beja não nos deixamos vencer pelo facto desta ser a primeira edição e brindamos os ouvintes com um best of.

 

Ouçam tudo amanhã na Rádio Comercial, entre as 12h e as 13h. E entretanto, aqui fica uma espreitadela aos ensaios dos Deolinda.

 

 



Quando, na verdade, pretendem mandar mensagens ao respectivo cônjuge! Sim, é a mais recente produção videográfica de casa-de-banho transmitida para o mundo a partir da Casa Galvão Markl.

 

 



A Caderneta de Cromos, que abrimos de 2ª a 6ª na Rádio Comercial em duas edições - uma às 8h45, a outra às 9h45 - é uma rubrica que pretende criar a enciclopédia definitiva das coisas que fizeram parte da nossa jovem existência, algures entre os anos 70 e os 80 (sim, é uma rubrica thirtysomething ali como quem vai para o forty) e que bebe a sua inspiração de algum nobre trabalho feito, por exemplo, em Inglaterra (com o excelente TV Cream) ou na América (com o não menos excelente embora mais parcamente actuaizado X-Entertainment). A ideia é que, em cada edição, se analise um pedaço do nosso imaginário - seja sob a forma de série TV, brinquedo, comida, atitude, jogo de computador, qualquer coisa - e se tirem as devidas conclusões sobre o quão bizarra foi a época em que crescemos e como foram únicas as coisas que tivemos à nossa disposição para nos formar (ou nos retorcer) a mente. Em mais alguma época existiu um jogo que consistia num limão de plástico preso a um cabo, por sua vez enfiado no tornozelo (e, mais tarde, numa versão em que o limão deu origem a uma Bota Botilde?). Que outra geração vibrou com uma série sobre um tipo extremamente penteado cujo carro dava curvas de 90 graus e se fazia acompanhar de um cursor cintilante, algures entre a mais alta tecnologia e uma mosca?

 

A Caderneta de Cromos será um repositório cómico de todos esses pedaços da nossa existência e conta convosco - não só para proporem assunto relevante que queiram ver abordado na rubrica após vasculharem a vossa memória, mas para que contribuam de forma mais activa: ainda têm um ZX Spectrum funcional? Filmem-se (ou capturem som, que na rádio chega) jogando uma partida de Chuckie Egg ou afins, provando que ainda têm o velho jeitinho. Fotografem as vossas peças de colecção, por muito safadas e sujas que estejam para que possamos construir também um museu fotográfico que complemente a rubrica, no site. A Comercial forneceu-me um email para que possam enviar as vossas contribuições, propostas, ideias, insultos ou mimos e em breve esse endereço será revelado para que comecem a interagir com A Caderneta de Cromos e a ajudar a construí-la!

 

A Caderneta de Cromos tem este magnífico e muito retro "mais-do-que-um-mero-logotipo" criado pela Patrícia Furtado...

 

 

... e um tema musical original composto e interpretado pelo David Fonseca, que, no meio da digressão e de todo o trabalho de promoção do Between Waves está, ainda assim, generosamente, a trabalhar na música desta rubrica, quando poderia estar a dormir! É grande, o artista!





Conversetas
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Olhem para o que eu ando a fazer
Manhãs da 3: Todos os dias, nas manhãs da Antena 3

Contemporâneos: À Quinta-feira, na RTP1, mais ou menos às 22h30 (mas varia).

Nuno & Nando: Sábados, às 11h00, na Antena 3
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