Custa-me muito a aceitar que o António Feio se foi embora. Dita a razão que todos devíamos estar preparados para isto, mas a verdade é que raras vezes se viu alguém enfrentar um cancro com tamanha coragem e, porque não dizê-lo, sentido de humor. E isso não merecia um final feliz? Se a vida fosse como em alguns filmes, um homem que se fez a um terrível drama com a incrível alegria que o Feio foi mantendo - dentro da medida do possível, mas, por vezes, para lá disso - em tudo o que ia escrevendo no seu Facebook, no trabalho que continuava a fazer, na pequena janela de chat que se abria, de vez em quando, aqui no meu computador e onde me dizia que lá ia indo, ele teria vencido a doença. Infelizmente, a vida é, boa parte das vezes, uma valente merda.

 

Eu não tinha uma relação próxima de amizade com o António Feio, mas gostávamos de trabalhar um com o outro. E a minha história, como guionista, começa não só com o Herman, mas com ele: um dos primeiros trabalhos pagos que fiz na vida, foi co-escrever os sketches que o Feio interpretava no programa Ai os Homens, da personagem Jóni Bigode. O programa era péssimo, sejamos francos; mas o António era, obviamente, grande. E ficou-me a vontade, a mim que o via desde pirralho na TV (e como ele me emocionou de forma arrasadora numa novela em que fazia de toxicodependente, Origens), de trabalhar com ele em algo mais digno e aliciante. Mas em 95 isto eram sonhos de um escriba imberbe. Sonhos que se tornaram realidade quando co-escrevi, para ele, o José Pedro Gomes e um dos melhores elencos com que já trabalhei na vida, a série Paraíso Filmes. Na série, o António fazia de Túlio Gonzaga, o constantemente pedrado realizador da produtora / empresa de louça sanitária da Trafaria. Ele construiu a personagem tão depressa e de forma tão brilhante, logo ao primeiro episódio, que tornou a escrita dela, nos episódios seguintes, num dos melhores empregos que tive na vida.

 

Mais recentemente, trabalhámos - eu como autor da adaptação, ele como encenador e actor - na peça Os Melhores Sketches dos Monty Python. Foi uma experiência extraordinária vê-lo a dirigir as operações: sem nunca se irritar, milimetricamente lutando pela melhor maneira de cada gag funcionar no palco do Casino Lisboa. Não exagero quando digo que era um sonho trabalhar com ele: um bom homem, humilde, talentoso, adepto do trabalho em equipa, do diálogo para que tudo corresse na perfeição.

 

É inacreditável que ele tenha partido. Inacreditável. Apesar de, nos últimos dias, e depois da inquietante mensagem que ele deixou no Facebook, um pedido para que o deixassem em paz porque os últimos tratamentos estavam a arrasá-lo, todos temermos o pior. Finalmente derrotado? Talvez, mas conseguindo tempo para se explicar, para desabafar com os fãs e os amigos mais uma vez. É de Homem.

 

Um sonho cancelado: uma sequela da Paraíso Filmes, em que a produtora da Trafaria se dedicava a produzir as suas próprias versões de séries televisivas - Paraíso TV. Era uma ideia de sonho que andava há anos a ser falada nas Produções Fictícias, embora impossível de concretizar - e não só pelo que aconteceu ao António. A verdade é que hoje nenhuma estação de televisão arriscaria uma experiência tão diferente como a RTP arriscou naquela altura. Mas lembro-me de, sentado ao lado dele na plateia do espectáculo dos Monty Python, nos ensaios, comentar como seria interessante voltar àquele universo. O Túlio Gonzaga que ainda vivia dentro dele concordou.

 

Caro António, foi incrível trabalhar contigo. Espero que estejas já a trabalhar numa outra filial da Paraíso Filmes, um bocadinho mais distante que a Trafaria. Até um dia.

 

 

 



Aqui vai o serviço noticioso do Planeta Markl.

 

A Bela e o Paparazzo saiu em DVD...

 

 

... numa edição que contém extras gostosos. Nomeadamente ao nível das cenas apagadas. São cenas interessantes, mas que não encaixavam no filme e lhe atrasavam o passo, mas que agora podem ser apreciadas em todo o seu esplendor. Ainda não confirmei, mas creio que está lá o final alternativo filmado no Music Box, onde a minha personagem, Tiago, trama a vilã - a brilhante Maria João Falcão - numa cilada movida a coca. Que, na verdade, era leite em pó de bebé. O DVD inclui ainda comentário audio do António-Pedro Vasconcelos, o making of e o videoclip com a canção do Jorge Palma. Para quem tem preguiça de levantar o rabo do sofá para ir comprar a fita, ela está disponível nos serviços on demand da ZON e do MEO.

 

Entretanto...

 

A campanha TMN Banda Larga continua, desta vez com um anúncio criado pela TBWA produzido pela excelentíssima equipa da Tangerina Azul que muito gozo nos deu a filmar e onde o familiar e o profissional se encontram de forma explosiva, já que contraceno com a minha musa Ana Galvão numa aventura campista que poderão ver com mais algum detalhe em breve, na versão maior do spot. Esta é a versão de 30 segundos:

 

Hã, e não, não tive assim tantas namoradas. Mas agradeço aos criativos da TBWA por acharem que sim. Um tipo sente-se galvanizado - embora já me sinta isso todos os dias, ao partilhar a minha vida com uma Galvão.

 

Já agora, aqui estão os dois spots anteriores desta campanha:

 

Ainda faltam dois, nesta série. Um dos próximos diz que envolve o ataque de um javali. Tenho medo. A que preço estará o javali de CGI, hoje em dia?

 

Por fim: acedi ao simpático convite da revista Sábado para ser um dos protagonistas da experiência de Realidade Aumentada que eles vão fazer na edição da semana que vem. Na aventura, que poderá ser apreciada usando apenas um computador com webcam e ligação à net e a edição da Sábado, alinham também milady Ana Galvão, David Fonseca, Tim e o campeão de snowboard João Allen. Vocês vão ver todas estas pessoas ganhar vida nas páginas da Sábado, numa experiência que expande o conceito de revista de uma forma que será interessante continuar a explorar no futuro. Eu fiquei fã, e estou curioso para saber o que acham. A Esquire fez há uns meses uma experiência de Realidade Aumentada que fez furor; vamos ver que furor faz a nossa experiência! A Sábado de Realidade Aumentada sai dia 22 de Julho, quinta-feira.

 

Num registo mais deprimente, aproxima-se o dia em que faço 39 anos. Nunca mais voltarei a fazer anos com um 3 à esquerda. Aflitivo.



Chega a altura das férias e, coincidência ou não, lá regressaram as campanhas de difamação aqui do vosso amigo. Não tenho dúvidas que tanto esta, acabadinha de estrear esta madrugada, como as anteriores (os clones, as mensagens de ódio para comigo e a minha família) têm todas a mesma nascente - eu não sou assim tão importante e influente para suscitar o mesmo grau de empenho destruidor de várias pessoas, além de que o tipo de escrita tem tiques recorrentes, nas variadas encarnações deste ataque. É alguém a quem eu devo ter feito qualquer coisa, embora eu não faça ideia do que possa ter sido, porque tenho por hábito fazer aquilo que, pomposamente e também em inglês, se chama "minding my own business". Faço o meu trabalho, vivo a minha vida, sou feliz, não pratico a arte do lixar o próximo.

 

Serve, pois, esta mensagem, para vos dizer que a campanha espalhada esta noite por vários recantos da Internet com sede nesta morada - http://overdadeironunomarkl.tumblr.com - é, obviamente, mais uma maquinação de um dos meus criativos inimigos. Que pode ser só um. E digo "criativo", porque, desta vez, tenho de admitir que isto é de grande espectacularidade: foi criado um perfil de Facebook com o nome "Afonso Queirós", um moço que se diz estudante e que publica uma suposta troca de emails que aconteceu entre ele e eu. Ele diz que me mandou um argumento dele para eu ler, e depois publica um suposto email meu onde eu digo uma quantidade tão notável de alarvidades que não é preciso conhecerem-me a fundo para se perceber que é uma coisa mais falsa do que os seios da Pamela Anderson. No referido email, entre outras coisas, "eu" conto a um total e completo estranho que o meu trabalho se baseia em copiar piadas dos DVD estrangeiros que compro na Amazon e que só faço campanhas pelos direitos dos animais porque a minha namorada me aconselhou, pois fica bem. O email tem falhas de pontuação, de maiúsculas (coisa que este vosso compincha faz questão de não cometer), mas é o conteúdo, tão grotesco - apesar de detalhado - que denuncia, a quem tenha mais de dois dedos de testa, que se trata de uma aldrabice das antigas.

 

É claro que nem toda a gente é obrigada a ter dois dedos de testa ou a estar assim tão atenta ao amadorismo do "Afonso Queirós" no que toca à arte de aldrabar. Por isso, o moço passou a noite a espalhar a mensagem em lugares estratégicos onde sabe que andam pessoas que gostam do meu trabalho e/ou que me conhecem, ou pessoalmente, ou profissionalmente. E a coisa está a dar frutos: já me cruzei com umas quantas pessoas que paparam a história do email, apesar daquilo tresandar a "fake" por todo o lado - desde o texto à maneira como o template do email está "photoshopado".

 

A conspiração "O Verdadeiro Nuno Markl" já andava hoje por zonas de comentários de blogs que me são próximos, como o do meu amigo, colega e actual director Pedro Ribeiro. E, embora eu comece a ficar habituado às investidas deste cromo, ele conseguiu ainda preocupar pessoas da minha família pela mesma razão que já o tipo que assinava com o nome do meu filho no Twitter (e que deve ser o mesmo) as preocupava: ele sorve a minha existência, usa-a, fala da minha namorada, do meu filho, da minha vida, como se quisesse fazer parte dela; como se achasse que o destino teve um erro de casting e me colocou num sítio onde ele deveria estar.

 

A culpa é minha, não tenho dúvidas disso: tudo o que está da minha vida no email falso que ele ostenta na página "O Verdadeiro Nuno Markl" são pecinhas que ele foi recolhendo atentamente ao longo de todos estes anos - as referências à minha família, ao meu amigo e colega de escrita Francisco Palma, à zona onde vivo - porque são coisas que eu uso, frequentemente, nos meus posts. Hoje, mais do que uma pessoa me dizia: "Tu abriste demais a tua vida". Nunca vi bem a coisa assim: eu usei a minha vida - uma parte muito controlada da minha vida, com limites que tenho bem marcados - como material de entretenimento. E isso é o mais psicopata da escrita dele: que ele me queira mal, que me queira destruir - eh pá, força, ataque o meu trabalho, acuse-me de plágios, do que quiser. Mas este tipo envolve protagonistas da minha vida que não têm nada a ver com esta guerra e que, involuntariamente, eu atirei para este mundo tão cheio de pessoas interessantes como de psico-socio-patas deprimentes e potencialmente perigosos que é a Internet.

 

Por isso, agradeço ao "Afonso Queirós" pela lição que me deixou, com esta grandiosa campanha noctívaga: realmente, tenho um filho com um ano e ele não merece nem ser citado numa campanha destas, nem que haja um tipo a roubar-lhe o nome para se fazer passar por ele no Twitter. Por isso, nada mais da minha vida pessoal e familiar será referido em lado algum das minhas paragens internéticas - nem no meu Facebook, nem no meu Twitter, nem no meu blog. A partir de agora, ela fica para mim e por essas paragens divulgarei o meu trabalho e, eventualmente, alguma dica de filme / série / música que me apeteça partilhar. Isto esfria consideravelmente a minha presença na net, mas já chega de ver os nomes de pessoas da minha vida serem usados e abusados por este cromo.

 

Quanto à campanha "O Verdadeiro Nuno Markl", servirá para separar o trigo do joio: quem acreditar naquilo, claramente não merece ser meu fã (se é que alguma vez foi) e pode ir à sua vida. Penso que, à excepção de denunciar o "Afonso Queirós" ao Facebook e ao Tumblr como um aldrabão mal intencionado, pouco mais pode ser feito - a Internet é um maravilhoso mundo de impunidade onde uma pessoa com tempo suficiente nas mãos pode dedicar-se a sujar a vida a qualquer um, escondido sob a capa espessa do anonimato (visto que atrás de testículos espessos é difícil que se consigam esconder).



 

É já hoje que o meu bom amigo Fernando Alvim reúne, numa mesma sala, vultos do calibre de Vítor Espadinha e Valentina Torres, para o 2º Festival Alternativo da Canção! É às 22h na Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense (na Rua Alferes Santos Sasso, nos Olivais), os bilhetes são baratos e todas as informações sobre este que é o maior evento musical do Universo, podem ser consultadas aqui!



A rubrica Caderneta de Cromos, na Comercial, está a atingir a 200ª edição (ena!), que irá para o ar às 9h45 de segunda-feira. Na página oficial de fãs da Caderneta no Facebook já há festejos a decorrer e, por cortesia de uma ouvinte, a Rita Correia, os festejos estão a estender-se a carros, locais de trabalho e desktops. A Rita criou um "autocolante" (em aspas, porque de momento é preciso recortar e colar com fita-cola e não se cola a ele próprio!) que impressionou de tal maneira o Pedro Ribeiro que já estão a ser desenvolvidos os devidos esforços - com a permissão da Rita, autora da frase e do design - para que aquilo, muito em breve, se transforme num autocolante a sério, que será distribuido - GRÁTES! GRÁTES! - pela Rádio Comercial. Enquanto isso não acontece, a comunidade croma usou a impressora, tesoura, fita-cola (em alguns casos parece que Cola Cisne também terá sido usada) e fotos das mais variadas proveniências começaram a chegar ao Facebook:

 

 



Reza a sabedoria popular que quem anda à chuva molha-se. Eu sei disso, e sei que a partir do momento em que tenho um blog e recantos nas redes sociais do Facebook e do Twitter, as coisas que lá ponho, não deixando de ser pessoais, passam a ser de quem as apanhar - e muito tem sido apanhado por jornais e revistas dos posts que deixo espalhados por aqui e por ali - geralmente acompanhadas de um "de acordo com o que escreveu no seu blog". Por isso, não protestarei se alguma coisa que eu aqui diga se tornar notícia; poderei argumentar que, quando aprendi jornalismo, o tipo de coisas que eu partilho com quem acompanha o que faço, estava longe de ser considerado material digno de encher páginas de jornal. Mas o mundo mudou bastante desde que aprendi jornalismo, nos idos de 90-91. Tanto assim que uma disciplina que não tive, na minha aprendizagem do ramo, foi a de Clicagem do Botão Refresh do Browser, uma especialização que, constato, muito jovem jornalista tem hoje em dia. No tempo em que aprendi jornalismo, jornalistas, repórteres, saíam, de facto, das redacções. Faziam reportagens. Pesquisavam. Mas a ver pela quantidade de material do meu blog que já foi usado pelas mais variadas publicações, e pela rapidez com que esse material foi transformado em "notícia", há jornalistas, hoje em dia, cuja grande arte é passar uma tarde a fazer refresh no Firefox / Explorer / Safari, a ver quando sai post novo e relevante (hei-de experimentar escrever um sobre o funcionamento dos meus intestinos, só para testar até onde vai o interesse jornalístico do meu mundo).

 

Algumas horas depois do meu pai falecer, na semana passada, escrevi um post - podem lê-lo abaixo - onde assinalo o facto de forma emocionada e visceral. É claro que não estranhei quando algumas publicações citaram esse post - mas aí é que está: citaram é a palavra-chave, aqui. O 24 Horas, por exemplo, dedicou uma página ao assunto, ilustrada com pedaços do meu post e referindo a origem dessas citações. A Lux enviou um paparazzo ao funeral do meu pai e fotografou-me família, amigos e uma perturbante imagem gigante do caixão saindo da capela. Gosto discutível, sensação de devassa de um momento pessoal - mas, de certa maneira, compreensível (quem anda à chuva molha-se, lá está). Nesse artigo complementaram-se as fotografias com excertos do meu post aqui de baixo, mas sempre citando a origem desses pedaços de texto.

 

O que me custou muito a compreender foi o que fez a Nova Gente.

 

 

Numa secção da revista dramaticamente intitulada "A Dor..." (assim mesmo, com reticências; não percebo se para efeito poético ou para deixar um espaço em branco para preencher, semanalmente, quem são os diferentes doridos), o texto integral que aqui escrevi sobre a morte do meu pai surge numa coluna toda jeitosa com o título "A Carta Aberta da Semana", com uma fotografia minha e, rematando todo um conjunto de espectacular gosto tendo em conta o assunto do texto, uma outra foto minha e da minha namorada Ana, por coincidência vestidos de preto (conveniente) mas à saída da maternidade, em Junho passado, sorrindo alegremente e segurando o ovo onde estava deitado o Pedro. O mau gosto de tudo aquilo que está impresso é o menos; cada um tem o gosto que tem e nem todos podem nascer com o dom da sensibilidade. O mau gosto profundo e imperdoável está na maneira como, com uma falta de respeito, de consideração, dos mais elementares mecanismos da vida em sociedade; em suma: de decência, pura e simples, a Nova Gente estampa a homenagem que aqui fiz ao meu pai naquela página não se preocupando nem em pedir-me permissão pela publicação do texto integral, nem fazendo a mais pequena referência ou enquadramento sobre de onde o tirou. Quem veja aquela página da Nova Gente pensa o que pensaram algumas pessoas com quem falei e que viram esta edição da revista: que escolhi a Nova Gente como nobre plataforma para a despedida do meu pai. Que, eventualmente, lhes dei ou vendi o exclusivo da minha dor. Não há nada naquela página, naquela coluna, que explique que aquilo foi um texto publicado num blog pessoal.

 

E era tão simples, o que eles deveriam ter feito: primeiro, um pedido de autorização da publicação do texto; mas acima de tudo, uma referência do local de onde o tiraram. Era só. E nessas condições, se calhar, eu até lhes tinha dito que sim senhor. Mas o "jornalismo" da era do refresh já nem isso faz; limita-se a pilhar, a roubar por esticão, independentemente do enquadramento, da tragédia, de tudo. Parte do ordenado de um "jornalista" da Nova Gente paga um simples copy+paste (bons empregos!) - e, de repente, o meu texto pessoal, publicado no meu blog pessoal, sobre um acontecimento tão pessoal como a morte do meu pai, passa a ser um texto de uma coluna da Nova Gente.

 

É abjecto. E sim, quem anda à chuva molha-se. Mas mesmo quem anda à chuva ainda acredita que, no meio de todas as gotas da chuva, ainda surja um ou outro pingo de elementar decência. Parece que na Nova Gente não usam disso, mas quero acreditar que ainda terão um resto perdido numa gaveta que lhes permita, pelo menos, apresentar um pedido de desculpas e um esclarecimento numa próxima edição.



 

Esta semana não haverá edições novas da Caderneta de Cromos, na Rádio Comercial; e nem eu, nem a minha irmã apresentaremos A Rede, o nosso magazine do Canal Q (à excepção do programa que irá para o ar amanhã, segunda-feira, que foi gravado na sexta). Neste triste domingo de Páscoa perdemos o nosso pai, vencido que foi pela doença com que se debateu nos últimos tempos. Devia prestar-lhe uma digna homenagem neste espaço, mas neste momento é difícil articular uma única ideia de jeito. Apenas vos digo que muitas recentes edições da Caderneta têm sido quase um tributo instintivo ao meu pai: foi ao lado dele, no sofá da nossa casa de Benfica, que vi muitas das séries televisivas de que tenho falado; foi com ele que experimentei muitos dos brinquedos que têm sido tema de várias edições da minha rubrica; foi ele o duende agente secreto que, todos os Natais, organizava para mim e para a minha irmã a mais complexa operação de prova da existência do Pai Natal. Cioso do seu mundo, vivendo praticamente dentro dos quadros clássicos que estudou e perdido nas estimulantes batalhas das inúmeras partidas de xadrez que jogou, ao som de uma telefonia sempre sintonizada na Antena 2, mesmo que o velho Dagoberto não tenha sido, por vezes, o mais presente dos pais, constato agora que esteve em momentos suficientes para que, neste momento, eu me sinta invadido por uma gigante tristeza e saudade. A minha irmã recordou-me hoje algo que ele disse há muitos anos: que no dia em que morresse, preferia que nos ríssemos em vez de chorar. Isso é impossível, mas pelo menos conto regressar ao humor desta segunda a oito. Sendo que foi dele que herdei o sentido de humor e o gosto por fazer rabiscos, retomar o meu ofício será a melhor homenagem que lhe poderei fazer.

 

Comunista convicto a vida toda e tremendamente céptico no que toca a religião e algum esoterismo, o meu pai nunca negou que tinha uma tremenda curiosidade e interesse pelo que pudesse haver no outro lado. Espero que lá haja alguma coisa, que esteja de acordo com as expectativas dele e que ele esteja feliz a descobri-la.

 

Até um dia destes, pai.



 

O Ricardo Augusto é mais do que um mero fã da minha rubrica na Rádio Comercial, A Caderneta de Cromos. Foi um dos primeiros a registar-se na gigantesca comunidade em que se tornou a página Facebook da rubrica, foi criador de diverso conteúdo humorístico original em video, filmando as suas odisseias para encontrar Peta Zetas e na descoberta do embaraçoso clássico Emílio e os Detectives numa livraria de Berlim, organizou a petição que pedia o regresso do gelado Fizz Limão (e que chegou às altas esferas da Olá!), movimentou outros ouvintes da Caderneta em convívios de fãs - em suma, quase posso dizer que o Ricardo Augusto, senhor de um sentido de humor refinado e de uma capacidade mobilizadora única, compincha que não conheço fora da Internet, acaba quase por ser o meu braço direito na construção da entusiasmada e participativa comunidade da Caderneta de Cromos!

 

Infelizmente, há uma semana, o Ricardo teve um violento acidente de viação. Está em coma, no Hospital de São José, e apesar da gravidade dos ferimentos tem dado indícios de uma lenta mas promissora recuperação. Tem sido extraordinário ver boa parte dos quase 47 mil fãs registados da página Facebook da Caderneta de Cromos criar uma tão poderosa onda de solidariedade e de amizade para com o Ricardo. E eu, que não acredito por aí além em coisas que não vejo, começo a pensar que a energia provocada por este encontro de pessoas é bem capaz de sair disparada em direcção a São José, entrar pela janela do quarto do Ricardo e ajudá-lo a regressar, rapidamente.

 

Associada a este caso do Ricardo está a Corporação dos Bombeiros de Alcochete. Foram eles, liderados pelo comandante Paulo Vieira - também ele parte da comunidade de ouvintes da Caderneta de Cromos no Facebook - que procederam ao salvamento do Ricardo. Na operação, ficou arruinada a tesoura de desencarceramentos - um acessório que custa 15 mil euros. A Corporação dos Bombeiros de Alcochete debate-se com sérias dificuldades financeiras e não tem grandes (ou nenhuns) apoios. Perante um caso parecido com o do Ricardo, estão em falta de um acessório que fará toda a diferença.

 

No momento em que vos escrevo estas linhas, a comunidade de ouvintes da Caderneta de Cromos tem, precisamente, 46621 elementos. Se cada um der 1 euro que seja, será uma magnífica contribuição, e que deve estimular a que se apoiem tantas outras corporações de bombeiros que, em Portugal, vivem com sérias dificuldades.

 

Um grupo de fãs da Caderneta lançou esta ideia, em homenagem ao Ricardo, e eu de imediato a apoiei e agora a divulgo aqui. Mais informações nesta página e também espalhadas pelo mural da página oficial da Caderneta de Cromos. A melhor homenagem que podemos fazer ao Ricardo Augusto é, para além de continuarmos todos a pensar nele e a apoiar a família dele neste momento mau que se espera breve, ajudar os profissionais que o ajudaram, faz hoje uma semana.

 

O NIB da Corporação de Bombeiros de Alcochete - 001000002303978000158. (Obrigado à Priscila Veríssimo pela informação e dedicação à causa!)

 

De acordo com a descrição que os bombeiros fizeram à Isabel, irmã do Ricardo, o Ricardo estava consciente quando chegaram ao local do acidente e fez-lhes o gesto do polegar para cima, daqueles que se usam para dizer que está tudo bem. Daí a pouco perderia os sentidos e entraria em coma, mas esse brevíssimo momento descrito pelos bombeiros, vejo-o como um tremendo sinal de esperança de que vai tudo correr bem e de que este Cromo, com respeitosa letra maiúscula, vai safar-se desta com a mesma energia e sentido de humor com que fez os seus videos para a Caderneta. Há uma cadeira à espera dele, no estúdio onde fazemos o Programa da Manhã da Comercial, para, quando estiver recuperado, vir participar numa edição da rubrica de que sempre foi uma parte tão importante, desde o primeiro episódio, em Novembro. Até já, Ricardo!



Como já é público, está prestes a abrir o canal de televisão das Produções Fictícias - chama-se Q, funcionará durante o horário nobre no canal 15 do Meo, e é lá que irei apresentar, às 2ªs, 4ªs e 6ªs, o programa A Rede. Vai ser divertido, porque é, no fundo, a versão televisiva do espírito deste blog, do Facebook e do Twitter - sobretudo no que toca a sugerir as coisas interessantes que há para ver / ouvir / ler / jogar / etc. E sempre com convidados de altíssimo gabarito.

 

Às 3ªs, 5ªs e 6ªs, A Rede terá como apresentadora a Carla Gomes, que alguns de vós reconhecerão das reportagens que fez para diversos programas da RTP e também da banda onde é vocalista, os Nicorette:

 

 

(Posso assegurar que a Carla não irá apresentar o programa envolvida no lençol.)

 

Não sei se repararam que a 6ª feira é um dia coincidente nos dois apresentadores. Significa isso que, ali à entrada do fim-de-semana, apresentaremos o programa os dois, numa dinâmica A Bela e o Monstro. Atenção: monstro, no sentido de monstro sagrado, porque eu, de alguns ângulos e com determinada luz, sou um indivíduo extremamente bonito. Bonito talvez não de uma forma George Clooney; bonito assim da maneira como se diz, por exemplo, que um cão é bonito. Um daqueles rafeiros de olhar meigo. Já não é mau.



 

Por várias ordens de razões, Jerry Seinfeld não precisava de fazer mais nenhum programa de televisão na vida: primeiro, porque fez uma sitcom tão revolucionária, definitiva e tão eternamente actual em todo o seu dissecar das pequenas coisas da vida, que poderá ser vista daqui a 100 anos e ter a mesma graça e impacto que teve quando estreou nos anos 90. Depois porque... bem, porque é multimilionário, continuará a ser e assegurará que os seus herdeiros continuarão a ser - basta a série Seinfeld existir e continuar a passar em canais de televisão pelo mundo fora e a vender DVDs.

 

Por isso, tudo o que ele fizer agora nunca poderá receber o carimbo de "fê-lo por dinheiro". Ele pode fazer o que lhe der na gana, e depois de ter co-escrito e interpretado um filme de animação que tive a honra de dobrar quando passou por cá - Bee Movie, que me valeu ainda esse momento histórico da minha vida que foi conhecer e conversar com o próprio Seinfeld! - agora deu-lhe na gana fazer um reality show cuja premissa soa menos a Seinfeld do que a João Kleber: casos reais de discussões entre marido e mulher, arbitrados por um apresentador que, na tarefa, é ajudado por um painel de celebridades. É claro que, estando Jerry Seinfeld por trás do projecto, esperava-se que The Marriage Ref fizesse pelos reality shows o que Seinfeld fez pelas sitcoms clássicas de três câmaras e público ao vivo: que, usando um formato batido, o minasse com acidez e inteligência, transformando-o em algo de novo. Acontece que, lendo praticamente todas as críticas que saíram na imprensa um dia após a transmissão do primeiro episódio, a ideia que fica é que The Marriage Ref é o pior programa de sempre da História da TV. Um crítico chega ao ponto de dizer que The Marriage Ref é tão mau que pode fazer um espectador questionar a própria série Seinfeld. (Este crítico é parvo.)

 

Nada como o pior hype do mundo para ter surpresas agradáveis. Talvez porque, em Portugal, estejamos habituados a reality shows tão xungas (o que diriam os críticos detractores de The Marriage Ref se vissem algumas das coisas que têm sido feitas por estas bandas?), ver The Marriage Ref tem o seu quê de refrescante: começa logo pela categoria do apresentador (Tom Papa é um excelente comediante de stand-up) e estende-se à categoria do painel de convidados (que incluiu, no primeiro episódio, o próprio Jerry Seinfeld, Alec Baldwin e Kelly Ripa), todos eles assegurando que o programa é eficaz, espirituoso... e rápido. Aliás, a duração é um dos pontos vencedores do programa: cada vez me convenço mais de que todos os programas de humor deviam ter 22 minutos. Infelizmente, em Portugal, tal duração é unanimemente considerada pelos canais de televisão como mau negócio.

 

Onde é que a coisa me parece que falha? Precisamente no que motiva toda aquela gente a estar ali no estúdio: as brigas dos casais, propriamente ditas. Analisando os dois casos apresentados no primeiro programa, há um cão empalhado a provocar uma tensão num casal e, noutro, um varão de striptease que um marido insiste em instalar no quarto, com o argumento de que "pode arrumar-se na garagem e parecer um acessório de pesca". As histórias são material que tresanda a episódios de Seinfeld ou Curb Your Enthusiasm, mas aqui isso não é exactamente um elogio: a verdade é que a parte de reality deste show soa tão espectacularmente forçada, tão escrita e tão pouco espontânea (e, sejam os elementos dos casais actores ou gente real, eles não são Jerry Seinfeld, Julia Louis Dreyfus, Larry David ou Cheryl Hines!) que isso acaba por provocar um certo desconforto durante todo o visionamento do episódio - apesar, lá está, do talento das pessoas em estúdio assegurar que há ali momentos hilariantes de conversa.

 

Seja como for, sou rapaz para ficar espectador de The Marriage Ref, sobretudo porque entre os próximos convidados estarão Larry David, Ricky Gervais, Madonna, Tina Fey e Sarah Silverman. Tendo em conta que as audiências não foram por aí além e que todos os críticos estão a crucificar o programa, é provável que ele não dure muito tempo - por isso, é de aproveitar enquanto dura!





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Olhem para o que eu ando a fazer
Caderneta de Cromos - 2ª a 6ª feira, 8h45 e 9h45
(o clube de fãs no Facebook)

PRIMO - Sábado às 12 e Domingo às 23h00
(site do programa)

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