Uma das melhores coisas de
Zodiac, na sessão em que o vi, foi ouvir, na fila atrás da minha, as fabulosas reacções de um bando de jovens grunhos. Claramente iam à procura de uma fita de
serial killers a estraçalhar adolescentes, daquelas em que se resolve tudo no fim (e em que, na mais arrojada das hipóteses, o assassino volta uma última vez no plano final, abrindo a possibilidade da sequela). E há também o síndroma
CSI: com todo o respeito que a série me merece, a verdade é que há toda uma geração formatada pela resolução rápida e compostinha de crimes em 40 minutos que, quando confrontada com um filme sério, detalhado, baseado numa investigação real e lidando com a frustração perante a impossibilidade de resolução de um caso diz coisas formidáveis como a que ouvi a um dos jovens, a dada altura: "Eh! Como se fosse possível um crime demorar tanto tempo a resolver!"
De facto,
Zodiac tem a duração de quatro episódios de
CSI seguidos... e não resolve o caso. Não tem correrias, perseguições ou doses generosas de terror, tem pessoas conversando, trabalhando e vivendo a sua obsessão em casas, redacções, escritórios, esquadras; tem pudor na encenação dos (poucos) actos de violência do assassino e, no entanto, é um óptimo filme. Não será o melhor de David Fincher (para mim a obra-prima dele é
Fight Club, com
Seven logo a seguir) mas é um filme à antiga, à anos 70, à Sidney Lumet e Alan J. Pakula
, riquíssimo em diálogos (muito se fala, neste filme) e em detalhes e capaz de tornar interessante e satisfatória para o espectador paciente a história de um caso que continua em aberto. E é sempre interessante ver tantos bons actores partilharem cenas - Jake Gyllenhaal, Robert Downey Jr, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Brian Cox, Chloe Sevigny... - e uma reconstituição dos anos 60 e 70 tão precisa que Fincher até foi buscar os logotipos antigos da Warner e da Paramount para começar o seu filme, para além de ter chamado David Shire, lendário compositor de bandas sonoras dos 70s (fez a música de um dos meus filmes de culto absoluto,
The Taking of Pelham 1-2-3) para compor a partitura de
Zodiac. O filme transpira anos 70 por todos os poros, mas sem
show off; aliás, esta acaba por ser a fita mais contida de Fincher (e talvez por isso, e apesar de ter gostado, tenha ficado a suspirar pelo outro Fincher, mais louco e inventivo).
Seja como for, achei
Zodiac um belo filme. Vai desiludir muita gente sedenta de sangue e de resoluções fáceis, mas é muito, muito
cool.
Sr. Markl, para quando um novo Websodio?