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Tideland - O Mundo ao Contrário em DVD.
Sou fã de Terry Gilliam desde os tempos em que ele era o animador dos Monty Python (e co-realizador de Monty Python e o Cálice Sagrado) e mantive-me fã do Gilliam-realizador de cinema, o génio louco por trás de Brasil - O Outro Lado do Sonho, Os Bandidos do Tempo, O Rei Pescador, 12 Macacos ou Delírio em Las Vegas. Raras foram as produções em que ele se meteu em que não acabasse de candeias às avessas com os respectivos produtores, incapazes de aceitar de ânimo leve os devaneios criativos do cineasta. Mas sempre admirei a teimosia de Gilliam em não se vergar a Hollywood, em lutar até ao descrédito pela sua visão pessoal e, acima de tudo, em nunca perder o humor perante a hecatombe (para que se constate isto é muito aconselhável ver o documentário Lost in La Mancha, sobre as fracassadas rodagens de The Man Who Killed Don Quixote). Os Irmãos Grimm foi a última tentativa de Terry Gilliam em trabalhar dentro do sistema - e, como não podia deixar de ser, pouco faltou para andar à pancada com Harvey Weinstein.
É por isso compreensível que depois de tantos anos em guerra com os suits de Hollywood, o ex-Python decida rebentar com tudo naquele que é o seu primeiro filme verdadeiramente 100% independente. Isto é Terry Gilliam puro e inadulterado - só que vezes 1000, precisamente porque o homem está inebriado com as doses de liberdade criativa que tem em mãos e decide vingar-se de décadas de controlo por executivos, não falhando quase nenhum tabu dos grandes e fazendo com que Fear and Loathing in Las Vegas pareça um episódio de sitcom.
O resultado é um conto de fadas / comédia negra ("Alice no País das Maravilhas misturado com Psycho", chama-lhe o realizador) onde desfilam, com uma violência e um negrume nunca antes tentados, assuntos como maus tratos a crianças, drogas com fartura, corpos em decomposição, taxidermia aplicada a seres humanos, necrofilia, pedofilia... A lista vai por aí fora. E levou a que muito crítico de cinema decretasse Tideland como "inaceitável", "impossível de ser visto", e outros mimos.
De facto, Tideland não é um murro no estômago; são vários - eu diria que é um espancamento completo, incluindo pontapés na boca. E há muita coisa lá dentro que não funciona, que cansa, que maça, que equivale a ter alguém a gritar-nos aos ouvidos sem dizer nada de relevante. Mas há também coisas muito boas nesta celebração da imaginação infantil perante um cenário de tragédia. A protagonista, uma miúda de 10 anos chamada Jeliza-Rose (uma impressionante interpretação de Jodelle Ferland) constrói um mundo de fantasia para se evadir da realidade, que começa queriducho e termina perigosamente perto da mais angustiante esquizofrenia, e a maneira como Gilliam nos vai servindo essa dura transformação tem momentos muito inspirados. Além disso, há qualquer coisa de irresistível em ver um cineasta de imaginação delirante em rédea solta... mesmo quando ele falha.
Talvez Gilliam precise de uma pitada de conflito com os produtores para ser realmente brilhante (pessoalmente, eu acho que isto acontece também com David Cronenberg; acho que ele é mais grandioso quando trabalha na indústria a fazer obras-primas como A Mosca ou Uma História de Violência do que quando tem rédea solta para fazer Spider ou eXistenZ). Tideland acaba por sofrer com o excesso de loucura e efeitos de choque: em vez de nos surpreender como Brasil ou O Rei Pescador, bombardeia-nos incessantemente com situação grotesca atrás de situação grotesca até ao ponto em que já não nos consegue chocar - apenas fazer bocejar e olhar para o relógio para ver se ainda falta muito para acabar. E 115 minutos é tempo demais para acompanharmos o quotidiano repetitivo de uma criança que vive com o cadáver decomposto do pai, convive com um par de vizinhos estranhíssimos e conversa com velhas cabeças de bonecas, algumas delas num estado lastimoso de desfiguramento. Porque na prática não acontece muito mais do que isto em Tideland.
No entanto, não é a tragédia que muitos descreviam. E não me fez perder o respeito pelo grande Gilliam, pelo contrário. O extremo de "vão-à-merda" a que Tideland chega só me faz ficar curioso com aquilo que ele vai fazer a seguir. Partindo do princípio que, depois de uma obra tão incorrecta como esta e de uma zaragata com os Weinstein, alguém lhe vai pôr dinheiro nas mãos para fazer outro filme...