
Inesperadamente fria, a reacção generalizada dos críticos portugueses a
Borat, filme corrido maioritariamente a uma, duas estrelas, e com uma bola negra oferecida por um crítico por quem tenho grande respeito pessoal e profissional e que não esperava que escrevesse as palavras que escreveu. O João Lopes define o filme como uma nulidade cinematográfica que não passa de uns meros "apanhados da TV".
Borat é tão claramente mais do que isso, que escrever uma observação daquelas soará sempre a uma azeda injustiça e manipulação. Pode não se gostar do humor de Sacha Baron Cohen (como todo o humor que fica para a História, gera paixões e ódios), mas voltamos a uma certa absurda manipulação da realidade para fins de destilamento de ódio, o tipo de coisa que lemos em algumas críticas musicais de João Lisboa (voltamos à famosa comparação que João Lisboa fez entre o
Guero de Beck e os discos mais recentes de Sting, dizendo que é o mesmo tipo de coisa).
Fico sempre razoavelmente deprimido com o assustador preconceito da crítica portuguesa no que toca a comédia. E, não me lixem, ele
existe, de facto. Se repararem bem - e salvaguardando algumas excepções que não têm medo do humor (estou a pensar em críticos como o Manuel Cintra Ferreira, o Eurico de Barros, o Rui Pedro Tendinha, o Jorge Mourinha ou o Rui Brazuna), por muito boa e plena de prestígio que seja uma comédia - estou a pensar em
Little Miss Sunshine, por exemplo - e por entusiástico que seja o texto de determinado crítico, a equivalência "estelar" (que, quer-se queira, quer não, é aquilo para onde as pessoas olham, imediatamente) será quase sempre tímida. Duas, três estrelas. Há claramente um terror de ser mãos largas com a comédia, por muito reconhecidamente inteligente que ela seja, por muito que ela arranque gargalhadas a quem escreve, durante os visionamentos. É, aos olhos de muita gente que escreve sobre cinema, um género menor. Quase como se ficasse mal ser demasiado expansivo com um produto de humor. Até o clássico
Dr. Strangelove, de Kubrick, foi sovado recentemente no Público por Mário Jorge Torres (ele chamou-lhe "um clássico para quem não se lembra dos clássicos"), a propósito da estreia do filme
Eu, Peter Sellers.
Voltando a
Borat coloca-se, uma vez mais, a questão: o facto de, por todo o mundo, a crítica de cinema elogiar entusiasticamente esta espécie de revolução cómica (estou a falar, é claro, em traços gerais; é evidente que haverá entre os críticos de todo o mundo quem odeie o Sacha Baron Cohen e tudo o que ele faz e representa) e de, em Portugal, raros serem - até ao momento - os críticos realmente entusiasmados com o filme, significará exactamente o quê? Que os nossos críticos é que viram a luz? Ou, simplesmente, que Portugal é um caso perdido de incapacidade dos críticos de saberem distinguir entre uma boa e uma má comédia?
Pela parte que me toca, é um orgulho ter uma frase no poster do
Borat. Acredito mesmo que se vai falar deste filme daqui a muitos anos e que é uma genuína revolução na linha dos Irmãos Marx, do
Dr. Strangelove do Kubrick ou d'
A Vida de Brian dos Monty Python. Lamento estar a disparar o "hype" para píncaros dos mais extremos. É sabido que, quando o "hype" é grande, a desilusão é quase sempre garantida (nem sabem a quantidade de amigos meus que me tem dito "eh pá, depois do que tu disseste e escreveste eu ia à espera que fosse muito melhor!"), mas a verdade é que me ri como há muito não me ria e fiquei maravilhado perante as barreiras que se quebram na comédia cinematográfica e que me fazem pensar num a.B e d.B (antes de
Borat e depois de
Borat). Lamento se vos desiludir, mas para mim é um dos melhores filmes do ano e lá estará no meu top 10...