Admiro o Armando Teixeira. É uma das maiores forças criativas da música portuguesa, um talentoso músico, intérprete, DJ e é também um dos maiores crooners da pop nacional do pós-Rui Reininho. Lembro-me da espantosa música do projecto Bulllet que ele levou ao Homem Que Mordeu o Cão TV (tínhamos boa música, nesse programinha, hem?) e da maneira como ele ajudou a formar a sonoridade dos Da Weasel, e penso como este tipo é versátil e como ele faz bem qualquer género a que se entregue, sem perder a sua marca de autor.

O Fim da Luta, que temos passado na Antena 3, é, para mim, uma das melhores canções do Armando (enquanto projecto Balla). Ainda por cima, tem no videoclip a Inês Castel-Branco, que é sempre uma leading lady cheia de pinta:



A canção pertence ao disco A Grande Mentira, já à venda.


sic

Só agora me apercebi que os comentários solidários e revoltados no post sobre o fim da SIC Comédia já chegaram aos 153. A isto juntam-se as petições que estão espalhadas pela net e os comentários e perguntas que me têm sido feitos pessoalmente. Tudo isto devia significar alguma coisa para a administração da TV Cabo, mas infelizmente penso, cada vez mais, que só nos filmes é que estas ondas de protesto resultam. A realidade é cada vez mais à prova do idealismo e do romantismo de movimentos como o que está a acontecer a propósito do fim da SIC Comédia e que me lembra a enxurrada de e-mails que a Media Capital Rádio recebeu quando a sua direcção decidiu acabar com o Programa da Manhã e O Homem Que Mordeu o Cão (ou, pelo menos, desterrá-los para a pequena e discreta Best Rock FM). Já são dois projectos a que estou associado que acabam desta maneira: amargamente, mas com uma tal quantidade de manifestações de apreço e afecto que é impossível, para quem esteve de alguma forma associado a este projecto, não deixar de sentir uma certa ideia de missão cumprida. Interrompida, mas cumprida.

Cheguei a propor ao Ricardo Palacin, director do canal, que eu e o Francisco Palma - ambos devidamente vestidos com os fatos-macaco cor-de-laranja e o Palma devidamente transformado no Orlando Panhões - terminássemos a SIC Comédia, com o Panhões dando a machadada final (literal) no último minuto de vida da estação. Infelizmente não foi possível concretizar a ideia. Não sei se o Palacin preparou alguma coisa para o fecho ou se a SIC Comédia dará um último suspiro suave, discreto e indolor, mas vou deixar o final a gravar, para mais tarde recordar.


 


Enquadramento: amo Amores Perros e 21 Gramas. Dois filmes que me deixaram comovido, embasbacado, com vontade de me levantar no cinema e começar um daqueles aplausos como há nos grandes festivais de cinema. Até ontem, eu achava Alejandro Gonzalez Iñarritu uma das grandes revelações dos últimos anos, um homem que nos iria servir obra-prima atrás de obra-prima até ao fim dos seus dias. Um cineasta caloroso, complexo, brilhante. Mérito dividido com o seu argumentista Guillermo Arriaga (autor do argumento de um dos meus favoritos de 2006, Os Três Enterros de Um Homem, realizado por Tommy Lee Jones). Depois de ver Babel, continuo a achar que eles são artistas de talento, mas estou mais desconfiado. Ao contrário do que esperava, Babel desiludiu-me monumentalmente. Eu que já estava pronto para contestar a enxurrada de bolas pretas e estrelas solitárias com que o filme foi brindado pela imprensa portuguesa, desta vez não tenho outro remédio senão juntar-me ao coro. Fiquei muito, muito desiludido. Não há nada mais angustiante do que ver um cineasta a imitar-se a si próprio. Babel era o filme que faria um mau jovem imitador de Iñarritu, nervoso, com uma espécie de lista de supermercado de todas as marcas típicas do cineasta: estética crua, câmara trémula - check. Várias histórias separadas que se tocam - check. Acção fragmentada e cronologicamente baralhada - check. Variações sobre o poder do amor - check. Onde Amores Perros e 21 Gramas soava espontâneo e sincero, Babel soa calculista e manipulador. Acima de tudo, manipulador. E eu sei que todo o cinema é manipulação e essa é parte da razão porque gostamos dele. Mas quando assistimos a uma acumulação de desgraças sobre desgraças como a que Iñarritu e Arriaga levam a cabo neste filme, o sentimento passa rapidamente da emoção, ou da comoção, à irritação e, finalmente, à indiferença. Foi o que, desgraçadamente, eu senti. Do equilíbrio emocional e da imaginação de Amores Perros e 21 Gramas nada parece restar. Babel é uma torre, sim senhor - mas de situação dramática angustiante sobre situação dramática angustiante sobre situação dramática angustiante sobre situação dramática angustiante. Como apesar de tudo eles têm talento, os inícios de cada uma das histórias de Babel ainda me agarraram. Mas 137 situações desesperadas depois, eu já começava a ficar farto. E 259 situações desesperadas mais à frente só me restava encolher os ombros perante mais uma desgraça. E mais outra. As ligações entre as histórias não têm a fluidez dos anteriores dois filmes, os desenlaces não são satisfatórios, a mesma cena mostrada de dois ângulos diferentes (como o telefonema que Brad Pitt faz à empregada e aos filhos, visto na casa deles no início do filme e, no final, no hospital) parece não ter grande utilidade e ser só um artifício. Algumas coisas ficam primariamente pela rama. A história da crise conjugal de Brad Pitt e Cate Blanchett, por exemplo, é tão esquemática que uma pessoa quando vai a fazer as contas, fica boquiaberta: eles estavam em crise porque um filho recém-nascido morrera; a reaproximação do casal dá-se com o tiro que ela leva - e é isto. Cenas estendem-se para lá do aceitável, começando com uma boa ideia e esticando-a até se tornar insuportável: a cena da jovem japonesa surda-muda na discoteca arranca bem, saltando para dentro e para fora da cabeça dela, mostrando-nos a sua visão silenciosa do lugar mais alucinante e ruidoso de Tóquio. Vários minutos depois, damos por nós quase a gritar para o ecrã um sonoro "JÁ PERCEBEMOS A IDEIA! SIGA EM FRENTE!" (até porque já estamos com uma dor de cabeça monumental com o uso das strobe lights). Mas quando este tipo de coisa acontece, a acção não segue em frente. Como se o realizador estivesse tão fascinado com o seu truque que não o consegue parar. Mas o mais aflitivo está reservado para a história da ama e dos dois petizes, filhos de Pitt e Blanchett. Iñarritu faz das duas crianças os protagonistas de uma série de situações stressantes e angustiantes e quase parece ter um prazer sádico em pôr os dois miúdos a chorar. E lá está: nós percebemos a ideia de colocar dois pequenos americanos louros e de olhos azuis numa viagem atribulada de ida e volta a um universo quase alienígena e envolto em preconceito (como diz uma das crianças, "a minha mãe diz que o México é perigoso"). Mas tudo é tão óbvio, tão excessivo, que perde o sentido e torna-se incómodo para o espectador - e não pelas razões certas. Babel é um libelo anti-armas (é o tal tiro inocente de espingarda que começa tudo) e mais um tributo de Iñarritu e Arriaga ao poder avassalador do amor nas mais variadas formas. São boas intenções, patentes até no facto do realizador dedicar o filme aos seus filhos. Mas de boas intenções estão os maus filmes cheios. E apesar de haver, dentro de Babel, bons momentos de realização e algumas óptimas interpretações, isso não chega para fazer desta tortura um bom filme. Pelo menos para mim (já para o juri de Cannes foi merecedor do prémio de Melhor Realização). Várias pessoas com quem falei depois de ver o filme dizem tê-lo adorado; curiosamente (ou talvez não) nenhuma delas tinha visto Amores Perros ou 21 Gramas...


 


Apesar de consideravelmente mais pequena do que nos tempos gloriosos da inauguração, a secção de DVDs importados da FNAC ainda contém algumas boas surpresas. Hoje descobri lá o DVD de Unscripted, a série que George Clooney, Steven Soderbergh e o cúmplice destes em Good Night and Good Luck, o argumentista e actor Grant Heslov, criaram para a HBO. A série tem 10 episódios dos quais ainda vi só o piloto (realizado por Clooney) e é muito bom. Muito superior a uma outra série da HBO de temática parecida (embora mais centrada já na fase da fama), o sobrevalorizado (pelo menos, para mim) Entourage, de que muita gente diz maravilhas mas que não me consegue agarrar... Nem mesmo lá tendo um realizador e argumentista de comédia com a experiência de Larry Charles, um dos realizadores e argumentistas de Seinfeld e do filme Borat. Unscripted é uma fusão de reality show, sitcom e drama, onde acompanhamos a luta de jovens actores em início de carreira por um lugar ao sol e a luta de alguns não tão no início de carreira, mas tentando desesperadamente não desaparecer do mapa. O mais interessante de Unscripted está no facto de ser difícil ao espectador distinguir o que é a realidade e o que é ficção, uma vez que Clooney - que, tal como Larry David em Curb Your Enthusiasm, não usou um argumento escrito mas sim o delinear de situações sobre as quais o elenco improvisa - acompanhou os jovens actores nos seus trabalhos reais, cruzando-os com trabalhos ficcionados e com as aulas de teatro, também elas fictícias, que eles têm dadas por Frank Langella (que, no entanto, faz de personagem fictícia, uma velha glória chamada Goddard Fulton). A estética de Unscripted não anda longe do estilo Soderbergh: um realismo quase documental, ousadia na montagem, lembrando experiências cinematográficas mais extremas, como Full Frontal. Seja como for, a narrativa é acessível, divertida, às vezes pungente (logo no primeiro episódio uma das personagens aprende uma duríssima lição depois de entrar como secundário num episódio de Smallville) e é pena ter durado apenas uma temporada. A verdade é que, apesar de não ter sido um sucesso de audiências - mas claramente não foi feita para isso - rezam algumas crónicas que tanto Clooney como Soderbergh não planeavam esticá-la muito para lá dos dez episódios que foram feitos e que estão neste DVD. Para jovens actores e estudantes de teatro, Unscripted é mesmo obrigatório, contendo, no meio da acção, preciosas dicas e lições sobre a sua arte. E o mais engraçado é que os dramas destes jovens acabam por não andar assim tão distantes de alguns dos dramas dos jovens actores portugueses. Lembro-me da Teresa Tavares me contar histórias de bastidores do teatro e da televisão em Portugal e que podiam constituir, à vontadinha, material de Unscripted...


 


A pedido de várias famílias - e porque daqui a algumas horas o meu texto, bem como o dos restantes cronistas, é bem capaz de estar a embrulhar peixe ou a forrar caixotes de lixo nas cozinhas de Portugal - eis o meu balanço de Fevereiro, feito a convite do DN e publicado na edição de hoje: FOI O FIM DO MUNDO Antes de mais, perdoem-me eventuais imprecisões neste balanço: tenho uma vaga memória do que aconteceu ontem, pelo que será ainda mais difícil que me lembre exactamente do que se passou em Fevereiro. Houve um tempo em que me lembrava, mas creio que as actuais falhas de memória não têm (ainda) a ver com a idade. Acontece que hoje é tudo muito mais rápido e descartável. É como se, há vinte anos, Deus tivesse que se levantar do seu divino sofá para ir mudar de canal e hoje possuísse um comando à distância que não o deixa parar de fazer “zapping”. Dizem-me que, em Fevereiro, “explosões em Bagdad fazem pelo menos 60 mortos”; inquieta-me que o “body count” já não seja um acontecimento e seja isso mesmo – uma contagem. 60 aqui, 70 ali, 30 acolá, 90 além. Quem se importa? De maneira arrepiante, é quase como o boletim meteorológico – sabemos que podemos contar com ele todos os dias à hora de jantar e começamos a encarar imagens de horror com a mesma naturalidade com que olhamos para pequenas nuvens desenhadas em cima de mapas. Lembro-me que redescobri em Fevereiro o poder incendiário do humor – perante a tensão crescente que começara em Setembro e que aqui atingia o auge, cheguei a imaginar que, num futuro mais ou menos distante, por entre destroços fumegantes, alguém iria questionar: “Mas espera aí – exactamente o que é que provocou o fim disto tudo?”, e alguém iria responder: “Eh pá, parece-me que foram umas caricaturas.” Identifico-me com isso. Na escola, os rapazes mais velhos, para não me baterem, pediam-me que lhes desenhasse a caricatura. Quando aquilo não ficava parecido, era o fim do mundo. E no meio da confusão, em Fevereiro, o primeiro caso da Gripe das Aves surge na Europa. Em vez de entrar em pânico, o que me parece a coisa sensata de se fazer perante uma coisa destas, dou por mim a tomar nota de meia dúzia de potenciais piadas sobre a notícia, digo algumas na rádio e guardo outras tantas para quando estivermos todos a atravessar a epidemia e precisarmos de nos rir daquele grande sarilho, enquanto damos as nossas derradeiras assoadelas. (Apesar de tudo é uma gripe, não é? Logo, há-de requerer lenços.) Volto a imaginar o tal futuro mais ou menos distante e o mesmo alguém que se questionou sobre a causa do fim dizendo: “Não, mas espera aí – isto não pode ter acabado só porque uns tipos fizeram umas bonecadas num jornal, pá.” E o outro alguém que com o primeiro atravessa o cenário devastado, respondendo: “És capaz de ter razão. Também ouvi dizer qualquer coisa que tinha a ver com galinhas. É isso, é. Isto acabou tudo por causa de umas bonecadas e de umas galinhas.” “Tens a certeza?” “Tenho, pá. Foram umas bonecadas e umas galinhas.” “De certeza que não foi um meteoro que caiu na Terra e extinguiu esta malta toda? Já não era a primeira vez, sabes?” “Não, pá. Não tivemos a mesma sorte dos dinossauros. Foram mesmo as bonecadas e as galinhas...”


O Canal Hollywood passa logo à noite, às 2 da manhã, um dos filmes que me fez ver a luz e amar o cinema. Vi Nova Iorque Fora-de-Horas em 1988 e desde então já o revi inteiro umas quantas vezes... e revisito uma ou outra sequência, para matar saudades e só porque faz bem à saúde ver e rever um filme assim. Tudo nesta comédia é perfeito, da realização do mestre Scorsese, com um pé no realismo e o outro no pesadelo mais surreal, à música nervosa de Howard Shore (ainda a trabalhar com sintetizadores, sem imaginar que iria fazer a música de O Senhor dos Anéis), passando pelas interpretações de todo o elenco - destacando-se Griffin Dunne e Rosanna Arquette, em personagens tão boas que nem precisaram de fazer mais nada de notável nas suas carreiras para ganharem lugar na História do Cinema. Martin Scorsese que, na altura, já era um consagrado, filma esta carta de amor-ódio a Nova Iorque com a energia e a frescura de um realizador de vinte e poucos anos em fulgurante início de carreira.

Letse luque ata treila.



Curiosidades: Tim Burton, recém-saído dessa maravilha surreal chamada A Grande Aventura de Pee-Wee, foi o primeiro realizador escolhido para dirigir esta comédia negra. Quando Scorsese manifestou o seu interesse em pegar no projecto, o então jovem Burton passou-lhe o material e partiu para Beetlejuice, outra grande comédia negra dos 80s.

Se acham que 2 da manhã é uma hora demasiado tardia, acreditem - é a ideal para ver After Hours.


 


Para os interessados, é hoje que sai o suplemento do Diário de Notícias em que eles pediram a 12 figuras textos sobre cada um dos meses de 2006. A mim calhou-me Fevereiro, o mês em que julguei que o mundo ia acabar.


Estou eu prestes a dirigir-me à casa-de-banho, para mais uma edição dessa verdadeira instituição que é o xixi da noite, quando ouço o e-mail fazer "PLIM". Volto atrás e constato que tenho uma mensagem dos senhores que albergam o meu site. Dizem eles, todos lampeiros:

 
 Eu não entendo nada destes assuntos de servidores e mais-não-sei-quê, e a minha querida e indispensável webmaster e webdesigner Patrícia Furtado está de férias lá fora. Pelo que percebo, acho que estou prestes a ser punido porque o site tem muitas visitas e anda a prejudicar a performance de outros utilizadores do mesmo cluster. Ora, clusters para mim são aqueles cereais da Nestlé, com os pedaços de amêndoa. Bom, seja como for, serve esta nota para vos avisar que se isto, de repente, for abaixo, foram os senhores da Servage. Pela parte que me toca, obrigado pela valente enchente de acessos a este estaminé. A imagem que tenho é a de uma barcaça que está cada vez mais cheia de passageiros e que começa a arriscar ir ao fundo. Se formos, iremos com dignidade, com a breca. Como a orquestra do Titanic. (Nunca percebi exactamente como é que a orquestra do Titanic foi ao fundo a tocar. Eles terão tocado exactamente até que altura de água? Imagino o violinista com água pelo queixo a dizer: "Malta, se calhar parávamos agora com esta estupidez e íamos tentar encontrar uma porra de um bote, não?")


 


Vinha hoje num dos jornais matutinos um esboço de escândalo envolvendo a Margarida Vila Nova e a Joana Solnado. Crime horrendo cometido por elas? Surgirem numa recente campanha sobre segurança rodoviária, apelando à contenção no álcool antes de circular na estrada, contando histórias - na primeira pessoa - que não lhes aconteceram. Isto gerou, aparentemente, uma polémica e pêras, com algumas pessoas a contestarem publicamente os depoimentos (criados, afinal, pela agência publicitária responsável pela campanha) por serem falsos. Não consigo perceber qual é o problema. Tanto a Margarida como a Joana são actrizes e estão a desempenhar um papel em nome próprio (não é novo, nem chocante: o Larry David faz isso no Curb Your Enthusiasm, o Seinfeld fez no Seinfeld, o John Malkovich no Queres Ser John Malkovich? - ah, e o Nuno Markl do Há Vida em Markl nem sempre corresponde exactamente ao real). Mas acima de tudo elas são duas caras popularíssimas entre um target específico a quem, penso eu, urge fazer chegar a mensagem: os jovens. Contar uma história de responsabilidade na estrada na primeira pessoa será sempre mais eficaz do que se elas aparecessem a dizer qualquer coisa como "vejam só o que aconteceu a um amigo meu...". Para mim, francamente disparatado foi alguém ter vindo a público denunciar o "crime", pondo em causa toda uma campanha de intenções respeitáveis e importantes por causa de um pormenor. Isso é que me parece ser a coisa mais chocante no meio disto tudo. Antes desta polémica, houve a dos anúncios da TV Cabo. Pela primeira vez em muito tempo, a TV Cabo cria uma série de anúncios bem realizados e interpretados, partindo de um gag obviamente exagerado mas inspirado - a família que abandona o Guilherme Filipe (excelente actor, belos timings) porque ele não tem os canais todos na televisão. Almas defensoras da moral e dos bons costumes insurgem-se e chegam ao ponto de pedir a intervenção da Alta Autoridade para a Comunicação Social para tirar os spots do ar e espetar com uma valente multa contra a TV Cabo, a agência e sabe-se lá mais quem. É um gag publicitário, pás. Ainda por cima com uma certa auto-ironia. O que se passa? E ainda podemos juntar a isto as polémicas patéticas desencadeadas por dois magníficos sketches do Gato Fedorento (o dos Velhões, o sistema de abandono dos velhos pelas suas famílias, inspirado pelos Vidrões, e o recente sketch sobre Camarate, ambos muitíssimo pertinentes). E talvez possamos concluir que Portugal nunca sofreu tanto, como agora, de retenção anal.


Hoje em dia inventam-se videojogos das coisas mais improváveis. Mas confesso que haver videojogos feitos a partir das espantosas séries de prestígio da HBO, por essa não estava à espera. Como Soprano-dependente que sou, fiquei a salivar quando soube que estava a ser preparado o jogo (para PS2) da série de David Chase...

 
 As críticas não eram lá muito favoráveis. Os chamados "hardcore gamers" queixavam-se, um pouco por todo o lado, da fraca jogabilidade de The Sopranos: Road to Respect. Mesmo assim, o meu vício apaixonado por todas as coisas Sopranos levou-me a jurar que havia de deitar as gânfias a esta obra, também porque não faltavam fanáticos da série a dizer que numa coisa o jogo não falhava: na recriação perfeita do universo d' Os Sopranos. Felizmente, os meus compinchas da Ecofilmes (obrigado, Rui Videira!) não tardaram a enviar-me uma versão de demonstração. Experimentei-a hoje. O que há a dizer? Há a dizer que sim, confirma-se, a jogabilidade de The Sopranos: Road to Respect é nula. E é bom começar já por aqui, para afastar estes fantasmas do caminho. Raras vezes se viu um jogo tão perro e hirto - no sentido em que, ao contrário do que acontece, por exemplo, num Grand Theft Auto, as missões são tão rígidas, curtas e lineares que o jogador tem a sensação que passa mais tempo a ver "cut scenes" do que propriamente a controlar o boneco. Dito isto, faço minhas as palavras de um comprador do jogo no site da Amazon americana: The Sopranos: Road to Respect, voluntaria ou involuntariamente, é o primeiro videojogo para pessoas que não gramam videojogos. Que preferem uma hora semanal de boa ficção televisiva sobre a família de New Jersey a uma tarde inteira aos tiros, de comando na mão. Como não só é linear como é relativamente fácil, The Sopranos: Road to Respect é a experiência perfeita para quem não tem grande jeito para a videojogatana (como é o meu caso) mas anseia por passear pelos interiores do Bada Bing e de todo o universo da série. Eles podem não ter investido em mais nada, mas no que toca a gráficos, talento vocal (estão cá todos os actores da série!) e escrita de diálogos, The Sopranos: Road to Respect acerta em cheio e deixou-me com um sorriso parvo no rosto, o de uma criança grande que agora pode brincar dentro de um mundo que se habituara a ver de longe. Sim, há toneladas de "cut scenes", mas têm piada e o mesmo nível de qualidade de escrita da série (consta que o David Chase recrutou argumentistas da TV para escreverem a história do jogo). Fanáticos da memorabilia Soprana, gastem massa nisto. Jogadores inveterados, passem ao largo. Jogadores inveterados que acumulem com o fanatismo Soprano, tentem experimentar antes de investir. O que eu sei é que enquanto não chegam os seis últimos episódios da série, The Sopranos: Road to Respect é um mata-vício divertido, claramente feito com amor à série. E total desprezo pela arte do videojogo. Se para a próxima eles conseguirem aperfeiçoar essa parte e dar ao jogador a liberdade para se mover na New Jersey de Tony Soprano como existe nos GTAs, ui.




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Olhem para o que eu ando a fazer
Caderneta de Cromos - 2ª a 6ª feira, 8h45 e 9h45
(o clube de fãs no Facebook)

PRIMO - Sábado às 12 e Domingo às 23h00
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