Enquadramento: amo Amores Perros e 21 Gramas. Dois filmes que me deixaram comovido, embasbacado, com vontade de me levantar no cinema e começar um daqueles aplausos como há nos grandes festivais de cinema. Até ontem, eu achava Alejandro Gonzalez Iñarritu uma das grandes revelações dos últimos anos, um homem que nos iria servir obra-prima atrás de obra-prima até ao fim dos seus dias. Um cineasta caloroso, complexo, brilhante. Mérito dividido com o seu argumentista Guillermo Arriaga (autor do argumento de um dos meus favoritos de 2006, Os Três Enterros de Um Homem, realizado por Tommy Lee Jones). Depois de ver Babel, continuo a achar que eles são artistas de talento, mas estou mais desconfiado. Ao contrário do que esperava, Babel desiludiu-me monumentalmente. Eu que já estava pronto para contestar a enxurrada de bolas pretas e estrelas solitárias com que o filme foi brindado pela imprensa portuguesa, desta vez não tenho outro remédio senão juntar-me ao coro. Fiquei muito, muito desiludido. Não há nada mais angustiante do que ver um cineasta a imitar-se a si próprio. Babel era o filme que faria um mau jovem imitador de Iñarritu, nervoso, com uma espécie de lista de supermercado de todas as marcas típicas do cineasta: estética crua, câmara trémula - check. Várias histórias separadas que se tocam - check. Acção fragmentada e cronologicamente baralhada - check. Variações sobre o poder do amor - check. Onde Amores Perros e 21 Gramas soava espontâneo e sincero, Babel soa calculista e manipulador. Acima de tudo, manipulador. E eu sei que todo o cinema é manipulação e essa é parte da razão porque gostamos dele. Mas quando assistimos a uma acumulação de desgraças sobre desgraças como a que Iñarritu e Arriaga levam a cabo neste filme, o sentimento passa rapidamente da emoção, ou da comoção, à irritação e, finalmente, à indiferença. Foi o que, desgraçadamente, eu senti. Do equilíbrio emocional e da imaginação de Amores Perros e 21 Gramas nada parece restar. Babel é uma torre, sim senhor - mas de situação dramática angustiante sobre situação dramática angustiante sobre situação dramática angustiante sobre situação dramática angustiante. Como apesar de tudo eles têm talento, os inícios de cada uma das histórias de Babel ainda me agarraram. Mas 137 situações desesperadas depois, eu já começava a ficar farto. E 259 situações desesperadas mais à frente só me restava encolher os ombros perante mais uma desgraça. E mais outra. As ligações entre as histórias não têm a fluidez dos anteriores dois filmes, os desenlaces não são satisfatórios, a mesma cena mostrada de dois ângulos diferentes (como o telefonema que Brad Pitt faz à empregada e aos filhos, visto na casa deles no início do filme e, no final, no hospital) parece não ter grande utilidade e ser só um artifício. Algumas coisas ficam primariamente pela rama. A história da crise conjugal de Brad Pitt e Cate Blanchett, por exemplo, é tão esquemática que uma pessoa quando vai a fazer as contas, fica boquiaberta: eles estavam em crise porque um filho recém-nascido morrera; a reaproximação do casal dá-se com o tiro que ela leva - e é isto. Cenas estendem-se para lá do aceitável, começando com uma boa ideia e esticando-a até se tornar insuportável: a cena da jovem japonesa surda-muda na discoteca arranca bem, saltando para dentro e para fora da cabeça dela, mostrando-nos a sua visão silenciosa do lugar mais alucinante e ruidoso de Tóquio. Vários minutos depois, damos por nós quase a gritar para o ecrã um sonoro "JÁ PERCEBEMOS A IDEIA! SIGA EM FRENTE!" (até porque já estamos com uma dor de cabeça monumental com o uso das strobe lights). Mas quando este tipo de coisa acontece, a acção não segue em frente. Como se o realizador estivesse tão fascinado com o seu truque que não o consegue parar. Mas o mais aflitivo está reservado para a história da ama e dos dois petizes, filhos de Pitt e Blanchett. Iñarritu faz das duas crianças os protagonistas de uma série de situações stressantes e angustiantes e quase parece ter um prazer sádico em pôr os dois miúdos a chorar. E lá está: nós percebemos a ideia de colocar dois pequenos americanos louros e de olhos azuis numa viagem atribulada de ida e volta a um universo quase alienígena e envolto em preconceito (como diz uma das crianças, "a minha mãe diz que o México é perigoso"). Mas tudo é tão óbvio, tão excessivo, que perde o sentido e torna-se incómodo para o espectador - e não pelas razões certas. Babel é um libelo anti-armas (é o tal tiro inocente de espingarda que começa tudo) e mais um tributo de Iñarritu e Arriaga ao poder avassalador do amor nas mais variadas formas. São boas intenções, patentes até no facto do realizador dedicar o filme aos seus filhos. Mas de boas intenções estão os maus filmes cheios. E apesar de haver, dentro de Babel, bons momentos de realização e algumas óptimas interpretações, isso não chega para fazer desta tortura um bom filme. Pelo menos para mim (já para o juri de Cannes foi merecedor do prémio de Melhor Realização). Várias pessoas com quem falei depois de ver o filme dizem tê-lo adorado; curiosamente (ou talvez não) nenhuma delas tinha visto Amores Perros ou 21 Gramas...