Em boa hora a Island decidiu pegar em três discos fundamentais e fazê-los renascer com todo um novo poder. Eu hoje deitei as gânfias a dois deles. Falo das obras-primas que os Pulp fizeram na década de 90 - His n' Hers, Different Class e This is Hardcore - e que agora surgem em fulgurantes caixas com dois CDs cada (a obra, propriamente dita, e uma série de raridades e inéditos da mesma época de cada álbum) que, devo dizê-lo, aparecem em boa hora. A minha edição do Different Class, um dos meus álbuns preferidos de todos os tempos, está tão gasta e surrada (muito toquei Common People, Disco 2000, Sorted For E's & Wizz e Underwear nos meus longínquos programas radiofónicos nocturnos, nos idos de 95!) que mesmo que a Island não pusesse cá fora estas Deluxe Editions, eu era moço para comprar logo dois Different Class dos normais, um para o gasto e o outro para ficar guardado. Assim, aproveitei o lançamento destas edições renovadas e cá estão, nas minhas mãos, os seguintes espécimes:
Different Class é um dos grandes discalhaços ingleses dos anos 90. Um portento que começa no belo grafismo da capa e que vai pelo disco adentro, pop delirante com o seu quê de 70s e 80s assinada por Jarvis Cocker e companhia, servida por letras hilariantes e inteligentíssimas que fazem de Jarvis, juntamente com Neil Hannon, dos Divine Comedy, um dos grandes equivalentes musicais às melhores britcoms (curiosamente, Jarvis viria a fazer um pezinho num mítico episódio do The Ali G Show, de Sacha Baron Cohen). Quando andava toda a gente a inventar a guerra entre os Oasis e os Blur, eu pendia fortemente para os Blur - mas sentindo que eram os Pulp que deviam ter a coroa da britpop dos 90s. Different Class continha este incrível single, Disco 2000, que não só tinha uma letra brilhante como também um dos videoclips mais castiços da década: Também deitei as minhas gânfias a esta Deluxe Edition a cheirar a novo:
This is Hardcore teve 0,001% do impacto mediático de Different Class e, quando saiu, custou um bocadinho a entrar nestes ouvidos. Mas foi uma questão de semanas até me deixar esmagado. É menos trolaró que Different Class (embora estejamos a falar do trolaró como forma suprema de arte), mais discreto, menos abertamente cómico e mais irónico. Era o disco deles que estava a dar quando fui como repórter pela Rádio Comercial a Glastonbury em 98 e os vi ao vivo, com lama até quase aos joelhos (eu, não eles). Também comi algumas refeições na tenda da BBC a escassos metros de Jarvis Cocker, mas optei por não ir ter com ele e dizer "gosto muito do seu trabalho e tenho todos os seus discos", deixando que a fria capa de jornalista competente cobrisse o fanboy tresloucado. É em This is Hardcore que acaba por estar uma das minhas canções preferidas dos Pulp, o épico Help The Aged, divertido hino à terceira idade e ao caminho irreversível e rápido na direcção da cova, que vinha acompanhado de um videoclip sublime assinado pelos Hammer & Tongs (a equipa responsável pela adaptação a cinema de The Hitchhiker's Guide to the Galaxy) onde aqueles elevadores de corrimão para idosos vão todos dar... ao Céu. Ricos discos. Agora tenho de ver se arranjo o His N' Hers, que estava esgotado na loja. Entretanto, não me canso de recomendar o disco a solo de Jarvis Cocker, Jarvis, também conhecido como The Jarvis Cocker Record. A crítica portuguesa arrasou-o (cheguei a ler alguém dizer que Jarvis se tinha vendido ao "rock de guitarras") quando, na verdade, o disco tem tanta variedade musical e fina ironia como qualquer disco dos Pulp. Não tem a genialidade de nenhum destes três clássicos, mas é um belíssimo disco.
Acabo de eleger o site da produtora de espectáculos angolana Casa Blanca - essa mesmo, a que promove gigantescos festivais de hip-hop que depois não chegam a acontecer - como um dos melhores do mundo e um dos mais ricos em termos de valor de entretenimento. Passo a apresentar as minhas razões para ter escolhido o endereço www.casablanca.ebonet.net como a bookmark que mais irei acompanhar, com toda a atenção, nos tempos mais próximos.
Verdadeiros seguidores do espírito empreendedor e sonhador de um Victor Peter, os responsáveis pela Casa Blanca começam, logo na secção Quem Somos?, por seduzir o cibernauta com uma frase arrebatadora:
Quem fala assim não é gago. O que há mais no Terceiro Mundo é companhias de espectáculos e a competição é aguerrida. Vejamos o que eles têm para nos oferecer. Para já, há a credibilidade do link que diz:
Isto mete respeito. Como é evidente, e antes de explorar o site, avancei destemido para a leitura do referido agradecimento. Cá está ele:
Pronto, OK. Um Presidente da República é um homem ocupado. Talvez eles ainda estejam à espera da nota de agradecimento e, pelo sim, pelo não, reservaram já o espaço. Um bocado o que eles fizeram com o Pavilhão Atlântico e as vedetas internacionais do rap. Agora falta só mesmo alguém telefonar a José Eduardo dos Santos, que eu não sei se ele sabe que é suposto agradecer a estes rapazes! Decidi, mesmo sem mensagem presidencial a caucionar a coisa, meter as mãos na massa e entrar na secção PRÓXIMOS ESPECTÁCULOS. Abre-se, perante mim, um desfile de estrelas.
Estamos a falar de malta do calibre de uma (com dois SS, porque as outras empresas ficam-se pela Laura Pausini com um S só - esta é superior), ou também uma Ainda um (porque, convenhamos, "Ricky" já começa a ser efeminado e infantil para um matulão daqueles), e há ainda um Talvez possamos ainda fazer referência a que eu julgava, pela foto, tratar-se de Enrique Iglesias, mas uma vez que se trata de um Iglesias cujo nome começa por H, suponho que estejamos a falar de algum irmão menos conhecido - o Hernesto Iglesias, talvez. É, no entanto, na secção dedicada ao FestiAngola, um festival que eles anunciam para breve em Bruxelas, que se encontram as maiores surpresas e também a sensação de que esta equipa consegue, de facto, tudo (rói-te de inveja, Luis Montez!). Já não falo no luxo que é levar a esse festival esta malta americana:
Ou esta malta inglesa:
(Para quem não percebe de música, aquele indivíduo chama-se Rolling Stone devido ao formato da cabeça. Em português ele seria O Seixo. O outro senhor mais cabeludo, Phill Collins, também não ficou nada mal na fotografia. Para quem não sabe quem é ele, trata-se do vocalista dos David Bowie.) Ou esta malta italiana:
(mas espera aí... Então não era a Laura Paussini que eles representavam? Quem vem a ser esta Pousini? Cheira-me a impostora. Vejam lá isso, pá.) A prova maior do quão grande é a Casa Blanca parece-me estar na lista dos convidados angolanos para este hiper-Live Aid da empresa, mais concretamente aqui: Como é evidente, uma equipa que consegue trazer Raúl Ouro Negro até ao mundo dos vivos, facilmente consegue levar ao festival os Rolling Stones, o Peter Gabriel, o Sting e até mesmo os Beatles. O Raúl que interceda junto do Lennon, diz que se dão bem.
Uma das mais famosas sex-symbols da Internet nacional chega-se à frente para assumir o poder erótico de cuecas e tops com a inscrição "Olá Jeitoso". A Felina, arriscando-se a acabar, desta maneira trágica, a sua intensa relação com o seu cônjuge, parece que vai envergar as ditas peças!
Depois queremos fotografias, e tal. Entretanto, já recebi mensagens de dois frequentadores deste estaminé que encomendaram t-shirts a dizer Olá jeitosa e que receberam t-shirts a dizer Olá jeitoso, o que é passível de provocar, em certos casos, algum embaraço. Confrontei a Spreadshirt, onde está sediada a minha lojeca, com essa gritante falta de profissionalismo, e eis o que eles me responderam:
Portanto, do mal o menos: sim, eles são um bocadinho para o totó no que toca a distinguir jeitosos de jeitosas, mas pelo menos são comunicativos, solícitos e dizem que quem pedir peças a dizer "Olá jeitosa" e receber "Olá jeitoso" e vice-versa, poderá trocá-las sem grande história.
Geralmente a malta que ainda aí pela net a querer embaraçar-me (não no sentido espanhol do verbo) pega sempre na mesma fotografia de 1992, em que eu estou nas filmagens do clássico O Lado Meigo da Megera com uma t-shirt azul às riscas e uma cara inquietantemente parecida com a de Rosa Mota. Nunca percebi porque é que ninguém pega nesta outra fotografia...
... que me parece, sinceramente, mais incrível. Para quem tem dúvidas e não conseguiu ver bem no video sobre o banho: o meu corpo ainda é assim, hoje, a nível de pêlos. Mas a idade forneceu-me alguns extras que fazem de mim o equivalente, em homem, ao vinho do Porto. Nomeadamente, pança e glândulas mamárias mais desenvolvidas.
Coube aos senhores da Doca dos Aflitos construir uma biografia da minha pessoa que eu consideraria definitiva e que descobri via Technorati. No entanto, padece de um erro gravíssimo:
Aquilo são túbaros de porco, sim senhor; mas o animal que ali figura é a Stitch - que sempre foi detentora de uma orgulhosa vulva - e não o Sharik, a quem, de facto, extraí os túbaros (por interposta pessoa). Vamos lá a ter atenção a essa situação.
O Labirinto do Fauno, que vi hoje na fabulosa edição DVD coreana (que vem sob a forma de livro antigo, contendo um álbum de esboços de produção e uma reprodução da chave do labirinto - um luxo!), encomendada na Axel Music, é a obra-prima de Guillermo Del Toro. Admiro os filmes dele, mas sempre me pareceu que o homem fica sempre a um passinho da grandiosidade em obras como Cronos, Blade II (tão superior aos outros dois Blades!) ou Hellboy. OK, em El Espinazo del Diablo ele roçou muito, muito de perto, a grandiosidade. Mas neste El Laberinto Del Fauno, para mim, finalmente, ele atingiu-a. Este filmaço é o Eduardo Mãos-de-Tesoura de Del Toro. A afinação perfeita de tudo o que ele andou a experimentar estes anos todos e aquele que o vai definir como autor.
Sim, histórias sobre crianças que fogem para mundos de fantasia quando a vida real é demasiado negra para ser suportada já não são de agora, mas a visão de Guillermo Del Toro é feita de um malabarismo tão preciso entre reconstituição histórica e fábula pura, de um investimento tão detalhado tanto no mundo real como no mundo fantástico, que O Labirinto do Fauno transpira "futuro clássico" por tudo quanto é poro. E consegue deixar-nos intrigados durante duas horas sobre até que ponto é real o mundo de faunos, fadas e monstros para onde se escapa a jovem Ofelia usando pouco mais que um pedaço de giz.
Para os que conhecem a obra do realizador, digamos que está aqui a síntese perfeita entre o enquadramento político de El Espinazo Del Diablo ao serviço de uma fábula, e o extraordinário apuro visual de Hellboy. Apesar de se passar num universo muito diferente do de Hellboy, O Labirinto do Fauno parece desenhado por Mike Mignola. De resto, fundem-se aqui os imaginários de gente como Lewis Carroll ou Neil Gaiman (O Labirinto do Fauno é, no fundo, o que Mirrormask tentou ser).
Como se não bastasse, para além do look, o filme tem substância e emoção - e para isso contribuem os desempenhos notáveis de Sergi Lopez (aqui compondo um dos grandes monstros do cinema moderno - e não pertence ao mundo das fábulas; é mesmo um oficial Franquista!) e da jovem Ivana Baquero. E Doug Jones - que tinha o papel do subaquático Abe Sapien em Hellboy e agora é o fauno do labirinto - volta a mostrar que nasceu para interpretar criaturas fantásticas.
Cá para mim, esta é uma das grandes fitas do ano. E os Óscares que ganhou foram bem dados, sim senhores.
De acordo com a lombada do 24 Horas, que traz uma régua para medir o tamanho do pénis de um indivíduo, o que vêem na imagem é o que eles consideram um pénis de tamanho normal.
... fico contente que o Martin Scorsese tenha ganho o que ganhou. Não porque The Departed seja uma obra-prima. É um bom filme, mas é um remake, inferior ao original (para isso, seria mais justo o Infernal Affairs ter ganho, na altura devida, o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro!). No entanto, porque a Academia andava a dever prémios ao Scorsese e porque, apesar de tudo, The Departed é, para mim, de longe, superior ao sobrevalorizado e algo demagógico Babel, gostei deste desfecho. E mesmo que Scorsese já devesse ter ganho noutros anos por outros filmes, obras-primas bem superiores a The Departed (que bem entregue que teria sido no ano de Goodfellas!), mesmo que uma vitória de um autor por um filme menos conseguido tenha um travozito amargo, sempre foi emocionante ver o bom velho Marty com a estatueta na mão, a pedir se podiam fazer o "double check" do resultado.
O Alan Arkin ganhar o Óscar de Melhor Actor Secundário foi TÃO JUSTO! Não só porque ele vai muitíssimo bem no Little Miss Sunshine, mas porque já cá anda há que tempos a fazer grandes papéis (um conselho: vejam Catch 22) e merece a consagração; e a vitória de Little Miss Sunshine no Melhor Argumento é também justíssima - no seu low profile, acho Little Miss Sunshine o argumento mais original de todos os filmes que vi este ano.
Quanto à cerimónia, vi a abertura - giro, aquele arranque minimalista com os nomeados em fundo branco, falando para a câmara. Pareceu-me que ditou as regras da coisa, este ano: tudo me pareceu bastante simples, minimal e clean, desde a apresentação de Ellen DeGeneres (e isto não é uma crítica negativa; achei o stand-up de abertura dela muito simpático e pachola) até ao visual dos separadores com os nomeados. Mas como só vi um bocadinho, não sei se depois a coisa teve momentos mais épicos e espalhafatosos.
Infelizmente, tenho demasiadas reuniões importantes e trabalhinho, amanhã, para aguentar a directa... Nem vou ter tempo para dormir umas horas, nem nada. Por isso, acho que esta noite não vai haver acompanhamento em directo aqui no blog. É pena, porque com o Yakalike ia ter a sua piada. Seja como for, vou deixar aqui as minhas apostas. Em alguns casos, não são necessariamente aqueles que eu gostava que ganhassem, mas aqueles que eu acho que vão ganhar...
Tenho impressão que isto vai ser daqueles anos em que é tudo dividido.
ACTOR Leonardo DiCaprio - Blood Diamond (ou então entregam, por uma questão de respeitinho, ao Peter O'Toole, pelo Venus)
ACTOR SECUNDÁRIO Alan Arkin - Little Miss Sunshine (e merece!)
ACTRIZ Helen Mirren - The Queen
ACTRIZ SECUNDÁRIA Cate Blanchett - Notes On a Scandal
ANIMAÇÃOCars
REALIZAÇÃO Martin Scorsese, The Departed (tenho um feeling que é este ano que o grande senhor vai ganhar, mesmo que The Departed não seja a sua obra-prima... Ficava mais contente do que se ganhasse o Alejandro Gonzalez Iñarritu...)
DOCUMENTÁRIOAn Inconvenient Truth (parece-me que aqui não vai haver grande história, apesar de não ter visto os outros)
FILME ESTRANGEIRO Guillermo Del Toro, El Laberinto Del Fauno
MÚSICA Gustavo Santaolalla, Babel
CANÇÃO ORIGINAL Vai para uma das três do Dreamgirls, quer-me parecer.
FILMEBabel (e dão o de realizador ao Scorsese, para o calar.)
ARGUMENTO ADAPTADONotes on a Scandal
ARGUMENTO ORIGINALBabel (se bem que era justo entregarem ao Little Miss Sunshine, pela originalidade simples e despojada da obra...)
Seja como for, será interessante se usarem e abusarem dos comentários deste post para fazer o historial da noite. E de manhã venho aqui ver a vossa cobertura da cerimónia...
Smokin' Aces (ou, na tradução lusa, Um Trunfo na Manga) é um filme bruto como as casas, mas com altíssimo valor de entretenimento. Qualquer fita que consista numa corrida desvairada entre assassinos, quase em tempo real, para ver quem chega primeiro ao alvo (Jeremy Piven, de Entourage - Vidas em Hollywood, muito menos cómico e bem mais trágico do que o trailer fazia crer) conquista-me só com a premissa. Felizmente, este filme de Joe Carnahan não tem só um bom ponto de partida: cumpre o que promete com a eficácia de um tiro na pinha a centímetros de distância. Não vai mudar a História do Cinema, nem tem a categoria do filme anterior do realizador - um belo policial à William Friedkin chamado Narc - e, vistas bem as coisas, saca inspiração a Quentin Tarantino e ao Steven Soderbergh de Ocean's Eleven sem nunca chegar ao nível deles. Mas é divertido como o caraças, tem alguns cromos inspirados (nomeadamente um bando de mercenários rednecks neo-nazis e um assassino camaleónico que nunca sai de casa sem o seu kit instantâneo de construção de máscaras de borracha feitas a partir de moldes de cabeças de vítimas) e a trama tresloucada consegue cativar o interesse criando suspense de três maneiras: uma, ao levar o espectador a questionar-se "será que matam o gajo?", a outra levando-o a questionar "qual deles vai matar o gajo?" e a terceira, ao levar o mesmo espectador a rezar a todos os santinhos para que, depois do maravilhoso caos demente a que a fita chega, o final não estrague tudo. E isso eu posso revelar: não estraga. A simplicidade e o "que-se-lixe" da sequência final fornecem ao espectador um agradável quentinho no peito.
Mas acima de tudo: Alicia Keys. A rapariga não só tem o poder vocal que se lhe reconhece, como demonstra aqui ter a pinta e a sensualidade de uma Pam Grier de outros tempos. Que grande senhora do espectáculo.