Sim, meus amigos - voltou a análise à comida (e bebida) saudável neste estaminé. Saudável, claro, no sentido "ai que saudável que é experimentar coisas novas tais como refrigerantes de cores estranhas". Há uns anos que não se falava aqui de produtos comestíveis, mas recentemente foi posto no mercado um produto tão apetecível em todo o seu aparentemente artificial esplendor, que, desde que fui informado da sua existência, jurei que não descansaria enquanto não submetesse o meu organismo aos seus rubros encantos, qual rato branco que avança, destemido, para uma experiência que pode ser valiosa para o futuro da Humanidade. Ontem, senhoras e senhores, adquiri a primeira garrafa da minha vida de Sumol de morango.

A indústria dos refrigerantes e a nossa própria relação de seres humanos com a fruta veio criar estranhas verdades na nossa mente, verbalizadas de forma consistente pela funcionária do supermercado que me atendeu na caixa. Dizia ela, enquanto registava a fascinante garrafa na máquina: "Tenho vontade de experimentar isto, mas é estranho. Laranja com gás, tudo bem. Agora morango..." Concordei, com a convicção de quem tem a certeza que a fruta já vem da laranjeira com o gás dentro. Morango com gás? Freak. Laranja com gás? Perfeitamente normal. Antes de colocar a garrafa de Sumol de morango num saco, a funcionária da caixa contemplou-a uma última vez e disse: "Pois é, gostava de experimentar isto". Como sou um homem casado, nada fiz; se fosse solteiro, talvez a tivesse convidado a fugir dali e a vir comigo para um local exótico e bucólico (tipo o jardim da Gulbenkian) onde, estendidos numa manta, beberíamos o refrigerante e comentaríamos as variedades de pássaros. No rótulo, utilizam-se as palavras "EDIÇÃO ESPECIAL", seguindo uma tendência recente de outros tipos de sumo. A palavra "edição" remete o produto para a área da cultura, proporcionando ao consumidor mais bronco a sensação mais próxima que ele terá de comprar um livro. Se alguém lhe perguntar o que é que ele anda a ler, esse consumidor poderá responder, confiante, "o Sumol de morango". Não estará a mentir, porque há muito que ler no rótulo desta bebida, nomeadamente isto:

Ah! O perfeito
tie-in: Sumol de
morango,
Morangos com Açúcar. Ainda bem que o acordo foi com a TVI e não com a SIC: se morangos com gás é bizarro, flores com gás seria francamente perturbante. A garrafa anuncia a possibilidade de jantarmos com os
Morangos com Açúcar, num concurso que, sublinha-se, é exclusivo para Portugal. Acredito que sim: só ter de pagar o jantar àquela malta toda dos
Morangos já deve ser uma maçada para a Sumol; ainda por cima ter de pagar a viagem a um islandês qualquer para vir jantar com a malta dos
Morangos - impraticável. Devo dizer que estes prémios "jantar com" não são grande espingarda. Parece giro, mas não é. Sei disto, porque já fui um prémio desses. Em 1993, no Programa da Manhã da Rádio Comercial da altura (de cuja equipa eu fazia parte) fizemos um concurso em que um dos prémios era jantar com a equipa do programa. Como eu só inventaria os Desbloqueadores de Conversa quatro ou cinco anos depois, n'
O Homem Que Mordeu o Cão, o jantar foi uma longa sessão de "pois é, cá estamos" em que toda a gente fez o possível, a dada altura, por devorar a comida o mais depressa possível para se pirar dali para fora o quanto antes. E quanto à bebida em si?

A bebida em si tem o tom de vermelho vivo que vemos não propriamente nos morangos, mas talvez mais dentro de tubos de ensaio de laboratórios de cientistas loucos. O que, para mim, é positivo. Para que é que uma pessoa há-de querer uma reprodução rigorosa de fruta dentro de uma garrafa se pode, facilmente, comer morangos reais? Um
gourmet de refrigerantes não protesta contra o artificialismo da bebida. Aceita-o. Regozija-se com ele. Chafurda nele (esta parte já é capaz de deixar um indivíduo peganhento; é melhor não). Ninguém vai a um restaurante à espera de comer aquilo que pode facilmente comer em casa. Da mesma forma, ninguém avança para um refrigerante à espera de ingerir fruta fresca acabada de colher da árvore. O novo Sumol de morango sabe a morango de rebuçado e as picadelas do gás só soarão estranhas a quem nunca ingeriu um outro produto extremamente nutritivo chamado Peta Zetas e que há anos que tem a variedade Morango. As Peta Zetas são um granulado amarelado produzido em Espanha e que vem em diversos sabores a fruta. Uma vez entrando em contacto com a saliva, as Peta Zetas desatam a fervilhar e a estalar, pelo que, no fundo, elas foram como que embaixadoras desta experiência francamente mais completa a nível de morangos a fervilhar na boca de um indivíduo que é o novo Sumol de morango. Não sendo a bebida ideal com a qual impressionar miúdas (a não ser, talvez, para os leitores deste blog que estão neste momento na 4ª classe), o Sumol de morango emana, ainda assim, um certo poder de sedução e mistério junto do sexo oposto - lembrem-se da conversa na caixa do supermercado e da possibilidade de devaneios no jardim da Gulbenkian. Dada a sua natureza experimental, é possível que não perdure pelos tempos como os sucessos perenes - e inteiramente merecidos - da mesma empresa (os refrigerantes de laranja e ananás, material de que são feitas as lendas). Mas, por mim, merece dois intensos polegares para cima.