José Cid é não só uma das lendas vivas da música nacional mais porreiraças que tive a honra de conhecer recentemente, como é senhor com um apurado sentido de auto-paródia que, quando misturado com o genuíno talento que ele tem, resulta em coisas surpreendentes. No disco novo, Pop Rock & Vice-Versa, o grande Cid pega em clássicos ligeiros do passado e transforma-os em OVNIs deliciosos. Ouçam o que ele fez a um dos seus temas de culto, A Pouco e Pouco, também conhecido como Favas Com Chouriço, canção que eu, o Pedro Ribeiro e a Maria de Vasconcelos trouxemos de novo para a ribalta nos tempos d' O Homem Que Mordeu o Cão (até analisámos a letra verso a verso, numa espécie de Laboratolarilolela pré-histórico). O que vão ouvir a seguir é a nova versão:


Outra prova da vitalidade e capacidade de reinvenção do artista está nesta delirante versão de Portuguese Boys. Quer acreditem quer não, foi o criador da imortal balada romântica A Cabana Junto à Praia que fez este delírio:


Vi Tideland - O Mundo ao Contrário em DVD.



Sou fã de Terry Gilliam desde os tempos em que ele era o animador dos Monty Python (e co-realizador de Monty Python e o Cálice Sagrado) e mantive-me fã do Gilliam-realizador de cinema, o génio louco por trás de Brasil - O Outro Lado do Sonho, Os Bandidos do Tempo, O Rei Pescador, 12 Macacos ou Delírio em Las Vegas. Raras foram as produções em que ele se meteu em que não acabasse de candeias às avessas com os respectivos produtores, incapazes de aceitar de ânimo leve os devaneios criativos do cineasta. Mas sempre admirei a teimosia de Gilliam em não se vergar a Hollywood, em lutar até ao descrédito pela sua visão pessoal e, acima de tudo, em nunca perder o humor perante a hecatombe (para que se constate isto é muito aconselhável ver o documentário Lost in La Mancha, sobre as fracassadas rodagens de The Man Who Killed Don Quixote). Os Irmãos Grimm foi a última tentativa de Terry Gilliam em trabalhar dentro do sistema - e, como não podia deixar de ser, pouco faltou para andar à pancada com Harvey Weinstein.

É por isso compreensível que depois de tantos anos em guerra com os suits de Hollywood, o ex-Python decida rebentar com tudo naquele que é o seu primeiro filme verdadeiramente 100% independente. Isto é Terry Gilliam puro e inadulterado - só que vezes 1000, precisamente porque o homem está inebriado com as doses de liberdade criativa que tem em mãos e decide vingar-se de décadas de controlo por executivos, não falhando quase nenhum tabu dos grandes e fazendo com que Fear and Loathing in Las Vegas pareça um episódio de sitcom.

O resultado é um conto de fadas / comédia negra ("Alice no País das Maravilhas misturado com Psycho", chama-lhe o realizador) onde desfilam, com uma violência e um negrume nunca antes tentados, assuntos como maus tratos a crianças, drogas com fartura, corpos em decomposição, taxidermia aplicada a seres humanos, necrofilia, pedofilia... A lista vai por aí fora. E levou a que muito crítico de cinema decretasse Tideland como "inaceitável", "impossível de ser visto", e outros mimos.

De facto, Tideland não é um murro no estômago; são vários - eu diria que é um espancamento completo, incluindo pontapés na boca. E há muita coisa lá dentro que não funciona, que cansa, que maça, que equivale a ter alguém a gritar-nos aos ouvidos sem dizer nada de relevante. Mas há também coisas muito boas nesta celebração da imaginação infantil perante um cenário de tragédia. A protagonista, uma miúda de 10 anos chamada Jeliza-Rose (uma impressionante interpretação de Jodelle Ferland) constrói um mundo de fantasia para se evadir da realidade, que começa queriducho e termina perigosamente perto da mais angustiante esquizofrenia, e a maneira como Gilliam nos vai servindo essa dura transformação tem momentos muito inspirados. Além disso, há qualquer coisa de irresistível em ver um cineasta de imaginação delirante em rédea solta... mesmo quando ele falha.

Talvez Gilliam precise de uma pitada de conflito com os produtores para ser realmente brilhante (pessoalmente, eu acho que isto acontece também com David Cronenberg; acho que ele é mais grandioso quando trabalha na indústria a fazer obras-primas como A Mosca ou Uma História de Violência do que quando tem rédea solta para fazer Spider ou eXistenZ). Tideland acaba por sofrer com o excesso de loucura e efeitos de choque: em vez de nos surpreender como Brasil ou O Rei Pescador, bombardeia-nos incessantemente com situação grotesca atrás de situação grotesca até ao ponto em que já não nos consegue chocar - apenas fazer bocejar e olhar para o relógio para ver se ainda falta muito para acabar. E 115 minutos é tempo demais para acompanharmos o quotidiano repetitivo de uma criança que vive com o cadáver decomposto do pai, convive com um par de vizinhos estranhíssimos e conversa com velhas cabeças de bonecas, algumas delas num estado lastimoso de desfiguramento. Porque na prática não acontece muito mais do que isto em Tideland.

No entanto, não é a tragédia que muitos descreviam. E não me fez perder o respeito pelo grande Gilliam, pelo contrário. O extremo de "vão-à-merda" a que Tideland chega só me faz ficar curioso com aquilo que ele vai fazer a seguir. Partindo do princípio que, depois de uma obra tão incorrecta como esta e de uma zaragata com os Weinstein, alguém lhe vai pôr dinheiro nas mãos para fazer outro filme...


Uma ninhada de carismáticos rafeiros (na verdade são fruto de uma noite apaixonada entre um Rotweiller e uma rafeira) foi encontrada, abandonada pela progenitora. Eram dez, mas cinco já têm dono. Agora falta arranjar dono para os outros cinco. Pediram-me que divulgasse o apelo aqui no estaminé e para vos pressionar (porque quem os tem neste momento não pode ficar com eles) não tenho outro remédio senão mostrar uma série de fotografias desonestas, daquelas capazes de conseguir a paz no mundo. A sério, a minha teoria é que se um grupo for à Faixa de Gaza com uns cartazes gigantescos com imagens destas, aquilo é coisa para parar, nem que seja por meia-hora.

Olhem para eles e depois telefonem para o número que vem no fim das fotografias. Esta bicharada está a pedir para ter dono.













E cá está. É possivelmente dos momentos mais inacreditavelmente cute da História deste blog. Espero que tenham ficado convencidos e que dêem guarida aos cinco que ainda precisam de dono. O contacto é este: 93 960 33 18. A pessoa com quem falarão é o Diogo Braga. Vai, tudo a telefonar. E não venham com aquela história de "ah, dá muito trabalho" e mais não sei quê. As coisas que valem a pena dão sempre trabalho, caraças.


É este:



Quem me viciou na obra extensa, variada e por vezes muito arrojada dos Bright Eyes (um daqueles projectos que soa a banda mas que, na verdade, é empreendimento de um homem só, Conor Oberst) foi o meu ex-colega de rádio, José Carlos Araújo. Melómano de extremo bom gosto, o Araújo mostrou-me não só os álbuns essenciais do jovem Oberst mas também os EPs mais obscuros e menos orelhudos. Para mim, o disco novo, Cassadaga está, pelo menos, ao mesmo nível dos dois anteriores (que foram lançados ao mesmo tempo - I'm Wide Awake, It's Morning e Digital Ash In a Digital Urn) mas de cada vez que o ouço há sempre algo de novo para descobrir e que ainda o faz subir mais na minha consideração de fã.

Uma das grandes canções de Cassadaga foi transformada por um fã num videoclip feito de imagens de filmes clássicos. É um belo trabalho, fazendo justiça à música e à letra de Make a Plan To Love Me.


No que toca a videos oficiais dos Bright Eyes, também há coisas extraordinariamente bem feitas. Esta é uma canção do I'm Wide Awake, It's Morning e o conceito consistiu em pôr as mais variadas pessoas a ouvir a canção através de uns headphones. Já não é uma ideia nova, mas funcionou em grande, neste contexto:


Bem catita. Se explorarem a já vasta obra dos Bright Eyes, vão encontrar coisas incríveis que são precisamente o oposto desta: ruidosas, experimentais, alucinadas, sarcásticas - mas sempre muito boas.


Quando recebo aqui no blog mensagens repetitivas de azedume para com os alvos do costume (há aí uns dois ou três trolls que têm como missão repetir ad infinitum o mesmo tipo de comentário sobre, por exemplo, eu, o Bruno Nogueira, o Hora H, etc), a minha tendência é para não as aprovar. Como já aqui disse, sei distinguir uma crítica negativa válida - mesmo que seja dura - de um mero renhónhó antipático de quem, no fundo, clama por atenção, e tenho tendência a apagar os renhónhós antipáticos. Chamem-lhe censura, chamem o que quiserem, mas são as regras desta casa - e acho que, na verdade, nem terão grandes razões de queixa: já deixei passar mensagens bastante desagradáveis não só para comigo, mas para com muito boa gente que conheço. Agora estou mais selectivo. Nos últimos dias apaguei três comentários de um indivíduo daqueles que bate na mesma tecla e reproduz velhos impropérios já mais que repetidos neste blog. Resultado: pus a funcionar o meu direito de não aprovação (que é mais ou menos o mesmo direito que quem não estiver contente com este meu direito tem de não visitar este estabelecimento), o que o fez explodir num drama dos antigos. Diz ele:

Parabéns, Markl. Caiu-te a máscara. És, verdadeiramente, um tipo falso e miserável.

Hum... Caiu-me a máscara? Ó rapazito, mais transparente do que isto não posso ser. Quando não aprecio o tom ou o teor de uma mensagem, não a aprovo. Qual é o drama? Não é o fim do mundo. Isto não é uma nação ditatorial, é apenas um recanto da Internet que me dá bastante trabalho a manter e sobre o qual tenho alguns direitos - nomeadamente o de aprovar ou não esta ou aquela mensagem. Mas acredito que a minha sinceridade (confundida pelo meu interlocutor com falsidade - meu Deus, ao que chega a salganhada moral na Internet!) faça confusão precisamente a quem vive escondido atrás de uma máscara (a do anonimato) a mandar bitaites. Esses valores andam todos emaranhados, senhor.

Como precisas deste blog, do dinheiro que ganhas com ele, e do pequeno poder que ele te dá.


A isto chama-se presunção: num exercício quase mitómano, o anónimo acha que a razão porque não aprovei as suas duas ou três rezinguices contra mim e o meu trabalho é porque preciso deste blog, do dinheiro que ganho com ele (ui, nem me diga nada! Rios! Rios de massa! Ainda agora chegou mais um camião TIR cheio de notas!) e do pequeno poder. Ó senhor: olhe que você não é assim tão importante. Nem eu. No meio disso tudo só tem razão numa coisa: de facto, ao aprovar ou não aprovar, eu não tenho mais do que um pequeno, pequeníssimo poder. Por isso mesmo, pergunto: vale a pena todo esse drama? Com todo o gosto aprovaria as suas dissertações agressivas sobre mim, o meu trabalho e alguns amigos meus se reconhecesse a essas dissertações um pingo de originalidade ou de inteligência. Coloquemos isto no plano da vida real, a vida fora da Internet (que ainda há quem tenha). Abriria eu a porta da minha casa a alguém que estivesse ali fora a dizer: "Deixa-me entrar que eu quero dizer como tu és um miserável sem talento e os teus amigos também"? É evidente que não.

A mensagem terminava com a frase:

No meu Blog já te encontras devidamente denunciado.

O quê?! Um blog a dizer mal de mim na Internet? Isso nunca aconteceu! Ah, drama! Ah, terror! Ah, medo! (Infelizmente, ele não deixou nem sequer um linkzito para o dito blog. Mas sim, confirmo que tenho a orelha esquerda muito quentinha.)

Com isto tudo, acabei por fazer o que o meu caro interlocutor, no fundo, queria: que eu falasse dele. Que lhe desse atenção. Que o transformasse num acontecimento. Assim fiz. Mas só para que percebam como funciona a política de aprovação de comentários. Rezinguices malcriadas e/ou repetitivas já cá há muitas. Poderão então dizer: "Mas também tens muitos elogios! Isso não é repetitivo?". É evidente que não. Da última vez que verifiquei, dizerem bem de um gajo continua a ser melhor do que insultarem-no. Eu, pelo menos, gosto, assumo-o. Também gosto que me insultem - lembro-me sempre desse mítico texto publicado na net em que um indivíduo dizia, numa descrição de requinte e impressionante detalhe, maravilhosamente bem escrita, querer enterrar-me só com a cabeça de fora e desatar aos pontapés na dita. Isso já acho que é um insulto engraçado. Agora, mais do mesmo - permitam-me que faça uso do meu pequeno poder. Afinal de contas, o pequeno poder é uma tradição portuguesa - como o cozido ou o Galo de Barcelos - e costuma-se dizer que as tradições são para se manter...


Ofereceram-me esta bela prenda:



Sim. Tem mesmo chocolate a sério lá dentro. Daquele tamanho.

E agora? O que é que eu faço à minha vida?


Então não é que toda uma magnífica cena que filmámos ontem para o webisódio 3 vai ter de ser totalmente refilmada? Houve um problema com o som e a cena foi toda para o galheiro. Desgraçadamente é capaz de ser a cena mais importante do webisódio. Portanto, atrasos!

Mas vai valer a pena. Diz quem já viu que está um mimo (tirando a cena que não se ouve; se tivesse som, teria ficado catita).

Damn!


A ideia do terceiro webisódio do Há Vida em Markl (que, se tudo correr bem, ficará disponível no fim desta semana) acaba por estar resumida neste excerto do guião, uma cena passada na rádio, entre mim e o Jorge Botas (fazendo dele próprio, produtor das Manhãs da 3), na qual sou confrontado com a forte possibilidade de uma figura com a qual gozei no ar ter ouvido o que eu disse ali mesmo - uma vez que a dita figura está na RDP para uma entrevista na Antena 1.



Isto é que é trabalho de colaboração. Escrevi a primeira versão do guião - já consideravelmente embaraçosa para a minha pessoa - e passei-a ao Pedro Santo, co-argumentista destes webisódios e indivíduo com forte pendor para me fazer passar humilhações ainda maiores dos que as que eu imagino para estas histórias. Daí que eu tenha escrito aquela fala até "...ou que não ouvem" e que, na revisão que lhe propus, ele tenha acrescentado "Sinto-me muito mais à vontade a dizer mal das pessoas nas costas delas. É uma coisa que eu cá tenho". O sacana! Como é evidente, melhorou o texto - e subiu o nível de abjecção do Nuno Markl dos webisódios, que é o que é preciso. Nos webisódios a gente tenta não se deixar obcecar com o texto palavra a palavra quando o estamos a filmar (porque aquilo quer-se fluído e natural), mas lembro-me que este pedacinho está lá, mesmo que não esteja exactamente com estas palavras.

Boa parte da equipa das Manhãs da 3 entra neste webisódio: o José Mariño, a Raquel Bulha, o Jorge Botas (todos eles muito convincentes nas suas estreias como actores de webisódios!) e ainda temos um cameo da Catarina Limão, que tem uma panóplia de fãs neste blog.


Obrigado ao Daniel Malafaia por me ter chamado a atenção para isto e ao cartoonista-bloguista João Marques pela visão muito peculiar do Apocalipse do Pastor Adelino de Sousa e do meu próprio arrebatamento.

(Cliquem para ver em grande e com boa definição ou façam o que é bonito e vão ao site do João Marques, Mundo aos Quadrados, para ver esta e outras tiras dele.)



Uma das questões recorrentes com que tenho sido abordado por e-mail, mensagem aqui no blog e ao vivo é "Que música maravilhosa é aquela que se ouve no vídeo do pedido de desculpas e no documentário sobre o Sapo Challenge?". Eu já respondi algures aqui no blog, na zona dos comentários, mas nada como responder com um post decente: a incrível voz que abrilhanta o genérico de abertura do popular documentário Sou Uma Onda, Sou Uma Conchinha pertence a um genial trovador americano chamado Ray LaMontagne. Este cantautor discreto e quase eremita tornou-se primeiro numa figura de culto - com o álbum de estreia, Trouble - depois este single desatou a escalar os tops da América e de Inglaterra (o que prova que ainda há bom gosto entre as massas) e recentemente LaMontagne, assustado com o sucesso súbito, decidiu fazer um segundo disco portentoso mas muito menos acessível e muito mais negro e triste, apropriadamente chamado Till The Sun Turns Black. Por estranhas e incompreensíveis razões e apesar do seu sucesso internacional, a canção Trouble nunca chegou às rádios portuguesas. Quanto a mim, ainda bem - porque certamente que boa parte dessas rádios iriam tocá-la até à exaustão e a obra de LaMontagne é uma jóia delicada que não merece andar aos pontapés pelas ondas do éter, fazendo muito mais sentido partilhá-la em regime boca-a-boca com as pessoas de quem se gosta. Como eu gosto de vocês, eis-me divulgando aqui a obra do senhor.

Neste país, Ray LaMontagne mantém-se um artista de culto, conhecido ainda de uns lucky few entre os quais eu me incluo. Fiquei a conhecer Ray LaMontagne não pela música mas numa entrevista que ele deu há uns tempos valentes à revista britânica Q. Gostei das coisas que ele dizia e do entusiasmo com que os jornalistas da revista escreviam sobre as canções dele. Ouvi algumas canções na net e acabei por comprar os dois discos. Ele tem coisas ainda melhores que o Trouble nos dois discos que até ao momento compõem a sua obra, mas sem dúvida que o Trouble é o melhor sítio por onde começar.


Cá estão as capas dos disquinhos:






Conversetas
Clique aqui para entrar onde pessoas giríssimas se juntam em amena tertúlia.
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PRIMO - Sábado às 12 e Domingo às 23h00
(site do programa)

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