Neil Gaiman é um daqueles autores cujos fãs - este que se assina incluído - aguardam há anos que seja decentemente transformado em filmes ou séries de televisão dignas da categoria das suas histórias. Até ao momento, uma história de Gaiman surgiu sob a forma de uma série televisiva da BBC - Neverwhere - mas o livro é tremendamente superior (um dos problemas da série televisiva é falta de orçamento capaz de transformar o imaginário delirante do escritor em explosivo material audiovisual); houve também Mirrormask, de que já falei, um filme escrito por Neil Gaiman e realizado pelo seu ilustrador de eleição, Dave McKean (colaboraram em pequenas obras-primas tais como O Dia Em Que Troquei O Meu Pai Por Dois Peixinhos Vermelhos ou Os Lobos nas Paredes), não inteiramente conseguido, apesar de visualmente riquíssimo (até demais!).

Stardust
tinha sérias hipóteses de ser um desastre: um conto de fadas Gaimaniano dirigido por Matthew Vaughn, perito em fitas de gangsters londrinos? Uma tentativa de Hollywood domar a fervilhante imaginação do escritor?

Stardust, o filme, está, de facto, mais domado que Stardust, o livro, imaginado por Gaiman como "um conto de fadas para adultos". O filme é mais abrangente, feito para a família, mas as boas notícias - para mim, pelo menos! - é que a essência da escrita de Neil Gaiman está lá, nomeadamente o cruzamento da magia à Irmãos Grimm com o comentário satírico às taras e manias da vida moderna. Só Gaiman para criar um conto de fadas que é, em grande parte, sobre cirurgia plástica e a busca pela eterna juventude sob a forma de um facelift. Mas para quem não está familiarizado com o estilo do autor, a melhor maneira de o convencer a ver Stardust é esta: nenhum outro filme recente de aventuras se aproximou tanto dos clássicos de fantasia dos '80s: há muito de A Princesa Prometida e de A Mulher-Falcão neste Mistério da Estrela Cadente, sobretudo o equilíbrio inteligente entre o épico e o cínico. Ponham lá aqui os olhos, ó senhores Piratas das Caraíbas! Stardust tem piratas - um deles inesquecível, interpretado por Robert de Niro - tem magia, criaturas fantásticas e tem essa preciosidade rara nos blockbusters modernos, uma coisinha sem importância chamada... ideias. E tem história, não se limitando a acumular efeito especial sobre efeito especial (apesar de os ter, e bem jeitosos). Stardust tem a ousadia de, em 2007, ir beber a inspiração à literatura (como se fazia antigamente - lembram-se do primeiro História Interminável?), e não aos videojogos. E isso sabe bem que se farta.

E é claro - há o cameo de Ricky Gervais, que traz o seu estilo de interpretação à Office para o ambiente de conto de fadas desta história de amor entre um homem e uma estrela. E funciona! Tal como as presenças de uma vasta lista de actores que nos habituámos a ver em britcoms que vão de Green Wing a Coupling, passando por Fast Show e Big Train. Mas a maior vénia vai para o fulgurante regresso de Michelle Pfeiffer, depois de uma travessia do deserto. E não é que mesmo transformada em bruxa velha, encarquilhada e escavacada, a mulher emana classe? É grande.


Sim, é um facto que na edição 1 do programa N&N: Nuno & Nando, na Antena 3, eu e o Fernando Alvim pedinchámos obscenamente a criação de fansites, mas a verdade é que eles agora estão a ganhar vida própria. Veja-se o caso do primeiro de todos, o venerável Nuninando.wordpress.com, que começou agora a incluir excertos do programa em You Tube, completos com ilustrações e tudo! Quem nunca ouviu o nosso desvario radiofónico das manhãs de sábado (11-13h), que experimente estas amostras, a ver se gosta...



Entretanto, parece que as audiências da Operação Triunfo foram bem catitas, esta semana (o que prova que o que afastou as pessoas a semana passada foi a excessiva - embora necessária - duração do programa: de 3 horas e meia, passámos para uma e vinte, creio eu), o que me alivia, uma vez que ontem, penso que pela primeira vez num concurso destes e no horário nobre da televisão, eu referi o drama de entalar determinada parte da anatomia humana com toda a força numa gaveta, quando estava a analisar os falsetes épicos que o Alexandre fez no Kids e o Ricardo no Grace Kelly. Ainda bem que não afugentei ninguém com este tipo específico de análise. Mas pronto, para a análise técnica detalhada e credível está lá o grande Zé da Ponte; os meus critérios de análise de falsetes envolvem atrocidades cometidas contra testículos e não tanto o meu conhecimento musical!

E já que falo em conhecimento musical - ontem, quando cheguei a casa, novamente com a nítida sensação de que tinha levado uma carga de porrada (a televisão faz-me doer os ossos, camandro!), embora contente com a maneira fluída e divertida como a OT correu, ainda estive a passar cantigas para dentro do meu iPod novo (o anterior deu um avassalador peido-mestre e ainda não percebi exactamente porquê, mas sei que o disco rígido daquilo foi à vida durante a transferência do novo CD dos Interpol lá para dentro - o que é triste, porque é um disco soberbo!). Estava eu a lidar com a enchente de músicas que tinha em backup, quando me cruzo com uma daquelas que não ouvia há uns tempos valentes e que é, parece-me que sem grande lugar para dúvidas, uma das canções mais cool de 1984, interpretada por uma não menos cool banda, os Stranglers, e com direito a um dos telediscos (como se dizia na altura) mais simples, eficazes, bem realizados e - porque não dizê-lo de novo? - cool daquela época. Este videoclip conseguia ser tão bem feito e tão digno numa altura de excessos estilísticos, que uma pessoa até esquecia o formato francamente ridículo de um ou outro penteado de um ou outro elemento dos Stranglers. Senhoras e senhores, assegurem-se que não têm medo de cobras e fiquem aqui com o excelente Skin Deep (ah, as memórias! As memórias!...)

Grande vozeirão, o do Hugh Cornwell.




Hoje aconteceram-me duas coisas dignas de nota, no supermercado do El Corte Inglés. Uma: fui abalroado por Vasco Pulido Valente na secção das frutas e legumes, mas tive direito a um "hnnnnng... Dê-me licença, por favor... gnnnnnnnnn...", o que é um ponto alto do dia de um gajo. Minutos depois, outro ponto alto: a descoberta de que o melhor refresco do planeta Terra, o tipo de coisa na qual me viciei em cidades como Londres ou Nova Iorque (onde é um verdadeiro produto de culto), existe, Deus meu, em Portugal! Sim, esse néctar lendário - inclusivamente homenageado num episódio do 30 Rock - essa delícia em vários sabores e cores chamada Snapple, com a sua poderosa garrafa-boião e as suas misturadas de limões, maçãs, morangos, kiwis e afins, existe nesta terra. Não quero saber se isto parece publicidade; sei que os senhores da Snapple não me pagaram nada, pelo contrário: eu é que paguei e não foi pouco para encher o frigorífico com este divino líquido, porque estas coisas importadas nunca se sabe se não desaparecem de um dia para o outro.

Agora não tenho tempo é de beber, porque estou prestes a partir para a Venda do Pinheiro (além de que o Snapple se quer fresco). Mas hoje, com a breca, vou beber esta maravilhosa mixórdia de frutos ao deitar, oh se vou.


Passados todos estes anos, cheguei a esta conclusão interessante: a ideia de que tínhamos de esperar meia-hora para um jogo carregar? Mito. Fiz o teste recentemente, e alguns clássicos que nos lembramos de demorar uma tragédia de tempo a carregar, não demoram mais que cinco minutos (na pior das hipóteses). Numa fulgurante prova de que o tempo é um conceito relativo, o que se passa é que, na altura, cinco minutos pareciam-nos muito mais. Hoje, se por algum bizarro motivo tecnológico, surgisse um sistema em que os jogos demorassem esse tempo a carregar, havia tanta coisa em que nos podíamos ir entretendo durante esse tempo (como a net, por exemplo!), a nossa atenção é requisitada para tantos outros sítios, que nem daríamos pela coisa. Lembro-me que o acto de carregar um jogo no Spectrum era um misto de dor e prazer. Dor porque era, de facto, uma maçada; prazer porque havia algo de quase místico naquela coisa de estar sentadinho em frente à televisão, a ouvir a cassete fazer "piiiiiii, prrrrllipipipirrrlllliipppirririppi...", na expectativa de que coisas grandiosas acontecessem. Mesmo que por coisas grandiosas se entendesse um agricultor de chapéu de palha a recolher ovos e a fugir de galináceos assassinos. Eram coisas da vida!


Dizem-me que está de volta: o famigerado e-mail sobre a "geração rasca" cujo texto me é atribuído. Para aí de dois em dois anos tenho de fazer este aviso: não se fiem na conversa. Eu não escrevi nem uma linha desse texto que, para além de andar pelos e-mails, anda também em blogs, como este:



E quem conhece minimamente a minha escrita, sabe que eu nunca escreveria tal coisa. É claro que me revejo em todas as referências aos anos 80 que lá estão, como qualquer tipo que nasceu nos anos 70. Mas nunca me passaria pela cabeça escrever qualquer coisa como isto - que ainda por cima é logo o que abre o artigo:

A juventude de hoje, na faixa que vai até aos 20 anos, está perdida.

Só esta frase já é, para mim, um disparate tão grande, uma coisa tão paternalista e arrogante! A juventude de hoje não é nem melhor, nem pior que a dos anos 80: é diferente. Não está perdida. É capaz de ter perdido umas coisas, mas ganhou outras. Este texto é tão retrógrado e saudosista que nunca poderia ter saído das minhas teclas. Por isso, peço desculpa a quem gosta dele e que acha que foi obra minha. Não foi. E nem sei como é que estas coisas funcionam: não percebo exactamente o que ia na cabeça de quem achou por bem apagar o nome do verdadeiro autor destas linhas (que, aqui há tempos, já me disseram quem foi mas sinceramente não me lembro - e creio que ele também nunca se chegou à frente para reclamar a autoria disto) e colocar o meu. Eu sei que daqui a mais uns tempos vou ter de voltar a desmentir isto, mas para já aqui fica o esclarecimento: não escrevi isto nem nunca poderia ter escrito. Olho com estima para a minha juventude e infância, mas não presumo que tenha sido superior à de qualquer pessoa mais nova do que eu. E digo mais: sim senhor que tínhamos o Dartacão - mas não tínhamos a Internet!


Mick Jones, ex-Clash, com a sua banda Big Audio Dynamite, num poderoso hit de 1986 com nome de teoria de Einstein (E=MC2) e citações diversas a clássicos do realizador Nicolas Roeg (e no vídeo surgem excertos de alguns filmes dele como Don't Look Now e The Man Who Fell to Earth). À parte destas citações todas pipi, E=MC2 é mais uma das minhas cantigas preferidas dos 80s, uma malha pop que sobrevive a várias coisas, nomeadamente à passagem do tempo e também à bizarra dentição do Mick. Há quanto tempo é que não ouviam isto?



É um dia histórico: a primeira série de t-shirts Há Vida em Markl - Cão Azul já está disponível para compra na loja Cão Azul e, convém recordar, parte dos dinheiros que fizermos com a sua venda vão para a CCS, o Centro de Cooperação e Desenvolvimento e para as obras incríveis que eles estão a fazer em África. Um dos projectos concretos para onde irão os primeiros dinheiros que fizermos com a venda das camisolas é a construção de um poço numa comunidade rural da província de Nampula, em Moçambique, que, de acordo com a Joana Lopes Clemente, coordenadora do CCS Portugal é mesmo um empreendimento de primeira necessidade, neste momento. Por isso, afiambrem-se ao camisolame! Dar-vos-á um estilo extraordinário e o garante de que irão encontrar, rapidamente, grande sucesso junto do sexo oposto e, para além disso, estão a contribuir para a melhoria das condições de vida da referida comunidade em Nampula.

Dentro de dias haverá mais desenhos. Para já eles existem nas seguintes variedades: Olá Jeitoso, Olá Jeitosa, Não Vos Cheira a Gás, Apocaliptuss / Virgens Loucas (nas versões explícita e censurada) e As Minhas Unhas dos Pés São Como Punhais (esta é capaz de não vos garantir tão eficazmente como as outras o sucesso junto do sexo oposto mas, que diabo, há gostos para tudo e é sabido que existe uma tampa para cada tacho.)

Vão às compras aqui.


O segundo episódio (na verdade, gostamos de lhe chamar o programa 2,5) da emissão radiofónica de fino recorte  N&N: Nuno & Nando, já está gravado. E é surpreendente. Na guerra de versões pomos o clássico Rocket Man, de Elton John, num frente-a-frente com a magnífica nova cover que o David Fonseca fez da dita canção. E regalem-se com o momento inesperado em que Fernando Alvim é acusado de assédio sexual por quatro jovens candidatas a estagiárias que iam a passar no corredor da RDP e que decidimos chamar para a emissão, continuando a impressionante cavalgada de perigoso improviso que caracteriza este programa. No meio do caos, a banda Hands on Approach entra de rompante no estúdio para falar do seu mais recente disco - a comemoração dos 10 anos de carreira - e acaba a revelar o seu gosto por jogos de cartas, o que envia os participantes na emissão a uma viagem pelos recantos da memória e pelos lendários jogos de cartas do recreio da escola. E é claro que prestamos a devida homenagem a quem respondeu à nossa pedinchice descarada e abriu os primeiros fan-blogs deste programa. É no sábado, entre as 11 e as 13, na Antena 3.


NOTA: Fechei a área dos comentários a este post, porque se estava a transformar numa filial do Fórum Chupa-mos, com pessoas trocando insultos umas com as outras e já nem sequer mantendo a conversa "on topic". Os interessados quer em prolongar a interessante discussão, quer em assistir à mesma devem dirigir-se ao referido estaminé, onde decerto terá sequelas. Um obrigado pela compreensão, e um forte abraço!

Porque estão Pitágoras e Stevie Wonder a contracenar num mesmo post? Leiam até ao fim para saber!



Não há dúvidas que uma das coisas interessantes de um gajo estar a conseguir fazer um chorrilho de coisas de que gosta é que começa a atrair, precisamente na razão directa, um chorrilho de malta esquisita. Existe um fórum na Internet, com o fabuloso nome de Chupa-mos, cujos elementos (alguns, pelo menos) juram a pés juntos que eu ando por lá a roubar-lhes ideias. Ora, meus amigos: eu quando roubo é a malta de jeito - o Ricky Gervais, o Larry David, os Monty Python. Porque diacho ia eu andar num fórum de nome Chupa-mos em busca de ideias? É o que se chama uma contradição em termos. A última deles é particularmente boa e refere-se a este parágrafo d' O Livro dos Porquês de hoje, sobre o Teorema de Pitágoras. Dizia eu, a dada altura, na rubrica, sobre Pitágoras, que o teorema "(...) seria o seu único sucesso, o que fez com que - tal como Gazebo com “I Like Chopin”, Ryan Paris com “La Dolce Vita” e Patrick Hernandez com “Born To Be Alive”, Pitágoras seja um “one hit wonder”. O primeiro, da História da Humanidade. O Teorema de Pitágoras conseguiu chegar ao 1º lugar do top grego antigo e ainda teria lá ficado mais uns tempos, não tivesse sido no entanto destronado pela orelhuda Alegoria da Caverna - o “I Just Called To Say I Love You” da Grécia Antiga."

Isto levou a que indivíduos do fórum Chupa-mos tenham dito...

NUNO MARKL MAIS UMA VEZ APROVEITA A CAPACIDADE INTELECTUAL DESTE FÓRUM PARA GANHAR €



Eu ainda pensei: "Ó diacho! Queres ver que mais alguém andou a traçar paralelos entre teoremas matemáticos da Grécia Antiga e êxitos pop da década de 80?"

Mas não: eles argumentam que eu lhes roubei o conceito de one hit wonder e as referências a algumas das músicas que eles referem num thread dedicado a essa simpática malta dos 80s cujo sucesso se esfumou após um êxito. Apanharam-me: em que outro lugar da net vai um gajo encontrar conversas sobre músicas dos anos 80 e one hit wonders que não no Fórum Chupa-mos? Pior: em que outro lugar do mundo, ponto. É que ninguém sequer pensa, hoje em dia, nos anos 80 que não a malta do Chupa-mos!

Agora a sério, eu acho que percebi que isto são eles a brincar. E ri-me, e tudo.

Estão a brincar, não estão? Pois estão.




Sou um valentíssimo fã do britânico Neil Gaiman, escriba ao serviço de fabulosos comics - toda a saga The Sandman é das coisas que mais prezo dentro do género - romancista exímio no cruzamento entre a realidade mais suja e crua e o fantástico mais mágico (leia-se Neverwhere, American Gods ou Coraline), senhor de um humor muito british e autor da melhor biografia que se escreveu sobre outro dos meus favoritos de sempre, Douglas Adams. Gostei, mas não fiquei inteiramente convencido com a sua estreia cinematográfica ao lado do seu colaborador Dave McKean, Mirrormask (tinha boas ideias mas afundava-se sob o peso do delírio visual de McKean) e agora estou ansiosamente à espera que Stardust seja aquilo que o grande Gaiman merece que seja: uma consagração e qualquer coisa que abra os olhos do mundo para a categoria das ideias que lhe saem da sua criativa cabeça.

 

 Já li Stardust há alguns anos - tenho-o em duas edições, a de romance normal em paperback, e a fabulosa versão ilustrada pelo não menos talentoso Charles Vess (creio que os desenhos de Vess serviram de inspiração para o look do filme). O filme é realizado pelo antigo parceiro de Guy Ritchie, Matthew Vaughn (o sr. Claudia Schiffer, para a malta dos tablóides), que fez um excelente filme de gangsters chamado Layer Cake, com Daniel Craig. Ainda não o consigo conceber como realizador de uma adaptação do universo Gaimaniano, mas quem sabe se ele não se safa bem? E entra Ricky Gervais. Ao lado de Robert de Niro. Algures no fim-de-semana vou tentar ver e depois logo digo qualquer coisa.

(Ah, daqui a uns meses, mais Gaiman de previsível categoria: Henry Selick, o animador que, com Tim Burton, fez Nightmare Before Christmas, está a adaptar o sublime Coraline a cinema. Neste caso, não há melhor escolha para transformar o livro num grande filme. Ainda bem que Hollywood descobriu Neil Gaiman - resta-me saber se lhe vão perceber a essência!)




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