Antes do meu
Oscar-spree deste fim-de-semana (em que conto ver, pelo menos,
Juno e
Persepolis), decidi fazer o gosto à nostalgia brutalista e ver
John Rambo. Assim, lá fomos ao Corte Inglés apreciar o que faz um sexagenário munido de arcos, flechas, catanas e canhões em 2008, na Birmânia.
Hora e meia depois, estava tudo em estado de choque.
John Rambo é das experiências mais estranhas - e não num bom sentido - que podem ser apreciadas actualmente numa sala de cinema. Não é que a fita esteja mal feita - tecnicamente, é das carnificinas mais convincentes desde a cena do desembarque em
O Resgate do Soldado Ryan, coisa que Sylvester Stallone deve ter visto e revisto centenas de vezes para se preparar para dirigir o quarto volume de
Rambo. O que se passa é que para ser politicamente relevante, o filme tem a espessura de um lenço de papel húmido, parecendo deliciar-se acima de tudo com a acção
nonstop; para ser entretenimento puro e simples de série B, aborda um tema demasiado sério e angustiante e não só é desprovido do mais pequeno resquício de humor ou ironia, como passa muito tempo a mostrar-nos homens, mulheres e crianças a serem chacinados, espancados, escortanhados, violados, desmembrados... O que significa que o valor de entretenimento de
John Rambo só será alto para potenciais assassinos psicopatas ou um ou outro adepto do chamado
torture porn (embora, num exemplo recente desse género como
Hostel II, Eli Roth se preocupasse, pelo menos, em assegurar que havia ali um fundo de sátira e de comédia negra a sustentar todo o molhinho).
Onde a coisa funciona ainda é no nível "tão-mau-que-é-bom" dos diálogos (é quase como ouvir de novo um êxito esquecido de Stock Aitken e Waterman dos anos 80), contendo pérolas do calibre de "You know what you are, what you're made of. War is in your blood. When you're pushed, killing's as easy as breathing" e numa espectacular explosão no meio do mato envolvendo explosivos novinhos em folha e uma bomba do tempo da 2ª Guerra Mundial. De resto,
John Rambo é uma fita de acção
gore que quer dizer coisas sobre o estado do mundo, mas tem demasiado barulho para que alguém consiga ouvir. É pena, porque se Stallone tivesse aplicado ao seu ícone guerreiro o mesmo tratamento que aplicou ao seu lutador de boxe no recente
Rocky Balboa, poderia ter resgatado a reputação de Rambo que, convenhamos, depois de
Rambo III ficou um bocado pelas ruas da amargura.
A melhor coisa da noite, cinematograficamente falando, foi ter conseguido reencontrar o DVD de um dos meus filmes preferidos de sempre. Lembro-me que foi dos primeiros DVD que encomendei pela Internet, há uns anos valentes; lembro-me de o ter emprestado e de lhe ter perdido o rasto. Ontem dei de caras com ele a meros 11 euros, numa promoção de clássicos da Warner e aconselho toda a gente de bom gosto a comprar...
Bem Vindo Mr. Chance (simplesmente intitulado
Being There, no original) é o último filme do grande Peter Sellers e, para mim, uma das coisas mais sublimes que Hollywood produziu nos anos 70. É realizado por Hal Ashby a partir do livro de Jerzy Kosinski e conta a fabulosa história de um jardineiro que viveu toda a sua vida numa gigantesca mansão, sendo o seu único contacto com o exterior através da televisão, a sua única companhia durante anos. A morte dos patrões faz com que Chance se veja obrigado, finalmente, e já sexagenário (embora, no fundo, tenha o espírito de uma criança), a abandonar a casa e a fazer-se ao mundo. Sem saber bem como, dá por si nos grandes círculos da política em Washington, onde as altas esferas o tomam como um génio político, sem desconfiarem que as suas supostas grandes tiradas ("There will be growth in the spring!") não são elaboradas metáforas sobre o estado da economia, mas ingénuas observações de Chance baseadas na única coisa que sabe fazer: jardinagem. Esta espécie de conversa de surdos entre um jardineiro e os poderosos da América dá azo a momentos hilariantes de sátira política, que eu nunca mais esqueci desde que, na minha sede de abarcar tudo o que Peter Sellers deixou ao mundo, vi
Bem Vindo Mr. Chance numa
Lotação Esgotada da RTP, há uns bons vinte anos.