Durante a noite de hoje, aqui o estabelecimento (mais concretamente a porta de entrada que dá pelo endereço de www.havidaemmarkl.com) foi atacado por hackers! Ora eu acho isto chiquíssimo, sobretudo porque os hackers em questão parece que eram estrangeiros (eu não cheguei a ver o que eles fizeram, porque a Maria João Nogueira, dos Blogs do Sapo e a Patrícia Furtado, a minha webdesigner extraordinaire deram cabo da coisa prontamente) e não, aparentemente, uns banais cyber-biltres tugas. Dizem testemunhas oculares que a coisa vinha escrita em russo (outras dizem que vinha em árabe). Não faço ideia, mas é uma honra ser atacado por terroristas de um certo nível. Diria mesmo que faz com que este estaminé ganhe toda uma nova aura sexy, o que é extremamente agradável.

Update: Cortesia do leitor RW, eis a aparência com que aqui a mercearia ficou, depois de ter sido atacada por um tal Syrian Hacker...



É claro que nada me garante que o Syrian Hacker não seja, no fim de contas, um jovem com demasiado tempo nas mãos aqui da zona da Brandoa. Mas pronto, seja como for, um luxo.




Só para dizer que, a convite do Teatro Municipal da Guarda, eu e o Ricardo Araújo Pereira vamos estar no Café Concerto do Teatro no dia 7 de Março, sexta-feira, às 23h para uma conversa sobre o humor português, moderada pelo director da Rádio Altitude, Rui Isidro (e onde penso que o público pode participar). Apareçam, pois!


Há claramente dois grandes momentos "brliú" na História da Pop mundial. O mais recente é no novo single dos Hot Chip, Ready For The Floor, já aqui mostrado há uns dias e que é atravessado por um constante e viciante "brliú-brliú-brliú-brliú" electrónico. Antes dos Hot Chip, o "brliú" definitivo foi usado pelos Abba, ao serviço de uma das suas mais épicas canções, The Day Before You Came (e, segundo consta, os Hot Chip são fãs do dito "brliú", o que os terá inspirado a criar o seu próprio "brliú").

Esta é uma das canções que se mostra às pessoas sem A) Sentido de diversão; B) Sensibilidade pop, para que elas percebam como os Abba foram das mais revigorantes invenções da música popular europeia. Tem um fabuloso "brliú" que arranca logo no início da canção, aliado a uma inimitável noção de drama telenovelesco que só os Abba tinham. Melodicamente é tão bem esgalhada que pede que uma banda moderna faça uma digna cover disto.



... é esta cena, que alguém fez o favor de deixar inteira no You Tube. Quem quer ser surpreendido na sala de cinema, deve evitá-la; quem não conseguir esperar deve vê-la (porque o filme está cheio de muitas outras cenas brilhantes e não é por verem esta que a experiência se estraga); quem já viu o filme - e/ou quem leu o livro de Cormac McCarthy - decerto concordará comigo... Isto é brilhante, e sobrevive a dois, três, dez, cem visionamentos. E, se tudo correr bem, daqui a anos ainda estaremos a citar frases daqui.



Depois desta situação, vem esta:



Case in point: um bolo descoberto ontem, na vitrine de uma pastelaria no Centro Comercial Twin Towers, em Lisboa. No meio de reproduções de campos de futebol e outros clássicos perenes da doçaria de aniversário, surge isto:



Para quem não está a perceber o que se está a passar em cima deste bolo, eu explico. Trata-se da recriação - assustadoramente detalhada - de um campo de golfe (como se pode ver, está um indivíduo de taco em punho lá ao fundo, e ainda há mais um que está tapado pelas árvores, ao lado desse). Em primeiro plano e em pleno campo de golfe, um casal de etnia africana faz amor fervorosamente, no meio de cogumelos, estando ele a fumar um dos mais possantes charros jamais reproduzidos na indústria pasteleira nacional.

Estando este bolo colorido e extremamente apelativo ao lado de bolos com personagens do Noddy, do Snoopy ou da Puka, há sérias hipóteses que, por esta altura, um petiz já tenha proferido junto dos pais as imortais palavras "Quero este". Caramba, em alguma altura da sua vida um ser humano tem de ficar a par da realidade do sexo, das drogas e do golfe. Mais vale despachar isso o quanto antes, digo eu.


A noite dos Óscares trouxe um punhado de coisas muito agradáveis. A começar pelo humor do Jon Stewart que fez muito com pouco: pode não ter havido um daqueles videos épicos de abertura, mas o grande Stewart foi disparando boas piadas, algumas delas bem servidas por coisas muito simples, eficazes e hilariantes (a piada sobre o adiamento da festa da Vanity Fair como homenagem aos argumentistas - "uma homenagem melhor teria sido convidá-los, finalmente, para a festa!" - os tributos a coisas impossíveis como os pesadelos dos filmes; a revelação de que Cate Blanchett não só fez de Elizabeth e de Bob Dylan mas também do cão que persegue Josh Brolin em No Country For Old Men); os fãs do Daily Show de certeza que deliraram (eu cá delirei) com a cumplicidade entre ele e Steve Carrell ("lá está o Jon sempre com esta necessidade de chamar a atenção") e quanto à distribuição das estatuetas, pareceu-me bem.


Já tive ocasião de ver o No Country For Old Men e é um espanto de filme. Já tinha ficado fã do livro e a maneira reverente e, ao mesmo tempo, 100% Coen como a irmandade adapta a obra do Cormac McCarthy faz do filme um daqueles clássicos instantâneos. No Country For Old Men tem uma série de ousadias como há algum tempo não se via numa obra dos Coen: ousa, por exemplo, ser avassaladoramente lento (lá se perde a malta do short attention span!), porque tudo aquilo tem mesmo que ser lento para ser tenso... E a tensão é brutal, cortesia de Anton Chigurh, um vilão tão bom (que merecido Óscar para Javier Bardem) que, sem precisar de comer pessoas, faz com que Hannibal Lecter pareça o Pai Natal. A história fala de ganância, do ponto sem regresso até onde um homem pacato vai quando descobre uma mala cheia de dinheiro, e a sua obstinação / obsessão por ficar com o saque, mesmo que haja um verdadeiro terminator humano no seu encalço. Fala também de desencanto, de já não ter idade para certas coisas, e uma vez mais dá a Tommy Lee Jones uma daquelas interpretações de genial subtileza. Outra ousadia dos Coen é seguir à risca o final surpreendente (e contra todas as convenções) do livro de McCarthy, que em vez de fechar a sua história de forma toda jeitosinha, bem embrulhada e com um lacinho vermelho em cima, opta por criar uma brilhante simulação de vida que muita gente toma como "falta de final". Discordo e estou contente pelo triunfo de Joel e Ethan Coen, dupla de que sou fã mesmo nos momentos mais tépidos da sua obra. A verdade é que, mesmo nas suas experiências mais comerciais, eles conseguem manter um pé bem fincado no seu universo bizarro e surpreendente. Aqui é diferente: voltaram ao negrume dos seus primeiros tempos e fizeram um filme ainda mais negro que Sangue Por Sangue. Estão em grande forma, os Coen...

E Paul Thomas Anderson também, com o seu There Will Be Blood. Aliás, eu acho que são dois grandes filmes - não consigo escolher entre um e outro. São diferentes e acabam por estar num belo patamar de categoria: como fã, tanto se me fazia que ganhasse um ou outro. Mas o Óscar para Daniel Day Lewis era daquelas coisas que tinha de acontecer, porque mais do que uma mera interpretação, Day Lewis transforma-se, de forma quase sobrenatural, nas criaturas que interpreta... Ao ponto de, por vezes, nos esquecermos como ele é na realidade - e não podia ter menos a ver com figuras como o prospector de petróleo Daniel Plainview. O tipo é um fenómeno e sai daqui muitíssimo bem premiado.

Outro prémio que me agradou foi o que Diablo Cody recebeu por esse verdadeiro serviço público de felicidade chamado Juno. Ela escreveu uma história simples com uma voz original, um estilo algures entre o literário e o coloquial e, mesmo que isso irrite algumas pessoas, ela injecta tanta alma naquela história que é impossível, mesmo da parte daqueles que não ficaram inteiramente convencidos com o filme, não sentir o calor humano que dali emana sem lamechices nem excessos de açúcar.

E, de repente, a maior e mais tocante justiça da noite foi para a dupla mais improvável de brilhar a grande altura numa noite destas. As nomeações para Melhor Canção foram das coisas mais vergonhosas da História: com tanta cantiga interessante em tanto filme diverso, três nomeações para canções do Enchanted?! As canções, algumas das obras mais aborrecidas que já saíram da pena de Alan Menken e Stephen Schwartz, foram interpretadas com um aparato cénico tremendo, mas quem ganhou o prémio foi Glen Hansard e Marketa Irglova, actores e músicos da mais subtil história de amor do ano, o brilhante filme irlandês Once.

Um rapaz à guitarra, uma rapariga ao piano. A orquestra do Bill Conti trouxe uma dimensão nova à canção Falling Slowly, mas foi o triunfo da simplicidade e da sinceridade, contra o encantamento plastificado. Foi bonito, sim senhores.





Uma vez mais, tenho de contestar directamente uma crítica que vem no Público desta semana. Diz o Vasco Câmara, "poucas vezes acontece durante a projecção de Juno sentir que os diálogos, aforismos e situações não são mais do que o instrumento de uma argumentista à procura da imortalidade com a great american quote".

E eu pergunto: e então? Não é legítima ambição de um argumentista que as suas palavras fiquem? Diablo Cody, que merece desde logo o Óscar de melhor nome de argumentista, é uma escriba que constrói diálogos como quem escreve letras de canções - o que é absolutamente adequado em Juno - e ter esse cuidado de ourives com a palavra não significa que, por isso, se esteja a ser calculista ou pouco espontâneo. Acho que, muito simplesmente, se está a ser bom. Acho que essa é uma ambição legítima e, neste caso, concretizada, que se há coisa que Juno é, é bom. Muito bom. Bem escrito, interpretado, dirigido com delicadeza por Jason Reitman (de quem eu já tinha gostado muito de Obrigado Por Fumar) e com essa coisa absolutamente contagiante que é perceber-se que quem fez o filme adora todas aquelas personagens e, das mais importantes às mais secundárias, a todas - e aos respectivos e extraordinários actores - dá a possibilidade de brilhar.

Ellen Page confirma, depois de Hard Candy, que é uma espécie de Natalie Portman vezes 1000; é bom reencontrar Michael Cera e Jason Bateman no mesmo filme depois da série Arrested Development; é bom também que, finalmente, alguém tenha dado um bom papel, em cinema, a Jennifer Garner.

Houve alguém, nos comentários aqui de baixo, que dizia que, ao chamar a Juno "a comédia", eu estava a insultar coisas como os Monty Python. Calma. Juno é a comédia deste ano, e durante o tempo que dura, esta história de gravidez teen e de amores e desamores cruzados, ela consegue fazer com que o espectador sinta que está a ver a pequena história mais importante do mundo, e não é qualquer um que consegue tal proeza (lembro-me que, no ano passado, foi o extraordinário Little Miss Sunshine, com o qual Juno faz uma bela double feature sobre família e outros acidentes de percurso). E sim, é uma comédia, não é um drama. Uma comédia, hoje em dia, não é necessariamente uma máquina de cócegas - coisas como a série britânica Marion and Geoff ou momentos de The Office e Extras, de Ricky Gervais, provam que hoje em dia a comédia pode roçar a tristeza e a angústia sem deixar de ser comédia - e as cócegas que Juno faz são, acima de tudo, na inteligência. É um regalo de filme que, mesmo no combate taco-a-taco com os grandes Paul Thomas Anderson e os Coen, merece não sair, mais logo, de mãos a abanar.

E a banda sonora é daquelas para manter em repeat, em leitores de mp3 e CDs por esse mundo fora.

Um tónico, este filmezinho. Larguem lá o Rambo e vejam mas é isto, pá!


Este filme, que vi há bocado, é simplesmente espantoso.



Juno é a comédia.

Agora vou dormir, e amanhã falamos.


Antes do meu Oscar-spree deste fim-de-semana (em que conto ver, pelo menos, Juno e Persepolis), decidi fazer o gosto à nostalgia brutalista e ver John Rambo. Assim, lá fomos ao Corte Inglés apreciar o que faz um sexagenário munido de arcos, flechas, catanas e canhões em 2008, na Birmânia.


Hora e meia depois, estava tudo em estado de choque. John Rambo é das experiências mais estranhas - e não num bom sentido - que podem ser apreciadas actualmente numa sala de cinema. Não é que a fita esteja mal feita - tecnicamente, é das carnificinas mais convincentes desde a cena do desembarque em O Resgate do Soldado Ryan, coisa que Sylvester Stallone deve ter visto e revisto centenas de vezes para se preparar para dirigir o quarto volume de Rambo. O que se passa é que para ser politicamente relevante, o filme tem a espessura de um lenço de papel húmido, parecendo deliciar-se acima de tudo com a acção nonstop; para ser entretenimento puro e simples de série B, aborda um tema demasiado sério e angustiante e não só é desprovido do mais pequeno resquício de humor ou ironia, como passa muito tempo a mostrar-nos homens, mulheres e crianças a serem chacinados, espancados, escortanhados, violados, desmembrados... O que significa que o valor de entretenimento de John Rambo só será alto para potenciais assassinos psicopatas ou um ou outro adepto do chamado torture porn (embora, num exemplo recente desse género como Hostel II, Eli Roth se preocupasse, pelo menos, em assegurar que havia ali um fundo de sátira e de comédia negra a sustentar todo o molhinho).

Onde a coisa funciona ainda é no nível "tão-mau-que-é-bom" dos diálogos (é quase como ouvir de novo um êxito esquecido de Stock Aitken e Waterman dos anos 80), contendo pérolas do calibre de "You know what you are, what you're made of. War is in your blood. When you're pushed, killing's as easy as breathing" e numa espectacular explosão no meio do mato envolvendo explosivos novinhos em folha e uma bomba do tempo da 2ª Guerra Mundial. De resto, John Rambo é uma fita de acção gore que quer dizer coisas sobre o estado do mundo, mas tem demasiado barulho para que alguém consiga ouvir. É pena, porque se Stallone tivesse aplicado ao seu ícone guerreiro o mesmo tratamento que aplicou ao seu lutador de boxe no recente Rocky Balboa, poderia ter resgatado a reputação de Rambo que, convenhamos, depois de Rambo III ficou um bocado pelas ruas da amargura.

A melhor coisa da noite, cinematograficamente falando, foi ter conseguido reencontrar o DVD de um dos meus filmes preferidos de sempre. Lembro-me que foi dos primeiros DVD que encomendei pela Internet, há uns anos valentes; lembro-me de o ter emprestado e de lhe ter perdido o rasto. Ontem dei de caras com ele a meros 11 euros, numa promoção de clássicos da Warner e aconselho toda a gente de bom gosto a comprar...



Bem Vindo Mr. Chance (simplesmente intitulado Being There, no original) é o último filme do grande Peter Sellers e, para mim, uma das coisas mais sublimes que Hollywood produziu nos anos 70. É realizado por Hal Ashby a partir do livro de Jerzy Kosinski e conta a fabulosa história de um jardineiro que viveu toda a sua vida numa gigantesca mansão, sendo o seu único contacto com o exterior através da televisão, a sua única companhia durante anos. A morte dos patrões faz com que Chance se veja obrigado, finalmente, e já sexagenário (embora, no fundo, tenha o espírito de uma criança), a abandonar a casa e a fazer-se ao mundo. Sem saber bem como, dá por si nos grandes círculos da política em Washington, onde as altas esferas o tomam como um génio político, sem desconfiarem que as suas supostas grandes tiradas ("There will be growth in the spring!") não são elaboradas metáforas sobre o estado da economia, mas ingénuas observações de Chance baseadas na única coisa que sabe fazer: jardinagem. Esta espécie de conversa de surdos entre um jardineiro e os poderosos da América dá azo a momentos hilariantes de sátira política, que eu nunca mais esqueci desde que, na minha sede de abarcar tudo o que Peter Sellers deixou ao mundo, vi Bem Vindo Mr. Chance numa Lotação Esgotada da RTP, há uns bons vinte anos.

 




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