
Estamos bem servidos de terror no cinema: antes de mais, devo dizer que não me desagradou nada, enquanto purista da obra de John Carpenter, a revisão que Rob Zombie fez de
Halloween. Não se compara com o original - até porque esse tinha aquela suprema inovação de filmar boa parte das cenas como se de um ponto de vista de alguém se tratasse. Isto tornava o espectador quase um cúmplice das atrocidades cometidas por Michael Myers e revelava Carpenter como um dos grandes mestres da realização de horror. E é isso que faz com que, ainda hoje, o velhinho
Halloween de 1978 seja dos
slasher movies mais eficazes da História. Zombie, que provou com
The House of 1000 Corpses e
The Devil's Rejects ser um realizador com o
feeling certo para o horror (o que não espantará quem conhece os ambientes da sua obra musical com os White Zombie), reinventa Myers como um monstro nascido do inferno
white trash da América profunda, numa história de origem que, como dizia a revista Empire e muito bem, é, no fundo, um pedaço de
fan fiction. E como fã que é, Rob Zombie filma com doses justas de reverência e inovação um psicopata clássico, prestando, neste
remake, melhor serviço à série do que todas as sequelas juntas que
Halloween teve. Não é melhor que os anteriores dois filmes de Zombie, que eram deliciosamente dementes, mas é um bom espécime do género e um nostálgico reencontro com uma besta sanguinária que qualquer amante do terror adora odiar. E tem um elenco cheio de lendas da série B, de Danny Trejo a Udo Kier, passando por Brad Dourif e Malcolm McDowell.

Melhor que o
Halloween de Zombie, embora estejamos a falar de um tipo de terror radicalmente diferente, é aquele que, de uma assentada, consegue ser o melhor filme de Frank Darabont desde
Os Condenados de Shawshank, uma das melhores adaptações cinematográficas de uma história de Stephen King, um dos melhores filmes de terror fantástico dos últimos tempos e, até ver, um dos melhores filmes da colheita de 2008. Nada tendo a ver com John Carpenter,
The Mist - Nevoeiro Misterioso, parece por vezes o melhor filme de Carpenter não dirigido por Carpenter: está lá a crítica social e política disfarçada de horror, a claustrofobia, a eficácia narrativa arrasadora, sem perdas de tempo. E está lá, pronto, o nevoeiro. O melhor nevoeiro tenebroso desde
The Fog. A história passa-se numa pequena vila americana que, após uma noite de temporal, se vê invadida por um nevoeiro denso que traz consigo um dos mais espantosos elencos de criaturas assassinas de que há memória. Barricados num supermercado, olhos horrorizados postos nas gigantescas janelas do estabelecimento com vista para o nevoeiro, habitantes da vila vivem um crescendo de tensão que, a dada altura, e quando fanatismos religiosos apocalípticos se aproveitam da situação, leva o espectador a questionar-se se não será mais terrível o monstro homem do que propriamente as sanguinárias criaturas que atacam no nevoeiro.
The Mist lembra os grandes clássicos dos anos 80 e devolve-nos o espírito de espanto, surpresa e inquietação que faz com que amemos coisas como
The Thing ou
Aliens. E Frank Darabont, até aqui especialista em adaptar a cinema os contos mais doces e realistas de Stephen King, mostra que tem unhas afiadas para tocar a guitarra do medo. E consegue um final surpreendente de que M. Night Shyamalan não desdenharia. Vale a pena aplaudir ainda Marcia Gay Harden num papel que, não fosse a Academia considerar o horror um género menor, lhe poderia ter valido nomeação para o Óscar. Um petisco - ou melhor: todo um banquete - para
gourmets do horror fantástico.