Outro dia fui a uma das antestreias de
Shine a Light... E é isto que se me apraz dizer sobre o filme que juntou os Rolling Stones a Martin Scorsese...
Senhores U2, façam lá o favor de pôr os olhos no que é um filme-concerto a sério.
Shine a Light, dos Rolling Stones, realizado por Martin Scorsese, torna ainda mais evidentes as fraquezas do recente
U23D que, ao pé deste filmaço, faz figura de gélida e maquinal criação de laboratório.
Shine a Light é uma experiência humana, a começar pelo que se passa no palco e até à maneira como quem está atrás das câmaras regista o quão emocionante é tudo aquilo, não usando os artistas em palco como meros bonecos-ícones, mas tentando fazer algo que soa a
cliché, mas que aqui assenta que nem uma luva: captar-lhes a alma.
Em
U23D, por várias vezes senti que estava a ver um
loop de planos registados por robots. Já Scorsese é artista que, para fazer um espectáculo empolgante, não precisa nem de ir a um estádio (
Shine a Light foi filmado num teatro), nem de recorrer a efeitos tridimensionais. E assim, o filme junta-se à galeria dos ilustres filmes-concerto que são, de facto, cinema (como
Stop Making Sense, dos Talking Heads e Jonathan Demme) e constitui entretenimento de primeira, o tipo de coisa capaz de conquistar novos fãs para a lendária banda e de fazer os antigos estremecer de emoção.
À parte da categoria com que Scorsese e a sua legião de talentosos
cameramen filmam o concerto, com as câmaras pertíssimo dos artistas, rodopiando pelo palco e fazendo do espectador quase um elemento da banda,
Shine a Light é um filme
muito divertido. Por vezes chega a fazer lembrar o clássico
Spinal Tap, na maneira como Scorsese avança por caminhos novos para ele, criando intriga e picardia com a banda nos pequenos segmentos que antecedem o espectáculo e que roçam um humor quase
The Office, seja ele fabricado (e quase de certeza que a gozona embirração entre Mick Jagger e Martin Scorsese é ficção) ou partindo do real (Bill Clinton apresentando amigos e a própria mãe à banda). Pelo filme fora, entre canções, a selecção de imagens de arquivo é também bem humorada, baseando-se numa escolha dos momentos de maior desconforto / patetice / valente pedra dos vários Stones em variadas entrevistas e programas de televisão, em vez de enveredar por caminhos lamechas de glorificação dos dinossauros.
E para dinossauros, eles estão avassaladoramente em forma. Olhando para
Shine a Light, a expressão "velho gaiteiro" ganha uma dimensão digna. Jagger canta e move-se como se tivesse 20 anos e os restantes companheiros, embora menos exuberantes nos movimentos mantêm uma
coolness à prova de rugas (e Keith Richards tem um momento glorioso quando canta
You've Got the Silver).
No fim, o grande Scorsese brinda-nos com um falso mas muito castiço plano-sequência: a câmara, frenética, sai disparada do palco mal o concerto termina, avança pelos bastidores e abandona o teatro em direcção a um céu estrelado em que a lua se transforma nos mais famosos lábios e língua da história do
design gráfico. Ou seja, o plano começa à
Goodfellas e termina tipo
trip. O veterano prova que, tal como os veneráveis anciãos que filmou, mantém uma energia de fazer inveja a muito vigoroso jovem.