Que a série Big Love é das melhores do acervo da HBO, disso já todos sabíamos. O que eu não sabia - se não tivesse dado uma saltada ao excelente blog do David Byrne, onde ele fala de tudo incluindo assuntos mundanos como visitas ao Ikea - é que o meu guru musical e antigo vocalista dos Talking Heads compôs a banda sonora da segunda temporada da série (que eu já aqui tenho em DVD à espera de ser vista), substituindo o ex-Devo Mark Mothersbaugh, que fizera um excelente trabalho na primeira temporada. Melhores notícias é saber que o CD com a música de Byrne sai, em formato físico e palpável, no dia 19 do mês que vem. E notícias ainda melhores é que no site oficial do músico o álbum já pode ser comprado em mp3 pela módica quantia de 10 dólares, o que é uma pechincha.

 

Convém que se diga que Big Love Hymnal não é um disco de canções, mas sim de peças instrumentais. Convém também que se diga que isso não deve ser obstáculo à compra da obra por quem se tenha em conta de fã do artista. Álbuns instrumentais já ele fez vários - como My Life in the Bush of Ghosts, com Brian Eno, ou a arrebatadora sinfonia The Forest - e todos eles muito bons, sendo que Big Love Hymnal em nada fica atrás dos clássicos. Não é tão erudito e "difícil" como The Forest, ficando com um pé no experimentalismo orquestral e o outro numa acessibilidade muito pop. Acima de tudo, estas composições devem assentar que nem uma luva aos episódios da segunda série de Big Love, embora sejam o tipo de banda sonora que sobrevive com grande classe às imagens que ilustra (até porque, segundo diz o próprio Byrne, ele fez algum corte e cola nas composições originais para as tornar funcionais sob a forma de disco).

 

Em suma, belíssima música instrumental feita por um génio e um óptimo aperitivo antes do previsivelmente sublime Everything That Happens Will Happen Today, o novo disco de canções, feito a meias com Brian Eno. Que sai também em Agosto (na versão mp3; a versão física só lá mais para o Outono). Eu já fui aqui inscrever-me para receber uma das músicas do álbum totalmente grátis. Dizem eles que me mandam para o e-mail na segunda-feira. Venha ela.

 

Quanto a Big Love, a segunda temporada da magnífica comédia dramática da HBO sobre as delícias e os dramas da poligamia já está pelas lojas portuguesas e tem este aspecto:

 



A novidade do mês: cortei relações com ZON, Meo e afins. Mantenho agora o pacote básico da TV Cabo, mas pedi que me levassem a box - a verdade é que cheguei à conclusão que estava a deitar dinheiro à rua. Passam-se dias e dias que não vejo televisão, pelo que estar equipado com tantas dezenas de canais mais os pacotes de canais de filmes e séries era um tremendo disparate, já que os filmes e as séries que vejo são em DVD. Pronto, no que toca às séries admito que há muitas que vejo primeiro na net - peço desculpa pela piratice, mas não passo sem ver coisas como The Office e 30 Rock mal existem episódios novos. Mas asseguro que posso ir para o Céu quando morrer, porque depois compro essas séries todas em DVD.

 

E só para o caso de haver algum senhor do FBI ou da ASAE ou lá quem eles mandam a casa das pessoas em busca de pirataria, a ler isto e a pensar: "Ah, bandalho!... Vamos mas é prendê-lo!", aqui fica um retrato do armário das séries. Como se vê, lá estão, entre outras, o 30 Rock e o The Office. Arrumem as vossas armas. Tirando um ou outro cadáver no jardim - coisas que acontecem - sou um cidadão exemplar.

 

 

Para celebrar a minha nova vida livre de encargos desnecessários e fúteis, pus-me a fazer um bom velho zapping molengão pelos bons velhos canais do cabo e, ironicamente, constato que foi preciso fazer este downgrade para descobrir a coisa mais interessante que vi num canal de cabo em muitos, muitos meses: uma reportagem na TV Record sobre a estação de televisão mais pequena do mundo: a TV Muro.

 

 

A TV Muro é isto que se vê na fotografia: literalmente uma televisão encastrada num muro, na pequena cidade brasileira de Sabará, em Minas Gerais. E tudo começou em 1997, quando um tipo chamado Francisco Dário dos Santos (conhecido pelos locais como Chiquinho) decidiu aproveitar um pequeníssimo emissor de TV - desses que se usam para emitir imagem da sala para a cozinha - que encontrou no lixo. Daí até montar, na própria casa, um pequeníssimo canal de televisão foi um passo. Primeiro emitia para um televisor metido no muro, com programas curtos para evitar que o povo estivesse demasiado tempo em pé a olhar para o ecrã sem ter onde se sentar; depois expandiu o raio de acção e agora emite para uma vasta audiência de 20 televisores lá da rua. Chiquinho faz de tudo: programas de informação, humor e até contos do sobrenatural. Não encontrei a reportagem que vi ontem na Record, mas no You Tube há alguns videos interessantes sobre o canal, como este:

 

 

O melhor trabalho sobre a TV Muro é uma curta-metragem de 9 minutos premiada em festivais co-produzida pela Petrobrás. Ela está no You Tube, mas numa cópia de tão má qualidade e com o som tão mal sincronizado que mais vale ir procurar a curta noutro lado (eu procurei mas não encontrei; espero que tenham melhor sorte).

 

O outro assunto digno de interesse prende-se com mais uma colectânea de música dos anos 80. Eu sei - era a última coisa que o mundo precisava, mais uma colectânea dos 80s, mas esta, criada em Portugal, tem um bónus precioso. Chama-se O Melhor dos Anos 80: As Músicas dos Filmes e, senhoras e senhores, é o primeiro CD que inclui, sim, é verdade...

 

 

... o tema da série Zé Gato, entoado com elevados níveis de pinta por Pedro Brito (irmão de Tozé Brito, que faz coros na canção). Pela primeira vez em CD! É claro que isto não diz nada a variadíssimas pessoas sub-30, mas para as pessoas que se encaminham a passos largos para os 40, Zé Gato é um mito. O nosso Balada de Hill Street! O nosso Starsky & Hutch! A série em que um dos episódios versava sobre um aterrador criminoso que ia para concertos do Paulo de Carvalho fazer gravações piratas das músicas com um daqueles gravadores que se usavam para carregar jogos no Spectrum! 

 

Só faltou aos compiladores de O Melhor dos Anos 80: As Músicas dos Filmes assegurar também o tema de Duarte e Companhia (tal como Zé Gato, uma série de Rogério Ceitil, um dos mais loucos autores de televisão dos anos 80), mas espero que a falha seja colmatada num próximo volume. Neste há algumas outras pérolas: Lia Gama cantando A Balada da Rita, de Sérgio Godinho, na banda sonora de Kilas O Mau da Fita (outro lendário ícone do audiovisual oitentista nacional) e Paulo de Carvalho cantando O Malandro, tema do filme A Crónica dos Bons Malandros. E depois há as coisas previsíveis: Neverending Story de Limahl, Maniac de Michael Sembello, Axel F de Harold Faltermeyer, Ghostbusters de Ray Parker Jr...

 

Mas o Zé Gato, caramba! O Zé Gato!...



 

De maneiras que há um gato a precisar de ser salvo, e há um indivíduo - que acontece ser homossexual - que decide salvar o gato. E de maneiras que o dono do gato, que deveria ficar contente por haver alguém a salvar-lhe o bichano, riposta com tiros - tiros! - contra o indivíduo que lhe estava a salvar o gato. Porquê? Porque se tratava de um homossexual e porque já se sabe que essa gentalha faz sexo desenfreado com tudo o que encontra - incluindo gatos - e ainda é capaz de passar o bicho da homossexualidade ao felino, valha-me Deus. As balas acertaram numa vizinha, que não ficou em bom estado.

 

Citem-se as sábias palavras do juiz responsável pelo caso e que me parece ter estado a um passo, um pequeno mas histórico passo de ter proferido a palavra começada por F: "Dar um tiro em alguém por ser homossexual e por supostamente ter relações com um gato e por isso o animal ter ficado paneleiro é o motivo mais torpe que já ouvi".

 

IMPORTANTE ADENDA (às 16h55): Obrigado ao leitor Bruno Vaz por este acrescento precioso. Diz ele que o senhor, depois do tiro, barricou-se em casa. "Até a PSP o convencer a abrir a porta com a promessa de lhe mostrar um relógio antigo". Isto porque o dono do gato tinha demonstrado interesse por itens de relojoaria.
 

Isto é sublime.

 

"Abra a porta, já!"

 

"Não abro!"

 

"Saia com as mãos no ar!"

 

"Não saio!"

 

"Então e se lhe mostrarmos um Rolex de 1956?"

 

"Ah, assim já estamos a falar de outra maneira."



 

Gregg Gillis, americano, nascido em Pittsburgh em 1981, é um jovem com demasiado tempo nas mãos - e ainda bem que assim é. O novo álbum do seu projecto Girl Talk, Feed the Animals, é mais um trabalho admirável de corte, costura e reciclagem pop, um paciente exercício de colagem de milhentos samples (de gente tão diversa como os Police, Kanye West, Procol Harum, Cat Stevens, Ace of Base, Pete Townsend, Jay-Z, Avril Lavigne, Aphex Twin, Butthole Surfers, Beck, Rod Stewart, Ben Folds, Beastie Boys, Salt n Pepa, Phil Collins... e por aí fora!) num desfile de canções literalmente feitas de restos. As combinações de sonoridades aparentemente impossíveis de combinar (Gillis é o único artista capaz de cruzar Queen, Rihanna e Faith no More no mesmo tema!) fazem dele mais do que um virtuoso geek de computadores perito no divertimento do mash-up: ele é um potencial jovem Andy Warhol do novo milénio que, em vez de reinventar latas de sopa Campbell ou replicar imagens coloridas de Marilyn Monroe, aplica o tratamento a excertos de canções dos mais variados estilos e inspirações e cria algo de novo e surpreendente. O método já tinha dado origem aos discos Secret Diary, Unstoppable e Night Ripper, mas tudo soa ainda mais apurado neste novo Feed the Animals. Para além da qualidade da obra, o disco tem outra coisa aliciante: permite que o ouvinte se divirta a tentar detectar de que canções vêm os inúmeros samples de que são feitas as músicas do disco. É óptimo para animar festas e viagens longas de carro!

 

Um exemplo? Still Here. Inclui uma sublime misturada de géneros, músicas e artistas: Procol Harum, Kanye West, Youngbloodz, Blackstreet, Dr. Dre, Michael Jackson, Radiohead, Webbie, The Band, Yung Joc, Ben Folds Five, Ace of Base, Lil' Scrappy, Cassidy, Fergie, Kenny Loggins, Gorilla Zoe, Beastie Boys, Beck, Salt n Pepa, Audio Two, Milk e Cat Stevens. O resultado é este:

 

 

Gregg Gillis disponibilizou o novo álbum de Girl Talk seguindo os passos dos Radiohead com In Rainbows: basta darem uma saltada ao site da editora dele, Illegal Art, e podem fazer o download das faixas do disco pagando o que bem vos apetecer. Façam o favor de visitar o senhor e de lhe dar qualquer coisinha, que isto deve dar trabalho!



 

Últimas aquisições altamente recomendáveis: antes de mais, a quinta série de Peep Show, uma das britcoms mais brilhantes e consistentes de sempre e a tal de que Ricky Gervais diz ser fã. Permanece vergonhosamente inédita em Portugal (se não estou em erro ainda nenhum canal lhe pegou, nem dos mais pequenos) e é uma obra-prima que podia rapidamente esgotar-se no seu gimmick (a câmara assume sempre o ponto de vista das personagens e ouvimos aquilo em que estão a pensar), mas que graças ao tremendo dom dos argumentistas Sam Bain e Jesse Armstrong para construir histórias fortíssimas, mantém-se viciante e é a mais conseguida tentativa britânica para seguir os passos do humor de observação, detalhe e embaraço dos americanos Seinfeld e Curb Your Enthusiasm. É também o melhor trabalho da dupla de comediantes David Mitchell e Robert Webb. Se não conhecem e querem conhecer, o melhor é começar pela série 1, que uma das delícias de Peep Show é acompanhar a evolução das vidas destas desprezíveis criaturas ao longo das cinco temporadas. Já é um clássico.

 

 

Lead Balloon é mais óbvio na inspiração que bebe a Curb Your Enthusiasm, mas Jack Dee, fã de Larry David, assume-o totalmente. Seja como for, há mais angústia em Lead Balloon. Enquanto David, por muito atribulada que lhe corra a vida, é um milionário consagrado, a personagem de Dee, um amargo cómico de stand-up chamado Rick Spleen, vive de fazer espectáculos para empresas e está longe de ser popular e consensual, o que eleva a carga de traumas e inseguranças que ele arrasta pelos seis episódios desta primeira temporada. O mais novo e admirável em Lead Balloon é o fogo lento em que tudo arde. Apesar da inspiração ser americana, a contenção nervosa, o quase sussurro em que muitas das falas são ditas, tudo isso é 100% british. E quanto maior a contenção e o low profile, maior o efeito cómico. Não é para todos os gostos mas aqueles a quem Lead Balloon cair no goto vão ficar viciados e ficar a ansiar por uma dose maior do que estes seis episódios (e não tarda muito a BBC vai editar os seis da segunda série).




 

Ontem passei pelo Lisbon Calling, no Pavilhão Atlântico. Infelizmente não fui a tempo de ver os meus mui adorados Stranglers que, apesar de já não contarem com o carisma do Hugh Cornwall na cantoria, parece que deram um show que não foi nada de se deitar fora. Antes deles já tinham brilhado os Marillion, mas sem esses passo eu bem (com todo o respeito por quem os admira e por algumas canções de Misplaced Childhood que, nostalgicamente, fazem parte do meu imaginário de teenager).

 

Quem eu queria mesmo ver eram os B-52s, completos com as duas moçoilas e o incomparável e inimitável Fred Schneider, banda que até ao anúncio, há uns meses, da sua comparência neste festival, eu julgava que nunca iria ter o prazer de ver ao vivo, sendo eu fã de longa data deste alegre colectivo. E foi uma delícia vê-los e ouvi-los cantar maravilhas como Roam, Loveshack, Mesopotamia, My Own Private Idaho ou uma das minhas favoritas de sempre, o espantoso Rock Lobster. Já é indisfarçável, mesmo com todas as camadas de maquilhagem e glamour, que estão ali pessoas de meia-idade e que os movimentos já não saem com o vigor certeiro dos velhos tempos, mas a verdade é que Fred Schneider, Kate Pierson, Cindy Wilson e Keith Strickland continuam a ser um bando cool, os tios malucos que todos gostaríamos de ter. Desgraçadamente, uma hora é uma amostra. Seria a duração ideal se eles não estivessem tão em forma e se quiséssemos só matar saudades, mas como o prova o último álbum, Funplex, os B-52s ainda conseguem dar um show explosivo e de bom grado que estaríamos ali mais uma hora a assistir ao desfile dos coloridos clássicos da banda. Eles continuam divertidos e despretensiosos: gostei do momento final em que, qual artista em princípio de carreira, Schneider se despediu dizendo "tell your friends about us!". São os maiores e, não tendo visto as actuações anteriores a eles, arriscaria dizer que foram os maiores da noite.

 

Infelizmente, em vez de mais uma hora com os B-52s e não se falava mais nisso, o Lisbon Calling ainda tinha Meat Loaf a fechar e, isso sim, roçou o degradante. A começar pelo gigantesco pano com as palavras "CASA DE CARNE" e o horrendo desenho de um boi (suponho que para o velho Loaf aquilo fosse uma coisa estilosa, mas a verdade é que parecia o logotipo de um restaurante de rodízio de um centro comercial da Brandoa) e a terminar na actuação propriamente dita. Pronto, eu estou longíssimo de ser fã de Meat Loaf e por isso poderei estar a ofender quem realmente aprecia a obra do senhor, mas no momento em que ele decidiu fazer uma rábula cómica envolvendo uma camisa de flanela, uma geleira, algumas Budweiser e as duas coristas, eu pensei "é a minha deixa" e optei por zarpar para o Edmundo, aqui em Benfica, onde - como diz o slogan estampado nas janelas - se come "o melhor marisco do mundo". Não sei se é o melhor; sei que se revelou uma extraordinária alternativa ao indigesto rolo de carne.

 

PS - Para que não me acusem de ser injusto para o Meat Loaf, tenho de dizer que gosto do trabalho dele em duas circunstâncias, ambas cinematográficas - o lendário Rocky Horror Picture Show e o filme Fight Club. Agora, os discos dele, quero-os a uma distância segura de mim e dos meus.



Enviou-me o Filipe Homem Fonseca (alô, Phil! Um obrigadaço!) este video do You Tube que lhe enviaram a ele e que é um verdadeiro documento que prova como as lições de Bruno Aleixo já correm as bocas do mundo e são passadas de boca em boca. E podem até, quem sabe, servir para impressionar mulheres jeitosas. No video, filmado num restaurante, um narrador - Nuno Alvim, de acordo com a informação deixada no You Tube - conta a toda uma mesa entusiástica a sua versão do episódio d' Os Incorrigíveis que eu fiz com o lendário Bruno Aleixo e que pode ser visto aqui, na sua versão original. Digamos que apesar dele tomar algumas liberdades na narrativa, é um bom embaixador do Aleixiverso (o universo de Bruno Aleixo, para quem não percebeu). Pelo menos as pessoas riem-se. Na volta quando chegaram a casa e viram o nosso original, concluiram que a coisa contada pelo Nuno Alvim tinha mais piada!

 

 



 

Antes de mais, que fique claro que ainda não é desta que me apanham a dizer que há um Batman e um Joker melhores que os do Tim Burton. O que digo é que são abordagens diferentes, sendo impossível apontar quem é melhor ou pior - é como comparar comics. Eu não arrisco dizer se The Killing Joke é superior a Year One; são artistas diferentes, recriando figuras lendárias cada um à sua maneira e é isso que se passa com os filmes de Burton e de Christopher Nolan. Os de Joel Schumacher, ele que fique com eles - eu por mim passava directamente de Batman Regressa para Batman: O Início e das fitas que Schumacher fez com o homem-morcego, quanto menos se falar, melhor (até porque as revi recentemente, e, ao contrário das de Burton, o tempo não as favorece nada).

 

Posto isto, e sem mais delongas, digo-vos que The Dark Knight é um grande filme, um épico criminal avassalador e um trabalho de argumento, realização, interpretação de um detalhe arrepiante, seja a posicionar as peças do xadrez criminoso de Gotham, seja quando a tensão explode em acção quase apocalíptica. Como não é de admirar num filme cujo vilão é o Joker (e posteriormente um dos meus vilões preferidos do universo Batman, o Duas-Caras), desta vez a personagem de Batman fica algo ofuscada, o que não significa que Christian Bale não faça um esplêndido trabalho. Talvez ainda mais do que em Batman Begins, o seu Bruce Wayne surge com incómodos laivos de arrogância e o seu Batman está mais agressivo e impaciente que nunca, tudo características que o tornam infinitamente mais humano e complexo do que os recentes Superhomem e Homem-Aranha. Mas é claro: o Joker de Heath Ledger é o vilão.

 

Com a cara feita numa amálgama de cicatrizes e má maquilhagem, saboreando cada palavra e cada trejeito e reiventando a sua origem a cada nova mentira, este Joker vem de parte incerta e o facto de não sabermos nada sobre ele torna-o uma criatura assustadora. Assim como assustador é o facto de rapidamente percebermos que, ao contrário de todo o bom vilão megalómano clássico, ele não se interessa particularmente por dinheiro ou poder - com uma espécie de pureza desconcertante, o Joker é um psicopata simplesmente deliciado com o caos, a manipulação e o teste constante à natureza humana: a partir de que momento é que, para salvar uma vida (a própria ou a de alguém que se ama) é que os homens estão dispostos a acabar com outra(s) vida(s) inocente(s)?

 

É o melhor papel de Heath Ledger e, por brutalmente triste que seja pensar que só o veremos em mais um filme (o próximo de Terry Gilliam, que não conseguiu acabar), The Dark Knight é um bombástico fecho de carreira e o tipo de interpretação icónica que faz dele um mito Hollywoodesco à antiga. Era de lhe prestar tributo com um Óscar póstumo, sim senhores - e não seria só para homenagear o finado, mas sim a perfeição com que criou um dos grandes monstros da História de Hollywood (e não são disparatadas as comparações que Christopher Nolan faz entre o Joker e o Tubarão de Spielberg!).

 

O filme não se esgota nas sádicas partidas do Joker. A evolução da personagem do procurador Harvey Dent e a sua transformação em Duas-Caras é mais uma prova da tremenda versatilidade de Aaron Eckhart, brilhante como poster boy sorridente da justiça civilizada de Gotham City e, posteriormente, como um psicopata quase tão perturbante como o Joker (e que espantosa fusão de maquilhagem e efeitos digitais, a dupla cara de Two-Face!).

 

The Dark Knight é um blockbuster escapista com vastíssimas doses de inteligência. O final, ambíguo, injusto, mas incrivelmente realista, deixa o espectador - mal habituado a desfechos banais e repetitivos no que toca a fitas de super-heróis - com uma certa sensação amarga (no bom sentido, há que dizê-lo). Christopher Nolan tem várias sequências inesquecíveis e uma das mais bem filmadas dos últimos anos: o duelo que opõe Batman de motorizada contra um Joker acabado de sair, sorridente, de um camião que capota de forma espectacular. Aliás, a categoria dessa cena resume o quão bom é The Dark Knight - sem dar ao espectador um segundo de descanso, oferece-lhe uma pirueta visual de espanto envolvendo um veículo pesado e, sem mudar o plano, um maravilhoso momento de interpretação de Ledger.


A grande questão é: e agora? Não valeria a pena toda a Hollywood pôr os olhos no gigantesco sucesso de um filme inteligentíssimo como The Dark Knight e subir a fasquia do comic book movie antes de deitar cá para fora mais um Quarteto Fantástico?

 

Para mim, o trailer de Watchmen é um sinal aliciante de que as coisas podem estar mesmo a mudar. Já aqui o disse, em tempos, que Watchmen não só é a minha graphic novel preferida, como o incluo na lista dos meus livros preferidos - no sentido mais vasto - de todos os tempos. O meu profundo amor (e, pronto, obsessão) por Watchmen é tal que comprei o livro duas vezes - uma no princípio dos anos 90 e a outra numa recente ida a Londres, quando, na apetitosa loja Forbidden Planet, encontrei uma edição autografada por Dave Gibbons. Alan Moore, escaldado com todo um historial de péssimas adaptações das suas BD a cinema (sendo o exemplo mais escandaloso e perturbante The League of Extraordinary Gentlemen, com Sean Connery), resolveu não associar o seu nome a esta adaptação, mas a ver pelo trailer e pelas fotografias parece-me que, desta vez, fez mal. Parece-me evidente que Zack Snyder (realizador de Dawn of the Dead e 300) é um fã devoto do livro, ou não faria as coisas desta maneira:

 

 

E já agora, nunca é demais aconselhar a quem não tem: comprem o livro. Na FNAC vi há tempos uma edição de luxo, de capa dura (querem ver que ainda compro o sacana do livro uma terceira vez?).

 



David Byrne, o senhor que com os Talking Heads me fez gostar de música da boa, regressa com uma canção delirante onde emparelha com Norman Cook, a.k.a. Fatboy Slim - que agora tem um novo projecto que dá pelo nome de The BPA - e com o rapper britânico Dizzee Rascal. Toe Jam tem tudo para animar o Verão, incluindo um video que prova que Norman Cook pode mudar de nome mas continua a ter olho para o videoclipismo. E para muitas, muitas mulheres nuas! E alguns gajos também.

 

 





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