Há uns bons anos que não ia ao Jardim Zoológico, e sempre mantive com o respeitável estabelecimento uma estranha relação de atracção-repulsão. Se por um lado me agrada pensar nas boas intenções da instituição no que toca quer ao lado didáctico da coisa, quer ao lado da preservação das espécies, por outro, e de uma forma muito fria, pensar que há animais selvagens a viver na Estrada de Benfica é o tipo de pensamento infantil mágico que, na idade adulta, se transforma em algo com o seu quê de deprimente.

 

Feito este prelúdio, há que dizer que fiquei muito bem impressionado com as modificações que foram feitas no Zoo de Lisboa desde que lá fui há uns anos, para uma gravação do Perfeito Anormal, com o Fernando Alvim. As mudanças não são só para encher o olho; enchem, porque tudo está bastante mais sofisticado e ao nível de alguns bons jardins zoológicos internacionais, mas porque se nota que a coisa tem estado a ser feita não só a pensar no conforto do visitante como no de quem lá mora.

 

Fiquei particularmente fascinado com a enorme área a céu aberto construída para os nossos primos símios. Ainda me lembro da tortura que era ver os gorilas fechados em jaulas interiores, cabisbaixos. Hoje em dia, anda tudo em liberdade e com janelões onde é possível contemplar de perto a nossa família.

 

 

Segundos depois de eu lhe tirar esta fotografia, este bacano virou-me as costas e deu, com extrema violência e precisão, uma cotovelada e um coice no vidro, pirando-se de seguida. Pensei: "Porra, nem esta malta gosta d'Os Contemporâneos".

 

Pensei também que se não existisse o vidro, este amigo tinha-me deixado roxo de porrada.

 

A área dos símios é enorme e bem cuidada, bem longe daquela coisa decadente que existia durante anos chamada "a Aldeia dos Macacos". Hoje em dia é todo um outro nível:

 

 

Sobre a velha e extinta Aldeia dos Macacos, devo dizer que, durante anos e anos de idas ao Jardim Zoológico de Lisboa, ela fez as minhas delícias até um macaquito me ter atirado, uma vez, fezes. Nessa altura percebi que, provavelmente, eles estavam a querer passar ali uma mensagem e que, incapazes de pedir ao Estado um Direito de Antena, usavam cocó para reivindicar.

 

Hoje, já nesta zona reformulada, limpa e bem tratada, aquele indivíduo da fotografia que me agrediu através do vidro começou depois a atirar pedaços de melancia aos transeuntes. Isso agora também já me parece comportamento de vedeta. O que querem mais? Ecrãs LCD de alta definição? Vamos lá a ter um bocadinho de decência.

 

O reptilário também vale a pena ser visitado, não só porque está bonito e confortável para os animais, como também pelo excelente aspecto das saladas que lhes são servidas.

 

 

Nunca a comida dos animais do Zoo me abriu tanto o apetite, devo dizê-lo. Mais: gostaria de contratar o tratador dos répteis como cozinheiro pessoal, que quem faz uma salada com aquele bom aspecto e com aquilo que parecia ser uma sábia mescla de alface, tomate, cenoura e maçã, tem um talento que precisa de ser aproveitado não só por iguanas.

 

No final, fomos almoçar. Apesar do Zoo estar em grande e de, mais do que nunca, ficarmos com a boa sensação de que toda a gente está ali a contribuir para o estudo e a preservação de várias espécies animais, há coisas que ainda precisam de ser afinadas. A mais problemática, para mim, é a inquietante proximidade que existe entre a zona denominada de Quintinha, onde pequenos e graúdos podem ver e interagir com cabras, coelhos e vacas, e o restaurante de rodízio Búfalo Grill. É necessária extrema contenção por parte dos adultos para não dizerem às crianças da família "agora vais comer a vaquinha a quem estiveste a dar festinhas aqui ao lado".

 

Naquilo que claramente deveria parecer melhor ideia no papel do que na prática, o interior do Búfalo Grill está ornamentado com o cadáver empalhado de uma vaca que faz "muuuuu" - num volume inquietantemente elevado - quando alguém passa perto dela. Num restaurante de uma tribo canibal, isto equivaleria a ter um Dr. Livingstone mumificado, à porta, a dizer "tirem-me daqui" quando alguém passasse junto dele.



Há uma cena num dos meus filmes preferidos de Paul Newman, Cool Hand Luke, em que o inquieto presidiário presta um tributo de fazer vários nós na garganta, ao saber da morte da mãe.

 

Impõe-se que Plastic Jesus seja ouvido hoje outra vez.

 

Adeus, Luke.

 

 

Paul Newman. RIP. 1925-2008.



 

O segredo para evitar a afamada "pressão do segundo disco" é um artista estrear-se logo com dois discos ao mesmo tempo. Assim é a entrada em cena - bombástica - de Benji Hughes, artista que me foi dado a conhecer outro dia pelo David Fonseca, a quem agradeço mais uma preciosa dica musical. Benji Hughes é um americano cabeludo, barbudo e anafado que parece saído de um episódio de American Chopper, mas que, na verdade, é um extraordinário poeta das pequenas grandes coisas da vida - desde os desgostos amorosos provocados por namoradas que abandonam um gajo numa loja de conveniência, até ao relato emocionado de uma ida a um concerto dos Flaming Lips, passando por uma queixa contra o preço a que estão hoje em dia os bilhetes de cinema. Qual Seinfeld da pop alternativa, o recém-aparecido Benji Hughes (que ainda não tem entrada na Wikipedia!) fala com humor dos vários nadas que dão sentido às nossas vidas e fá-lo num CD duplo de 25 canções que se movem em territórios sonoros familiares a Beck, Badly Drawn Boy, Eels e os bons velhos Beatles. A Love Extreme é um verdadeiro épico sobre o amor num mundo banal, e um disco que, apesar da sua extensão, não tem momentos mortos, mantendo-se espectacularmente consistente e viciante ao longo das suas 25 histórias.

 

Belas amostras podem ser descobertas no MySpace de Benji e no site oficial. Desde pop altamente dançável e orelhuda a momentos mais contemplativos e melancólicos (mas sem nunca perder o sentido de humor), o mundo de Benji Hughes é um sítio bonito e divertido onde passar umas horas.

 



 

Ontem, a convite da Sony Computer Entertainment Portugal fui apresentar o Playroom X, uma convenção de lançamento dos novos jogos de Natal para as Playstations, onde se inclui essa experiência delirante chamada Little Big Planet, para a qual dei voz. O grande momento foi almoçar com um gentleman inglês simpatiquíssimo e criativo chamado Leo Cubbin, produtor do Little Big Planet e o homem que tratou de convidar Stephen Fry para gravar a voz original do jogo. Cubbin, bem humorado e profundo conhecedor de britcoms (todo o almoço foi passado a trocar dicas sobre as melhores do momento), fã de Douglas Adams e dos livros da saga Hitchhiker's Guide to the Galaxy, é também amigo de um dos produtores dos primeiros trabalhos de Ricky Gervais em televisão - o caso do talk show Meet Ricky Gervais - e a parte mais interessante é que algumas hilariantes histórias verídicas de trabalho que Leo contou ao amigo em noitadas nos pubs de Liverpool, acabaram por aparecer em episódios de The Office!  Cubbin ainda teve a gentileza de oferecer os seus préstimos de cicerone quando eu for de visita a Liverpool. É um tipo tão acessível e low profile, que uma pessoa se esquece que ele é só um dos cérebros por trás de um dos jogos mais aguardados dos últimos tempos.

 

Sendo Cubbin um dos criadores de Little Big Planet, foi uma experiência divertida e algo surreal estar a experimentar o jogo com ele, enquanto a minha voz saía pelas colunas da maquineta. Não posso negar que foi um bocadinho para o emocionante ouvir o parlapiê que eu gravei há uns meses, já devidamente encaixado no jogo com mais hype da temporada. Diz que sai a 22 de Outubro.



 

... e mais uma baixa audiência! Enfim, acho que os anónimos têm razão: de facto, pouca gente grama este nosso trabalho. Excepto, claro, uma minoria composta por algumas das pessoas mais sensuais do planeta. Para essas pessoas extremamente bonitas, aqui fica o novo episódio no sítio do costume!

 

Deixem-me destacar a incrível tensão que o Bruno e o Dinarte conseguem dar a um sketch que eu e o Francisco Palma escrevemos sobre celebridade nos tempos modernos - a vedeta que vai a festas e programas de televisão sem que se perceba exactamente que profissão é que tem (exceptuando o facto de organizar eventos). Ficou um bom sketch; é pena que pouca gente o tenha visto!



Cada vez acho mais que Karl Pilkington é, na verdade, um génio da comédia. E não quero saber que Gervais diga "if you think he's a genius, you're an idiot". Acho que as teses de Karl são um espanto, e ainda fiquei a achar mais depois de ter lido o anterior livro dele, o excelente Happyslapped By a Jellyfish e onde a qualidade e imaginação das piadas e das ilustrações (desenhadas também por Pilkington) estão a um milímetro de denunciar que o "idiota da cabeça redonda" lançado por Ricky Gervais e Stephen Merchant é aquilo que cada vez mais gente acredita que ele é: um número de comédia espantosamente bem cozinhado por Gervais, Merchant e Pilkington. Há dias acabou de ser lançado o novo livro deste verdadeiro filósofo:

 

 

E se Karlology for tão divertido como o anterior, é de aquisição obrigatória. Ainda por cima diz ali na capa que tem a colaboração não só do padrinho Gervais, mas também de Russell Brand, um dos comediantes mais iconoclastas e punk da actualidade, e de Noel Fielding, um dos criadores dessa experiência louca que é The Mighty Boosh, da BBC.

 

Convém ainda lembrar que no início de Novembro, sai isto (não em Portugal, mas nos estaminés ingleses como a Amazon):

 

 

E isto é, só, uma das melhores horas e meia televisivas da História da Humanidade...

 

(Nota: Extras Christmas Special já existe em região 1, mas há que ter em conta que Gervais alterou coisas em relação à versão inglesa para melhor compreensão do público americano. Coleccionistas devotos com leitores multiregiões talvez não desdenhem ter as duas edições.)



Agora que vivo a uma distância considerável da civilização, decidi redescobrir a magia que é o transporte público. Não, não penso voltar a andar de autocarro, mas tenho de dizer que estou fascinado não só com o comboio, mas também com o metro. O comboio, porque a viagem pela linha de Cascais é revigorante, seja a caminho de Lisboa para trabalhar, seja - sobretudo - no regresso a casa, de volta à minha varanda virada para o mar. Mas o metro, porque, meu Deus, como avançou a tecnologia desde a última vez que andei no metropolitano de Lisboa. Valeu-me a minha espectacular namorada para me explicar - como se eu fosse um homem medieval que, por acidente, veio parar a 2008 através de um portal mágico - como funciona actualmente o metro, com todas aquelas maquinetas e cartões recarregáveis.

 

Mas não foi essa panóplia tecnológica que mais me seduziu, no renovado metropolitano. O que me fez sentir, realmente, como um indivíduo que vem do passado para um futuro tecnologicamente muito mais avançado e onde só falta haver malta com skates voadores foi isto que encontrei na estação da Alameda:

 

 

Não, meus amigos - isto não é uma banal máquina de snacks da estirpe "toma lá moeda, dá cá batatas fritas". Não. Respondendo aos anseios mudos de todo um exército de solteiros, viajando monotonamente, todos os dias, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, isto é, praticamente, a invenção do milénio. Estamos a falar de uma máquina, colocada em plena estação de metro, servindo iguarias tais como...

 

 

... moelas de frango e sopa de goulash. Brutalmente apetitoso e até - no caso do goulash que é um nome estrangeiro - requintado. Admito que um destes dias, no regresso a casa, estive vai não vai para trazer um destes petiscos, até reflectir sobre o assunto e pensar que trazer comida do metro chega a ser um passinho mais deprimente do que da secção de congelados do supermercado. Porquê? Porque, apesar de tudo, o supermercado constitui um esgar de vida social; um tipo que nem ao supermercado vai e que recolhe o seu goulash da estação de metro... Meu Deus.



Depois de toda a discussão nos posts aqui de baixo sobre audiências baixas e afins, venho por este meio anunciar que abri os olhos, e tomei a dura decisão de deixar, para sempre, a comédia, passando a dedicar-me, por inteiro, a uma velha paixão minha, há muito adormecida: sim, meus amigos, por fim vou dedicar-me a tempo inteiro ao meu velho hobby - a decoração de interiores.

 

 

Ah, esperem.

 

Não, afinal não. Afinal foi só uma cólica. Já passou.

 

Não, afinal vou continuar a dedicar-me à comédia. Peço desculpa pelo sobressalto. Bolas.

 

É que a brincar, a brincar e à conta disto, gastei há bocado uma pipa de massa numas almofadas e num reposteiro que, constato agora, não me ficam bem em lado nenhum. Porra.



Segredos de bastidores da nova rubrica: a semana passada gravei um episódio-piloto de Coisas Que Acontecem. Odiei o resultado - o meu tom estava péssimo, ainda viciado por anos e anos de Há Vida em Markl e O Livro dos Porquês, sendo que nenhum dos tons dessas rubricas se adequava a esta; o texto não me satisfazia; decidi reescrever e regravar (não sem antes, pela primeira vez na minha vida, ensaiar o tom certo na pacatez do lar) e agora posso dizer que estou satisfeito e que valeu a pena o trabalhinho para encontrar a linguagem certa para o Coisas Que Acontecem. A banda sonora dos Deolinda funciona na perfeição - aliás, acho que o meu esmero e perfeccionismo foi precisamente para fazer jus ao brilhantismo da música deles. Tal como aconteceu com a minha colaboração com o David Fonseca n' O Livro dos Porquês, quando se tem músicos de altíssimo calibre a criar bandas sonoras para uma rubrica de rádio (em que toda a envolvência sonora é tão importante), um gajo não tem outro remédio senão tentar justificar a excelência que os artistas puseram a criar estas composições, fazendo o possível por ser, basicamente, bom.

 

Se consegui ou não, isso fica ao vosso juízo. Dia 29, segunda-feira, às 8h20 vai para o ar o primeiro episódio de Coisas Que Acontecem, com um belo trabalho de produção do Gualter Santos e a sede que eu já tinha, há uns tempos, de voltar a contar histórias na rádio, que é um dos melhores meios para o fazer. Repetirá às 18h20. E assim será de 2ª a 5ª feira (6ª mantém-se esse clássico perene que é o Laboratolarilolela).



... aqui fica o título de uma notícia do Público, hoje, sobre a excelente série Mad Men - vitoriosa nos Emmys, com baixíssimas audiências na TV (até mesmo para um canal de cabo, como o AMC).

 

 

(E não, isto não é nenhuma comparação, que eu não sou maluco! É só uma reflexão.)





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PRIMO - Sábado às 12 e Domingo às 23h00
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