A redescoberta daquela velha edição d' O Homem Que Mordeu o Cão, aqui em baixo, despertou a nostalgia em variados ouvintes da dita rubrica e também no próprio autor, devo dizê-lo. Assim, depois de mais um alucinante brainstorm por paragens do Twitter, decidiu inaugurar-se aquilo que é um primeiro esforço para criar um repositório do variado material d' O Homem Que Mordeu o Cão que ouvintes ainda hoje mantêm guardado (porque eu, vergonhosamente, tenho muito pouca coisa!). O primeiro Cãomitério da História está a funcionar no Facebook, neste link, aberto pelo @albanoalfredo e com uma ilustração feita pelo @niebes, aguardando que quem tenha ficheiros audio dos tempos do Cão (na Comercial, na Best Rock, na TVI ou mesmo em fotografias ou videos amadores gravados nas nossas digressões pelos teatros) os partilhe com a comunidade, criando assim uma desorganizada mas viva colecção de relíquias da rubrica. Obrigado à comunidade twitteira pelo impulso e por mais uma união de esforços na criação de algo que pode ser bastante divertido. E agradeço também, decerto, pelos restantes protagonistas associados à História do Cão: Pedro Ribeiro, Maria de Vasconcelos, Ana Lamy, José Carlos Malato, Patrícia Pereira e Bruno Santos. Não esquecendo a interminável lista dos outros, não tão protagonistas, mas que foram parte da gigantesca maquineta que existiu entre 1997 e 2003.
Alguém pôs esta edição d' O Homem Que Mordeu o Cão no You Tube, e deu-me gozo voltar a ouvir porque é uma das minhas favoritas, de todas as 281380123820983021830218329 que fizemos. Ignorem é a fotografia que puseram a ilustrar isto e onde eu pareço uma toupeira gorda. Hoje, como é sabido, pareço uma toupeira menos gorda.
Convosco, senhoras e senhores, a pornografia dos pobres - cortesia da PT:

A revista Empire deste mês conseguiu pôr-me a salivar, ao anunciar o regresso não só daquele que é, possivelmente, o melhor escritor britânico de sitcoms, Armando Iannucci, como também daquela que é a sua maior obra-prima, a série de sátira política The Thick of It (se ainda não a viram / não a têm, não hesitem e comprem à confiança, porque é essencial). A série foi abruptamente suspensa após a detenção de um dos seus actores principais, Chris Langham, por posse de pornografia infantil no seu computador. Langham esteve preso 10 meses, sempre sustentando a sua defesa num misto entre a pouco convincente desculpa de que estava a fazer pesquisa para um papel e a chocante revelação de que fora abusado sexualmente em criança (narrada de forma perturbante numa entrevista recente que deu após a sua libertação ao programa Shrink Rap). Seja como for, o caso destruiu a carreira de Langham no auge (a personagem Hugh Abbott, em The Thick of It é a melhor de sempre de uma carreira longa que incluiu trabalho no Muppet Show) e obrigou Armando Iannucci a cancelar a segunda temporada da série.
Agora, sem Chris Langham mas mantendo alguns essenciais do elenco (nomeadamente o genial Peter Capaldi, retomando a personagem do spin doctor político Malcolm Tucker) e juntando-lhes um peso pesado de Hollywood (James Gandolfini, o imortal Tony Soprano!), Iannucci retoma a série em formato longa-metragem, com aquele que, para mim, passou a ser o filme mais histericamente aguardado do ano, In the Loop. E, alegria das alegrias, a ver pelo trailer, Iannucci mantém intacto o estilo ácido e vertiginoso da série...
Talvez a presença de Gandolfini assegure a estreia de In The Loop nos cinemas portugueses (embora duvide, já que The Thick of It nunca passou cá). Façamos todas as figas. E mais algumas.
E sim, comprem The Thick of It, que ainda por cima está uma bagatela na Amazon inglesa!
Não podiam ser dois espécimes mais diferentes de cinema - e daí talvez não. Ambos lidam com uma das linhas narrativas mais antigas da História: o rabugento de mal com a vida (a la Scrooge) que acaba por descobrir a bondade no seu coração e redimir-se. Gran Torino, em exibição nos cinemas, fá-lo via um drama deliciosamente realizado à maneira clássica pelo grande Clint Eastwood; Ghost Town, já em DVD em edição estrangeira e sem estreia prevista para Portugal, fá-lo via uma comédia sobrenatural popular assinada pelo mais activo argumentista de Hollywood, David Koepp, marcando a estreia cinematográfica num papel principal do grande Ricky Gervais. Parece-me que nenhum dos dois filmes se aguentaria heroicamente de pé, não fosse a presença marcante dos seus actores principais. Num dos casos - Gran Torino - ela consegue ter força suficiente para que o filme ganhe até uma ressonância mítica e nos comova genuinamente. No outro - Ghost Town - assegura que o filme parece infinitamente melhor e mais divertido do que, na realidade, é!
Começando por Gran Torino: a despedida de Eastwood (como actor, uma vez que como realizador ele promete continuar a trabalhar) seria um banalíssimo filme de redenção, não fosse o velho guerreiro ter-lhe deitado as mãos. É como se o bom velho Clint, homem do jazz, pegasse numa normal canção pop e lhe espremesse o sumo, numa variação daquelas capaz de provar que uma cantiga de Britney Spears, quando reinterpretada de outra maneira, encerra doses surpreendentes de alma e sinceridade. Aplicado ao cinema, e mais precisamente ao que se passa em Gran Torino, o que Eastwood faz é reinterpretar aquilo que seria, com um artista menor no papel principal, uma história ultra-banal, num poderoso último acto de uma carreira lendária. Naquela personagem do veterano Walt Kowalski, vemos toda a História de Clint Eastwood - vemos Dirty Harry, vemos o cowboy justiceiro sem nome e de poucas falas, vemos o humanista sensível em que, a dada altura, ele se reinventou. E vemo-lo dizer adeus, acertar contas com a vida e arrepiar o espectador mais empedernido. Não é qualquer um que consegue transformar um argumento tão banal e previsível como o de Nick Schenck num filme com a força que Gran Torino acaba por ter, e eis como se consegue fazer um rato parir uma montanha.
Ghost Town tem pretensões mais modestas: é uma normal comédia romântica com fantasmas (a 1251562ª, creio) e não traz rigorosamente nada de novo a um estilo mais que batido. Isso poderia constituir uma fortíssima desilusão, se pensarmos que é David Koepp quem está por trás de tal empreendimento. É certo que o homem que mais escreve blockbusters em Hollywood nem sempre escreve grandes coisas, mas na sua mais intimista carreira como realizador costuma fazer coisas brilhantes - The Trigger Effect, Stir of Echoes - ou, pelo menos, razoavelmente interessantes - Secret Window. Ghost Town seria um filme vergonhosamente chocho, não fosse a presença avassaladora de Ricky Gervais no papel principal.
Reza a lenda que Koepp deu toda a liberdade a Gervais para reescrever as suas deixas e inventar gags, e Gervais cumpre com todo o brilhantismo. Ele arranca gargalhadas - muitas - a quem vir Ghost Town, mas, curiosamente, isso só contribui para aumentar o efeito amargo da coisa: Gervais atravessa o filme dando o seu melhor, como se estivesse num projecto pessoal seu para a BBC ou a HBO; o filme que lhe puseram à volta é, da realização à banda sonora, manso e banal como não esperaríamos que o David Koepp-realizador fizesse. E, no entanto, Ghost Town torna-se peça essencial na colecção de qualquer Gervais-ófilo: basta citar o momento em que, à saída de um hospital, uma enfermeira lhe diz, simpaticamente, em jeito de despedida, "come back soon", e a personagem de Gervais responde, com tremenda consternação: "What a terrible thing to say in a hospital". O timing dele é ouro puro em todos os momentos de Ghost Town, e há grandes momentos de química cómica com o restante elenco (sobretudo com Greg Kinnear) que parece estimulado pela interacção com o britcómico. No fim, a sensação é estranha: sentimos que nos rimos bastante, mas que falta qualquer coisa (e não é coisa pequena) para gostarmos verdadeiramente de Ghost Town.
Vale a pena ver os dois? Pois vale.
Como todos os grandes roqueiros progressivos dos 70s, também os Jethro Tull tiveram tendência a apopalhar-se nos 80s. Não de forma tão grave como os Genesis, mas com as suas peculiaridades. Eu aprecio deveras algum rock progressivo (tendo a pender para os Yes e para os Genesis até à saída do Peter Gabriel), mas os Jethro Tull têm algo que, lamento imenso, me afasta e, inclusivamente, me embaraça um pouco: o pífaro. O sacana do pífaro. Ou da flauta. Não sei exactamente qual a diferença entre um e outro, precisamente porque tenho tendência a fugir de composições que dependam em demasia dos referidos instrumentos.
Há instrumentos que deviam ser proibidos em certas ocasiões. O saxofone deve ser usado com moderação, penso eu; mas o pífaro mais ainda. Sobretudo se o pífaro for utilizado por um indivíduo vestido como um professor de História do ensino secundário. Assim está Ian Anderson num vídeo ao vivo de Fly by Night, de 83, que, desde que me foi mostrado pelo meu bom amigo e colega contemporâneo Eduardo Madeira, depressa se tornou num objecto de culto e constante análise entre nós. Também o Eduardo fica fascinado e simultaneamente repelido por tudo quanto está de deliciosamente errado nestas imagens, desde a maneira como Ian Anderson está vestido para um concerto rock até ao modo sinistro como exclama "let's fly by night" com o olhar desvairado, passando, claro, pelo pífaro. Ou pela flauta.No entanto, é impossível não ficar contagiado pelo empenho dele nesta performance. Piripipi!...
O dia 27 de Março de 2009 fica na História: depois de dias em que os meus stalkers de eleição (possivelmente só um stalker, na verdade) criaram duas contas no Twitter em meu nome, usando a minha imagem e perfil e usando-as para insultar meio mundo fazendo-se passar por mim (em alguns twits de forma inquietantemente realista, o que torna a coisa ainda mais psicótica), aqueles que me acompanham no Twitter uniram esforços e denunciaram massivamente os clones ao departamento de spam do Twitter, numa operação intensiva e alucinante de cerca de hora e meia que levou à suspensão das contas dos impostores. Quem for aos antigos Twitters dos fake-Markls encontra agora isto:
Foi uma incrível, arrebatadora prova de amizade da vossa parte e esbate o que é, afinal o conceito de "ser fã". É que, mais do que nunca, e por muito fãs que sejam do meu trabalho, eu sinto-me mais fã vosso do que nunca. E é por isso que, a partir de agora, farei o follow de todos os meus followers no Twitter. É o mínimo, depois de uma demonstração destas! Como são 7000 e tal, ando em busca de uma maneira de fazer um follow geral; não havendo, terei de o fazer à pata. Mas depois do que fizeram hoje, seria merecido não só que eu fizesse o follow de toda a gente à pata, mas fazendo o pino em simultâneo. Com ou sem pino, à pata ou automaticamente, vou tratar do assunto.
E, entretanto, um avassalador obrigado.
O ataque dos clones @havidaenmarkl e @havidaemarkl no Twitter (o genuíno e autêntico Markl continua a ser este) continua, e cada vez me está a dar mais gozo. O 24 Horas escreveu-me há pouco, querendo fazer a cobertura da batalha e, como já aqui disse, segunda-feira inicio as hostilidades legais, que até podem ser lentas e dispendiosas, mas é um luxo que apetece ter.
Para já, o desafio que faço a quem me segue no Twitter é denunciar maciçamente os meus adorados e obsessivos stalkers como spam, o que obrigará ao fecho das suas contas. Assim sendo, para quem tem conta no Twitter, o meu desafio é que o façam. É simples: basta enviarem um twit para @spam com o nome dos impostores. Em duas mensagens separadas, e até podem fazer o copy-paste daqui:
@spam @havidaenmarkl
@spam @havidaemarkl
Agradeço a todos os que ajudarem nesta guerrinha gira.
... E fico ansiosamente à espera do próximo passo do meu psicopata pessoal!
Como seria de esperar, assim que fechei os comentários aqui do estaminé (porque a coisa começou a atingir píncaros alarmantes de demência, com mensagens anónimas sinistras insultando a minha namorada e desejando a morte do meu filho) e assim que remeti os utilizadores deste espaço para o Twitter, como forma de comentar o que aqui se escreve e interagir comigo, os meus stalkers de estimação ficaram temporariamente confusos - insultar não é tão fácil no Twitter. Mas, gente cheia de recursos que são (excepto para fazer algo de útil com as suas miseráveis vidas), logo descobriram um passatempo dourado: criar clones meus, o mais parecidos possível com a minha conta original do Twitter. Sendo a minha conta @havidaemmarkl, não tardou a surgir um @havidaemarkl (só com um "m") e um @havidaenmarkl (com "n"). Usaram o meu wallpaper, a minha foto, o meu perfil e o meu nome e desataram a insultar quem podiam na minha lista de "seguidos", desde os meus amigos Bruno Nogueira e David Fonseca até alguns ídolos cujos twits eu sigo, como Stephen Fry, John Cleese, Larry David, etc.
Uma das vantagens desta clonagem foi ver um dos meus pedidos de desculpa pelos abusos de um clone ser respondido simpaticamente pelo Paul Feig, criador da série Freaks and Geeks e um dos realizadores de The Office e Arrested Development, que me mandou uma mensagem privada agradecendo a atenção de o avisar que o @havidaemarkl (só com um "m") que o insultara vigorosamente era apenas um clone embirrante. Só por me permitir interagir com o Paul Feig já valeu a pena esta acção terrorista. Mas agora vamos lá brincar mais a sério.
E brincar mais a sério consiste no seguinte: se é verdade que legalmente é terreno pantanoso tentar caçar um anónimo que manda umas bocas na zona de comentários de um blog, mover todos os recursos possíveis para apanhar um tipo que se faz passar por nós (seja onde for, mas neste caso na Internet) usando abusivamente não só o nosso nome, mas a nossa fotografia constitui crime - o que significa que o(s) meu(s) stalker(s), com esta brincadeira do Twitter, acabam de me dar um pretexto, de mão beijada, para fazer aquilo que pretendo fazer já na próxima semana, regressado de férias - usar a lei para os apanhar, levar a tribunal e penalizá-los por um procedimento que pode ser muito divertido, mas que, lamento imenso, não pode ficar impune.
E não ficará, que agora estamos no ponto sem regresso. Que é como quem diz: mesmo que agora apaguem as suas contas (não creio, porque me parece que vão pensar que isto são ameaças vãs e que não vou mesmo persegui-los, o que ainda me sabe melhor), o rasto que deixaram na net está registado, e independentemente do que façam a partir deste momento, we're gonna get you!
Ou seja, parece-me que vêm aí tempos divertidos e inspiradores!
Nada como umas férias em Espanha para descobrir uma quantidade imensa de coisas que, vergonhosamente - tendo em conta que vivemos ao lado - andamos a perder... Urge que uma editora portuguesa lance em Portugal os livros de Miguel Brieva. Podemos chamar-lhe cartoonista, mas parece-me que, neste caso, isso é capaz de ser um bocadinho para o redutor. Este sevilhano de 35 anos, com obra editada em diversos jornais e revistas e - pelo menos - dois livros que descobri ontem numa livraria aqui do sítio, é não só um ilustrador notável, como põe o seu traço falsamente clássico e limpo (lembrando a obra do grande Daniel Clowes) ao serviço de um humor aguçado, de observação dos tiques humanos, da sociedade, da política, que lembra o Matt Groening de Life in Hell. Comprei Enciclopedia Universal Clismón - Bienvenido al Mundo, uma "enciclopédia" armadilhada, onde Brieva expõe a sua visão sobre quase tudo (e, como se espera, organizada alfabeticamente) e também Dinero, um volume que reúne todas as edições de uma revista totalmente escrita e ilustrada pelo artista, mandando certeiras traulitadas na sociedade de consumo e em tudo o que a rodeia. É hilariante, poético e merece ser descoberto com urgência. É das coisas mais brilhantes e divertidas que li nos últimos tempos.
Encomendem os dois livros de Brieva aqui e aqui.
Los Abrazos Rotos, de Pedro Almodovar, é um espanto. Toda a cinefilia do autor está nestas duas horas em que o Cinema é usado como sustento do amor entre um realizador e uma actriz e como arma de vingança e destruição desse mesmo amor, por um produtor ciumento; em que um artista, cego pelo desgosto (e por um brutal acidente de carro) se transforma no seu heterónimo; e em que o Almodovar moderno - o dos melodramas tocantes e apaixonados, mas sóbrios - se cruza com o Almodovar antigo - o das comédias coloridas desbragadas. No seu todo, pode não ser um filme tão arrebatador como Tudo Sobre a Minha Mãe, Fala com Ela ou Volver, mas é um dos mais originais do realizador e uma vez mais consagra-o como um dos mais criativos contadores de histórias do cinema moderno. Porque há muitas histórias dentro de Los Abrazos Rotos, e outro realizador / argumentista, era homem para as poupar em vez de as colocar todas no mesmo filme (uma dessas histórias, uma comédia sobre vampiros, Almodovar podia dá-la a Alex de la Iglesia para a realizar!).
Em suma, eu cá achei-o um grande filme, repleto de pormenores notáveis e piscadelas de olho cinéfilas que vão de Hitchcock ao Almodovar de Que Fiz Eu Para Merecer Isto. É bom rever algumas das divertidas musas clássicas do realizador, como Rossy de Palma ou Chus Lampreave, em pequenos cameos, mas, acima de tudo, é bom ver Penelope Cruz entregar-se daquela maneira a mais uma personagem que só Almodovar lhe poderia ter escrito.
Parece que só estreia em Portugal em Setembro, vá-se lá saber porquê...