Graças a um espantoso trabalho dos meus caros colegas actores, o sketch que eu e o Francisco Martiniano Palma escrevemos sobre o dia em que uma jovem apresenta o namorado famoso (que daí a pouco se percebe ser o Cristo-Rei) aos pais, ficou tal e qual eu o tinha imaginado quando o estávamos a escrever. No entanto, por questões de tempo e de produção, tivemos de cortar um epílogo que tínhamos imaginado - e onde tínhamos uma ideia da Susana Carvalho e do Daniel Leitão, dois autores júnior, descobertos numa das recentes workshops das Produções Fictícias e que tinham escrito uma rábula delirante em que amigos do Cristo-Rei lhe faziam uma festa-surpresa e lhe ofereciam uma camisola do Cristiano Ronaldo!

 

Pegando nessa ideia, fizemos um desfecho que continuava a situação mais embaraçosa, intimista e absolutamente absurda do namoro do Cristo-Rei, mas que obrigava - lá está - a fazer exteriores nocturnos e a complicar a produção, para além de esticar o sketch para dimensões épicas. Mas aqui vos deixo o que tínhamos magicado, porque nos parece que continua dentro do espírito do jantar.


O carro parado. CRISTO-REI tem um dos braços de fora e o outro por trás da namorada, a FILHA, que vai ao volante.

 

CRISTO-REI
Mas achas que correu bem ou quê?

 

FILHA
Correu. Eles adoraram-te, a sério.

 

CRISTO-REI
Não sei, fico sempre... Eu...

 

FILHA
Tenho uma prenda para ti.


CRISTO-REI
Uma prenda? A sério? Não era preciso...


A FILHA saca de uma camisola do Cristiano Ronaldo, com “CR-7” escrito.


CRISTO-REI
Uau! Uma camisola do Cristiano Ronaldo!


FILHA
Não. Uma camisola do...
(apontando para as iniciais “CR”)
Cristo... Rei...


CRISTO-REI
És querida. És muito querida.


FILHA
E 7 foi o dia em que te declaraste a mim.


CRISTO-REI
É verdade, 7 de Abril. Está giro, está giro.
(pausa)
Sónia... Eu não sei se isto vai resultar.


Ela fica em choque a olhar para ele.


FILHA
Des... Desculpa?


CRISTO-REI
Não és tu. Sou eu. É complicado. Mas... eu acho que...


Corta para:
Exterior, CRISTO-REI fora do carro numa estrada descampada. O carro da FILHA parte a grande velocidade.


CRISTO-REI
Bonito. Agora como é que eu vou daqui para Almada?


O CRISTO-REI suspira fundo e aproveita a posição dos braços para pedir boleia. Passam carros mas ninguém o apanha.


CRISTO-REI
Pois, é o paras... A esta hora...



 

Nos cinemas: Zack e Miri Fazem um Porno. Na minha modesta opinião, creio que o outrora certeiro cronista da juventude dos '90s, Kevin Smith, não faz um filme inteiramente decente desde Dogma (que era bom, mas não tão bom como os anteriores). Por isso é que, à primeira vista, Zack e Miri Fazem um Porno parece bem melhor do que realmente é, criando a ilusão de que tirou a barriga do fã de Smith de misérias quando, na verdade, é um snack light. E sim, anuncia-se como uma comédia sobre pornografia e traz a fama de ser um dos filmes mais recheados de palavrões da História (em 90 minutos, a palavra "fuck" é disparada 229 vezes). Mas é, na sua essência, uma comédia romântica - e o ângulo porno acaba por ficar aquém do delírio prometido. O que não significa que Zack and Miri Make a Porno não seja, afinal de contas, o melhor Kevin Smith em anos: há química entre as personagens, há calor humano, há o sempre divertido e infalível Seth Rogen - o mais bonacheirão e amigável leading man da comédia americana moderna - há o dom natural do realizador e argumentista de Clerks para capturar o espírito dos trintões americanos desencantados, desiludidos e falidos. E há belíssimos e originais momentos de comédia romântica - por exemplo, quando Zack e Miri, amigalhaços de sempre, têm, por fim, de levar a cabo a sua cena de sexo no filme porno que, supostamente, os vai salvar da falência e permitir pagar as contas: começa hilariante e acaba de forma quase comovente. Infelizmente, há também o outro lado de Smith: o do tipo demasiado fascinado com uma piada sobre caca que não sabe onde parar. Seja como for, não é um mau filme e diverte de forma despretensiosa. Ah, e tem uma bela banda sonora por onde passam Donald Fagen, os Pixies, Jesus and Mary Chain e outros mimos.

 

 

Em DVD: Vizinho Suspeito. O realizador, argumentista e dramaturgo Neil LaBute, tal como Zack e Miri, anda a precisar de pagar umas contas depois da hecatombe do seu projecto anterior - o muito gozado e arrasado remake de The Wicker Man, com Nicolas Cage. LaBute, no entanto, não se virou para a pornografia, optando em vez disso por aceitar uma encomenda de Will Smith (sim - Will Smith a contratar Neil LaBute: o mundo anda esquisito!), que, na qualidade de produtor, detinha os direitos de um thriller do argumentista de Star Trek V e Money Train, referências que não podem andar mais longe do universo do realizador de In The Company of Men, Your Friends and Neighbours ou A Forma das Coisas. O que é certo é que LaBute se atira ao que podia ser um banalíssimo thriller sobre casal-jovem-com-a-vida-invadida-por-psicopata num filme tenso e altamente provocador sobre preconceitos e raça, usando os terríveis incêndios que assolaram a Califórnia há uns anos não só como pano de fundo e enquadramento histórico, mas como metáfora e símbolo da tensão crescente que atravessa o filme de uma ponta à outra. Não é uma obra-prima e, dentro da obra do brilhante LaBute, é, claramente, um "filme para pagar contas". Mas está feito com uma inteligência e uma garra que, se é verdade que não o põem ao nível de Martin Scorsese com Cape Fear (outro filme feito por um grande realizador por encomenda, mas que Scorsese transformou numa obra-prima muito sua), pelo menos elevam Lakeview Terrace a um patamar bastante acima da média para este tipo de thriller, conseguindo ser melhor que exemplares do género como Unlawful Entry, com Ray Liotta, ou Pacific Heights, com Michael Keaton (curiosamente, a história de Vizinho Suspeito quase parece inspirada pela fusão destes dois filmes!). Samuel L. Jackson está perfeito, entre o ameaçador e o vulnerável, na pele do vizinho sinistro, um polícia negro, viúvo, que não vê com bons olhos a chegada ao seu bairro de um casal misto (Patrick Wilson e Kerry Washington) e que decide não se ficar por mandar bocas, mas... agir.



Estou a ficar agarrado a The Wire. A série de David Simon, programa de televisão favorito de Barack Obama e mais um monumento da HBO que há quem considere a melhor série televisiva americana de sempre (há até quem jure a pés juntos que é melhor que Os Sopranos, embora, para mim, nada me pareça melhor que Os Sopranos!), pede mais paciência e dedicação ao espectador do que outras produções: arde em fogo lento, move-se sem pressas, propõe-se fazer ao longo de uma temporada inteira o que outras séries fazem semanalmente em 40 minutos. Uma das ousadias de The Wire é, por exemplo, abrir com um episódio-piloto que apresenta personagens e pouco mais faz para cativar o espectador. Há polícias e criminosos, há áreas cinzentas com fartura de um lado e do outro, há incompetência profissional como raras vezes uma série policial mostrou, não há tiros, perseguições, resoluções. Pelo contrário: há moleza, frustração, confusão, enganos, progressões que não o são, regressos à estaca zero.

 

Como é que David Simon consegue tornar tão interessante e viciante uma série policial que troca o glamour habitual pelo retrato realista, feio, porco e mau de uma investigação na vida real - eis a prova do brilhantismo de The Wire, série que se estranha e que se vai entranhando a cada minuto.

 

No quarto episódio da primeira série (sim, ainda só vou aqui!), um momento sublime: McNulty e Bunk, polícias, investigam uma cena de crime, tentando perceber como é que uma bala entrou na vítima por onde entrou e saiu por onde saiu. McNulty é interpretado por Dominic West que, apesar de ser britânico, ninguém diria perante o seu impecabilíssimo trabalho em The Wire, que não nasceu em Baltimore; Bunk é interpretado por Wendell Pierce. A cena ficou célebre pela fusão impressionante entre realização, montagem, trabalho dos actores e o texto do guião. Que, durante alguns minutos, consiste simplesmente na palavra "fuck" e suas variantes. E assim se diz tanto com quase nada. E assim se fica cliente de The Wire!

 

 



Se é um triste facto que questões de direitos de autor sobre as músicas da série tornam muito complicada a edição de Paraíso Filmes em DVD (se bem que há umas novidades simpáticas sobre a Paraíso Filmes, para breve), é por outro lado muito animador saber que o primeiro programa de sketches onde trabalhei como argumentista, Herman Enciclopédia, está prestes a sair em DVD... e numa edição toda pipi. Olhem-me só para aquela capa! Fica um luxo em qualquer prateleira. O volume 1, com a primeira temporada, sai no dia 25 de Junho, cortesia desses verdadeiros curadores de glórias televisivas de outras eras da TV nacional, os compinchas da Castello Lopes Multimédia.

 



Abriu o episódio da semana passada d'Os Contemporâneos e parece-me que ficou uma prova salutar de que se pode gozar - e muito - com as tais coisas sérias. Saudações ao António Feio por ter transformado uma doença em material de comédia - parece-me que é coisa para fazer melhor à saúde do que comprimidos!

 

 

Para verem todo o episódio - o 4ª da 3ª temporada - é favor visitarem o sítio do costume.



No Público de ontem, um texto do Eduardo Cintra Torres, possivelmente o crítico de televisão mais severo e impiedioso da imprensa nacional (aliás, pela foto que acompanha a sua secção, é fácil constatar que não é fácil fazer rir o ECT!). Cliquem na imagem para aceder a uma versão em tamanho mais jeitoso e legível.

 

 

E saiu também, na sexta-feira, na revista de televisão do Diário de Notícias um texto do João Lopes que depois foi publicado no blog que ele assina com o Nuno Galopim, Sound and Vision.

 

 

Podem ler o texto do João Lopes aqui.

 

Logo à noite há novo episódio (parece que pelas 22h30, embora seja de ir ficando atento a partir das 22h15, pelo sim pelo não) e o número de abertura - estou à vontade para o dizer porque não o escrevi nem participo nele - é um espantoso e único momento de comédia de embaraço que continua o sketch da passada semana sobre os Globos de Ouro. Brilhantes performances dos meus caros Bruno Nogueira, Nuno Lopes, Eduardo Madeira e de uma very special guest star. E sim, falamos do tipo de coisa que me faz ter um gigantesco orgulho de trabalhar com estes indivíduos e neste programa.

 

Para quem não viu a semana passada e quer apanhar o enredo, aqui fica o sketch da semana passada que começou a mini-saga dos Globos de Ouro:

 

 

Daí a pouco, na mesma noite, na SIC, acontecia isto:

 

 

E esta noite, de volta aos Contemporâneos... a saga continua!



 

Numa nítida tentativa de conseguir extraordinárias audiências para o seu projecto de internet, Saloia TV, o bonacheirão mas algo amargo Guilherme Leite - com quem tive uma ácida mas divertida polémica pública há uns dois anos - lá dedica uma parte dos primeiros passos do seu canal internético à minha pessoa, certamente esperando por uma referência aqui no estaminé. Das duas uma: ou eu ignorava o ataque, gorando assim os planos do antigo Maluco do Riso em conseguir um potencial impulso de visualizações à minha conta, ou o referenciava aqui, conduzindo os meus caros e curiosos leitores aos domínios humorísticos de Leite no ciberespaço. Feitas as contas, decidi ser benemérito e por isso aqui fica o link para a Saloia TV e para o primeiro episódio do projecto, onde tenho honras de ser um dos primeiros alfinetados pela aguçada sátira da Cabecinha Pensadora favorita de Portugal!

 

Quero aqui dizer que me orgulho de ter, na pessoa de Guilherme Leite, o meu Sideshow Bob pessoal!

 

 

Guilherme, escute: não sei exactamente o que quer dizer com aquela história de que eu apareço em todo o lado onde estejam a gravar, dado que apareço - e nem sequer é todas as semanas - num único programa da RTP chamado Os Contemporâneos do qual sou um dos autores e elementos do elenco. De resto sou muito recatado e garanto-lhe que se apareço em mais algum lado é porque as câmaras vêm ter comigo, dado que prefiro estar sossegado a escrever e a amar. Devo dizer que, recentemente, conheci um notável amigo seu que me garantiu não só que o caro Guilherme é, na verdade, um bom homem, como sugeriu ainda assumir o papel de Koffi Annan numa eventual cimeira de reconciliação sob a forma de uma patuscada alimentar. Por mim, teria todo o gosto - mas se for o Guilherme a fazer o almoço, permita-me apenas que leve um provador oficial para experimentar os víveres antes de eu os ingerir, seu maroto!



Talvez as minhas expectativas fossem elevadas. Esperava que a cola do Che soubesse a sangue, a suor, a selva, a charutos, a pólvora, a independência ou morte. Eu deveria ter reparado na mensagem que surge no rótulo e que, convenhamos, não é digna da bebida de um revolucionário:

 

 

Ficou um bocado para o desfocado mas eu leio. Diz ali "french brand - cola with spring water". "Spring water"? Aguinha de nascente? A água da cola do Che devia ser aguardente e da mais poderosa! E "french brand"? Uma marca francesa? A França, que nos deu as baguettes, os acordeões e a expressão "oh-la-la"? Definitivamente, não era disto que eu estava à espera da Cola do Che Guevara. Parece-me mais a Cola de Chez Guevara. Um produto para flores de estufa, não para guerrilheiros másculos escondidos pelas selvas da vida. As colas imperialistas americanas pelo menos são feitas com águas carregadas de produtos capazes de calcinar um intestino. O que vem a ser esta delicadeza?

 

Lá provei. Depois de um ligeiro choque inicial - o aroma que emana de dentro da garrafa é o mesmo de uma casa acabada de pintar - constata-se que, fresquinha, a Che Cola sabe bem. Sabe é a pouco. Eles gabam-se disso, na garrafa: diz que é feita com muito menos açúcar. Mais um bocadinho e tínhamos uma cola que é saudável! Foi para isto que Che morreu? Não. A cola do Che devia explodir na boca do consumidor e devia catapultá-lo para a experiência revolucionária. Ao invés, transporta-o para a sala feng shui das colas.

 

Mas pronto: ganha pontos porque introduz o grande Che no frigorífico de uma pessoa, e isso tem pinta. Não a dêem a beber aos vossos amigos, mas tenham-na em casa! Durante um jantar, peçam a amigos vossos de direita que vão buscar algo ao frigorífico, só para os verem irritados! É divertido!

 

Agora aguardo, expectante, o Leninaranjus.



Para ilustrar a entrevista que vai sair na revista Única do próximo Expresso, no sábado, os jornalistas Mafalda Anjos e Bernardo Mendonça propuseram-me uma verdadeira odisseia: encarnar três personagens preferidas do cinema e da TV. Ficou decidido que os ditos cromos seriam Eduardo Mãos-de-Tesoura, a criatura que me fez, definitivamente, eleger Tim Burton como um dos meus realizadores de culto; Indiana Jones, herói dos bons velhos tempos, cujos três primeiros filmes me acompanharam pela adolescência fora; e, para marcar as novas tendências televisivas de que sou fã, a personagem de Dexter (quem acompanha o Twitter é capaz de se lembrar do teaser que fiz sobre isso na altura, quando disse que estava numa sessão fotográfica num cenário digno de ser uma casa de um serial killer). Num dos teasers que deixa pela net, o Expresso mostra agora um pequeno making of do que foi essa saga de várias horas, boa parte delas passadas sentado numa cadeira a ser coberto de camadas de maquilhagem - sobretudo para o Mãos-de-Tesoura.

 

 

Ficou um trabalho assustadoramente próximo do real, graças ao genial trabalho do Sérgio Alxeredo (o responsável pela maquilhagem d'Os Contemporâneos) e da Miss Suzie (cujas produções de moda fazem furor, bem como o seu trabalho com os Irmãos Catita). As fotos saem no sábado, na Única, juntamente com uma grande e detalhada entrevista. Para já, aqui fica o teaser de uma das coisas mais incríveis para que me convidaram desde sempre... Sim, tenho a sensação que passados dois dias ainda estava a tirar pedaços de maquilhagem da cara, mas valeu a pena.


Podem ver o video e ler alguma informação aqui...

 

(O Dexter vão ter de esperar por sábado para ver.)



Hoje, passeando-me pelos corredores de um hipermercado local, deparei-me com esta interessante descoberta:

 

 

É fascinante, porque mostra que as técnicas outrora usadas apenas nos estaminés de roupa de feiras lendárias como a da Praça de Espanha, estão implantadas na indústria dos refrigerantes. Ao ver o Trebol ao pé do Sumol, recordei marcas clássicas de roupas e sapatos tais como Linform, Luis, Niki, Adidus, Le Cock Sportuf. Mas na mesma secção deste inovador supermercado, outro refrigerante chamou a minha atenção. E esse - esse tive de o comprar.

 

 

Possivelmente o produto mais bizarro das prateleiras deste supermercado, El Che Cola assume-se como a resposta esquerdista, revolucionária, à imperialista Coca-Cola. Em várias línguas, a frase "muda os teus hábitos" dá a volta à garrafa, devidamente ornamentada pela clássica efígie de Ernesto "Che" Guevara, num produto que é impossível destrinçar se tenta prestar sincera homenagem ao revolucionário cubano ou aproveitar a boleia da estreia do filme de Steven Soderbergh com Benicio del Toro para realizar algum dinheiro ao inventor da ideia. O que é certo é que na garrafa se pode ler que 50% dos lucros da venda da cola de Che vão para "organizações não-governamentais". Como não especifica quais, fica-se com a pulga atrás da orelha. Mas não interessa: não é todos os dias que se traz um refrigerante político das prateleiras de um supermercado perdido aqui para os lados da Parede.

 

Só não vos faço desde já um relatório crítico à bebida em si, porque só há minutos a pus no frigorífico e eu não bebo colas sem estarem frescas. Mas amanhã provarei a revolução!





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