O Sharik, 4 ou 5 anos de idade, é meu cão desde 2006 e é um adorável trapalhão, Serra de Aires puro - dizem os especialistas - que tem aparecido vezes sem conta aqui no estaminé, tem ladrado na telefonia e, à conta das peripécias em que já se envolveu (desde entrar numa rábula para a SIC Comédia até receber uma ameaça de morte de um vizinho sinistro, em Benfica) conquistou um estatuto mítico invejável. É também um cão que requer um nível de atenção que está a ser difícil dar desde que o bebé nasceu, e ele ressente-se muito disso. De há um mês a esta parte esteve a ter aulas de educação no excelente Centro Canino Alfa Dog (era um vira-latas impossível de sociabilizar com outros cães, num passeio pela rua, o que era uma torrencial fonte de stress) e agora está um lorde de bom comportamento, quase digno de figurar em festivais caninos. Só que, terminado que está o treino com os profissionais, ele precisa que os donos prossigam esse estímulo, diariamente - ele requer grandes passeios, treino diário e doses generosas de atenção que, nesta fase, e de forma realista, nem eu nem a Ana lhe conseguimos dar, entre esse sorvedouro de cuidados que é o petiz Pedro e os nossos respectivos empregos. O Sharik não é um rafeiro despachado e auto-suficiente, nem um golden bonacheirão que está bem onde os donos estiverem. Ele é fanático por brincadeira e precisa de correr, treinar e não ficar confinado a um pátio um dia inteiro.

 

Com muita pena nossa, vemo-nos, para bem do Sharik, a colocar a hipótese de lhe encontrar um dono novo - mas não é um dono qualquer. Procuramos quem goste dele a sério, quem lhe assegure os passeios diários e os estímulos de que ele precisa e queremos manter-nos em contacto... Eu faço questão de continuar a contribuir com coisas como a alimentação e os cuidados de saúde - só preciso é de uma alma que esteja disposta a acolher o Sharik e a dar-lhe a injecção diária de felicidade que, neste momento, nos é impossível de assegurar.

 

Lanço o apelo: alguém desse lado está disposto a abraçar esta causa? Alguém conhece quem esteja? Alguém conhece alguém que conheça quem esteja? Respostas no meu Twitter, por favor... Nunca recorreria a esta medida se não fosse mesmo necessário e, como disse, quero continuar a acompanhar o Sharik e a contribuir para o bem estar dele. Terei gigantescas saudades, mas sinto que ele será muito mais feliz com quem tenha o tempo que ele merece.



... e a MRW, simpaticamente, contactou-me para que tudo se resolvesse. Ainda não tive tempo de lhes ligar de volta porque estou a fazer um tremendo malabarismo, hoje, entre bebé e trabalho, mas troquei umas SMS com a responsável do controlo de qualidade da empresa, que me assegurou que vale a pena continuar a encomendar coisas na Amazon. Eu não sei - mas agora não é por causa da MRW. É que, entretanto, os meus caros followers do Twitter foram-me enviando alguns apetecíveis links de lojas britânicas online bastante mais baratas que o titã amazónico.

 

Seja como for, obrigado à MRW pelo rápido feedback. Sim, fui duro com eles no post aqui de baixo, mas era impossível não ser: depois de anos e anos sem problemas com a Amazon, assim que a empresa de entregas entra em campo acontece um gigantesco atraso destes? Uma pessoa não fica feliz, não senhor...



Comprar na Amazon, coisa que faço há anos e anos, sempre foi mais do que uma simples experiência consumista; era um culto, uma coisa com o seu quê de mágico. E era, acima de tudo, seguro, rápido, eficaz. Recordo com saudade o dia em que uma coisa que encomendei numa sexta-feira chegou na segunda-feira seguinte. Como é que a coisa se processou com o fim-de-semana pelo meio, não sei. Mas comprar na Amazon britânica sempre foi, para mim, a experiência mais próxima que um tipo tinha de comprar numa livraria qualquer da Oxford Street, em Londres. Só não tinha o cheiro a livros e a café de uma Borders, mas a rapidez de acesso a livros, filmes, séries impossíveis de encontrar nas lojas portuguesas fazia da Amazon o site mais visitado por mim desde que tenho Internet.

 

Agora, tudo se desmoronou! Numa das minhas recentes encomendas, constatei que o envio fora feito não via Royal Mail, como habitualmente, mas através de uma empresa de entregas chamada MRW. Pelo que percebi a empresa é espanhola e a Amazon UK assinou contrato com eles para que distribuissem as suas coisas pelas casas da Península Ibérica. Logo à primeira encomenda, sarilho: em vez dos normais dois ou três dias que um pacote da Amazon demora normalmente a chegar, desde que mudaram para a MRW estou há mais de 15 dias à espera de uma encomenda que não há meio de chegar.

 


Apresentei queixa à Amazon UK que, com a prontidão do costume, me respondeu - nesse aspecto continuam os maiores - agradecendo todo o feedback sobre o funcionamento das suas distribuidoras contratadas e que achavam estranho que a MRW ainda não tivesse entregue as coisas, mas que, de acordo com o serviço de tracking da empresa (que, curiosamente, e apesar de haver um botão para isso no site da Amazon, raramente funciona), a encomenda ainda se encontrava "em trânsito". 15 dias depois do envio! Pediram-me para esperar mais uns dias, a confirmar se chegava ou não; não chegou. Agora a Amazon prepara-se para, simpaticamente, me reenviar os items perdidos - só que vai, de novo, enviá-los pela MRW!

 

Não sei onde foram eles desencantar esta empresa, mas sei que com essa decisão perderam este cliente. A verdade é que há estaminés mais baratos (embora talvez com menos variedade) que a Amazon. Mas é triste que, por incompetência de outros, a Amazon tenha perdido um cliente e um fã de tão longa data. Pode ter sido um incidente isolado, mas este tipo de incidentes simplesmente não pode acontecer, isolado ou não... Sobretudo quando associado a uma empresa habitualmente tão infalível e com tão gigante reputação a manter como a Amazon. Por isso, pelo menos até eles desistirem da MRW, vou fazer as minhas compras para outras paragens.



 

Agora que comecei a ver os especiais de stand-up de Demetri Martin - If I e Person - e a série do Comedy Central, Important Things, devo dizer que estou, oficialmente, fã. Melhor: fanzaço. Ele é um comediante de observação tão minucioso, tão perfeito, tão hilariante e original (magnífico o quase poético uso de desenhos, gráficos, palavras escritas) que ontem tive vontade de comprar tudo o que o tipo fez, faz e virá a fazer. Para já, afiambrei-me ao CD These Are Jokes, à venda no iTunes por 10 euros e que é essencial a vários níveis. Primeiro porque, arrisco dizê-lo, é o primeiro CD da História da Comédia que é apresentado, na primeira faixa, pela avó do comediante; e depois porque, resumidamente, é brilhante. Exemplos:

 

 

E como estes, há mais. Como não adorar o comediante que inventou a piada "se um dia eu visse um amputado a ser enforcado, eu simplesmente começaria a gritar letras"?

 

Demetri Martin foi guionista de Conan O'Brien, participou num dos episódios da primeira temporada de Flight of the Conchords e agora, para além da sua carreira a solo, com o programa Important Things With Demetri Martin, é correspondente do Daily Show e estreia-se no cinema, dirigido por Ang Lee, com Taking Woodstock. É um génio, e isto não é um exagero. Só alguém com uma mente muito especial conseguiria escrever um poema que é um palíndromo - ou seja, a ordem inversa de todas as letras de  resulta rigorosamente igual à ordem normal.

 

 

Deliciem-se com a obra do tipo, aqui e aqui.



 

Synecdoche New York, que já cá canta há umas semanas valentes em blu-ray americano, é um filme que dá luta; melhor - é um filme que atira o espectador ao chão, dá-lhe uma carga de porrada e, sempre que ele se tenta levantar, dá-lhe mais. Felizmente, bate nos sítios certos, como uma dominatrix a sovar um masoquista, e, apesar de ser o filme americano mais complexo desde INLAND EMPIRE, de Lynch, é um prazer perdermo-nos no labirinto aparentemente interminável que Charlie Kaufman construiu com todo o amor e carinho. Este filme, sobre um dramaturgo que decide, assombrado pelo fantasma da sua morte aparentemente iminente, criar a obra que lhe assegurará a eternidade e tornará menor o inquietante facto de estar a ter sintomas do que parece ser uma doença grave, é uma mistura entre bonecas russas (quando achamos que já as vimos todas, eis que se abre mais uma, saindo de lá uma nova!) e um daqueles gigantescos puzzles de 5000 peças, do qual não temos a tampa para nos orientar sobre o que encaixa onde. É o argumento mais ambicioso de Kaufman, fazendo com que, no que toca a estrutura, Being John Malkovich, Adaptation, Eternal Sunshine of the Spotless Mind ou Human Nature pareçam comédias simples e lineares. E dá a Philip Seymour Hoffman mais um papelão que lhe assegura o estatuto de Melhor Actor Americano da Actualidade. Os trailers sugerem que o tom da obra é mais cómico do que, na realidade, Synecdoche é; se abrimos a boca durante as duas horas que o filme dura, não é tanto para soltar gargalhadas mas porque, frequentemente, o filme nos deixa boquiabertos. Sim, a ideia-base é que a personagem de Kaufman constrói uma réplica de Nova Iorque, à escala, dentro de um armazém gigante, mas isso é só o começo: o dramaturgo Caden Cotard consegue, mais coisa menos coisa, construir uma réplica da vida - tão fiel, que depressa se vai transformando na vida ela própria.

 

É um filme esmagador e será difícil que este ano estreie outro mais inventivo. E sim, requer mais do que um visionamento para que nos conquiste por inteiro.

 

 



Inventar passatempos inúteis no Twitter é sempre divertido, sobretudo se a adesão for tão monumental como neste fim-de-semana. Na sexta-feira, sugeri que a comunidade Twitteira desse o seu contributo para a ainda tímida indústria porno nacional, estimulando-a - à imagem da indústria porno estrangeira - a fazer versões XXX de filmes portugueses. A minha ideia era: se os americanos têm um The Penetrator e um Edward Penishands, porque não podemos nós ter um A Tesão de Lisboa? Um Pátio das Canzanas? Ou mesmo, para citar um exemplo recente, um Anália, o Filme? Estes foram os exemplos que dei, à laia de mote, por volta das 15h30 de sexta. O fenómeno durou todo o fim-de-semana e esta madrugada ainda chegavam algumas ideias, numa torrente de sugestões que foram desde o genial ao deprimente e com outras que, simplesmente, são incatalogáveis de tão estranhas. Houve também quem, a partir das minhas propostas de mote tivesse enveredado pelo trabalho gráfico, o caso do Nuno Amorim:

 

 

Foi complicado, passados estes dias, navegar neste oceano de propostas e extrair as melhores. É possível que me esteja a esquecer de algumas boas, mas esta lista não me parece má de todo.

 

Convém dizer que foram várias as propostas que coincidiram. Foram vários os twitteiros que enviaram coisas como Filme da Teta, De Costas no Castelo, Vai-se e Vem-se, Mamo-te Teresa, Verdes Ânus, O Pai Tira-mo ou O Sá Leão da Estrela, o que prova que há como que uma mente porca colectiva que, no fundo, todos partilhamos.

 

Mas, sem mais demoras, vamos à lista. Entre parêntesis, a seguir ao título, está o nome de Twitter do autor.

 

O Pito das Antigas (para quem gosta de sexagenárias) (renatosousa)

98 Hotconas (bituquei)

Mortinha Por Levar em Casa (Armandodesousa)

Repórter XXX (alexmartins)

Este Querido Mete a Gosto (euRafa)

Violada na Praia por Cães (lpedromachado)

A Mamada na Praia dos Cães (ana_tapia)

Oh Sim! Ou a Vã Glória de Fornicar (flasardinha)

Vales Abrirão (sumafo11)

A Andreia da Bunda Branca (sumafo11)

O Lugar do Coito (sumafo11)

Entrem os Dedos! (jamlvs)

É Firme, a do Pereira! (alcatifa_mos)

Bolas e Rabinhos (jamvls)

A Bela e o Papa-Ratas (alcatifa_mos)

A Arte de Enrabar (tazgirl2009)

Coisos Ruins (NLopes16)

Dôt.com ele (Guinhenhas)

Couro, Farda Fluvial (abelarez)

O Mastro na Entrada da Cíntia (Esse_Cardoso)

A Tarada na Praia C'os Cães (foxval)

98 Canzanas (ravfm)

Rabo, História de uma Alternadeira (tozzzze)

Palavra Que Entupia! (Esse_Cardoso)

Tá a Arder Demais (PedroMLFerreira)

Cinco Tias, Cinco Açoites (UmPenisBonito)

Amélio, o Firme (PedroMLFerreira)

Penetrações na Casa Amarela (nunix)

Mortinho por Espetar em Casa (davidalvito)

O Pau Tirano (trtl)

Os Quatro na Vanda (fimdelinha)



Qual a melhor série americana de sketches dos anos 90? Se não existisse The State, eu arriscaria um empate entre os extraordinários Mr. Show e The Ben Stiller Show. Só que a MTV, nos maravilhosos tempos em que ainda era um canal com coisas realmente interessantes e em que ainda a apanhávamos através das parabólicas que era moda ter nos inícios da década de 90, exibiu The State. E há poucas séries de sketches melhores e mais consistentes, na América, nos anos 90 (e noutros) do que The State. Durante anos penei em busca de material desta série (suponho que, numa qualquer VHS empoeirada perdida algures eu tenha alguma coisa gravada) e, finalmente, encontrei na net um velhinho best of que alguém copiou de uma cassete há muito fora de circulação e que nunca foi editada em DVD - o que faz com que a divulgação, aqui, dos links para esse vídeo seja um crime que, creio, não me catapultará para o Inferno quando eu morrer nem fará o FBI, a ASAE, ou uma força conjunta de ambos invadir-me a casa para me prender.

 

 

Uma raridade como esta compilação faz com que a sua divulgação seja serviço público! Alguém pôs o conteúdo da velha VHS no Rapidshare em partes separadas: esta, esta, esta, esta, esta e esta. Regalem-se na perfeição da escrita destes tipos, na liberdade total, no gosto pela desconstrução seja de um anúncio de detergente com uma mascote fofinha falante, seja da Última Ceia (sim, eles também têm um sketch sobre a Última Ceia, mas a MTV não se importou e os espectadores americanos não clamaram pelas suas cabeças).

 

 

Sim! Existe um pedaço de humor sobre a Última Ceia que inclui, repetidas vezes, a frase "I WANNA DIP MY BALLS IN IT!"

 

Parte do elenco de The State pode hoje ser visto em séries notáveis como Reno 911, a famosa paródia a Cops produzida pelo Comedy Central, ou num outro inovador programa de sketches chamado Stella. Um dos mais activos argumentistas e intérpretes de The State, David Wain, não só faz esta hilariante série de webisódios, como, recentemente, dirigiu esta magnífica comédia com Paul Rudd que por cá, infelizmente, saiu em DVD sem que ninguém desse por isso (com o título Modelos Nada Correctos).



As primeiras fotos da nova temporada de Curb Your Enthusiasm, a genial série de Larry David, curvam o entusiasmo de um indivíduo - sendo a curva acentuadíssima para cima. O arco narrativo da série versa sobre a tentativa de Larry ressuscitar a série que o tornou famoso como argumentista - Seinfeld - o que significa que, sim, todo o elenco (e, aparentemente, até o cenário!) está de volta.

 

 

 

Ou seja, estão criadas as condições para que se faça História. Curb Your Enthusiasm, 7ª temporada, estreia na HBO no dia 20 de Setembro. Escusado será dizer que, no dia seguinte, vamos andar todos à caça do episódio, na net. Eu cá tenho a consciência tranquila, porque sei que, mais tarde ou mais cedo, ajudarei a avolumar a fortuna destes senhores, como o documenta esta orgulhosa foto de uma das mais nobres secções da minha DVDteca:

 



No recente filme A Troca, Angelina Jolie vivia o drama de uma mãe cujo filho desaparece, reaparecendo tempos depois sob a forma de um estafermo de um pirralho que as autoridades tentam vender como se fosse a criança desaparecida mas que Angelina sabe perfeitamente que não é. Porquê referir este filme no início de um texto sobre um achocolatado? Porque me sinto Angelina Jolie - simplesmente com lábios menos carnudos. De resto, o drama que vivo com o regresso de Toddy, o lendário achocolatado dos anos 70, é em tudo semelhante ao vivido pela artista no filme A Troca. Querem convencer-me que o meu Toddyinho voltou - mas este não é o meu Toddyinho. Este não é o meu Toddyinho.

 

 

Há uns dias, estou eu nas compras mensais com a minha doce namorada quando ela, subitamente, nota que estou emocionado, trémulo, a voz embargada por algo de transcendente no qual está fixo o meu olhar. Digo-lhe, num fio de voz: "Ele voltou."

 

Corro na direcção das prateleiras dos leites, para pilhas de caixas de cartão contendo, cada uma, seis garrafas de leite com chocolate vitaminado. Olhando para o líquido castanho, não parece muito diferente de tantas outras naquele supermercado; mas o rótulo exerce uma magia extraordinária: ao ver o logotipo vermelho e amarelo, as minhas papilas gustativas desatam a sentir o clássico, irrepetível, mítico sabor do velho Toddy.

 

 

O facto de surgir agora sob a forma líquida não me preocupou: nos anos áureos do Toddy, ele surgiu não apenas no mais popular formato pó - e que saudades dos prémios, nomeadamente da colecção "raças de cães", que tantas alegrias me deu, mesmo quando os cães saiam mal pintados - mas também no formato Toddy Pronto. O Toddy Pronto era um achocolatado líquido, servido em lata e com direito a um jingle com uma letra tão espantosa que para sempre ficou impregnado na minha mente. E de notar que a última vez que ouvi tal coisa foi para aí em 1979:

 

Toddy

É Toddy Pronto

É Toddy Pronto, já está

Rapaziada que p'rá escola vai lançada

Como o Toddyinho não há

 

Aquele "rapaziada que p'rá escola vai lançada" sempre me tocou muito: o anúncio do Toddy Pronto fazia-nos sentir, de facto, por muito tímidos e outsiders que fôssemos na primária, parte de um clã, de um grande grupo social, em suma, da rapaziada. Quase que me sentia impelido a ir lançado para a escola, como sugeria a letra. Mas não - para a escola preferia ir a um passo mais comedido - embora com o Toddyinho no cesto.

 

O Toddy tinha um sabor característico, e essa era a sua magia. Nem antes do Toddy, nem depois, houve outro achocolatado igual. O Toddy tinha personalidade. Tinha uma doçura especial, um equilíbrio inimitável entre o chocolate e a baunilha. A última vez que me lembro de beber Toddy terá sido quando entrei para o ciclo, em 1981. Por essa altura, a magia Toddy começava a desvanecer-se: os frascos de vidro haviam sido substituídos por banais latas e não tardou para que concorrência inferior, mas sustentada por campanhas apelativas - o Nesquik com o canguru Cangurik; o Cola Cao com a sua sinergia com o concurso 1-2-3 - roubassem o trono ao bom velho Toddy. E assim, um dia, ele partiu, silenciosamente, para o grande Supermercado no Céu, onde se juntou a outros deliciosos falecidos, como o Milo.

 

Quando Toddy me aparece assim, de repente, passados vinte e tal anos, como se nada fosse, numa prateleira de um hipermercado, não tenho outro remédio senão recebê-lo com um misto de alegria e desconfiança.

 

 

Seria possível que na era cibernética, o mais old school dos achocolatados manteria o seu poder? Peguei num pack de 6 e trouxe-o.

 

Antes de o provar, celebrei o regresso de Toddy com um post no Twitter. Para aumentar o hype, umas duas ou três pessoas asseguraram: "Voltou e sabe ao mesmo!". Senti mais um frissom.

 

E depois provei.

 

 

 

Meus amigos. Quem diz que este Toddy sabe ao clássico, não tem memória, não tem papilas gustativas, não tem respeito. Este "Toddy" - e reparem como as aspas indicam que estou absolutamente f***do - este "Toddy" é um achocolatado genérico, não particularmente diferente do normal UCAL, a quem um implacável executivo, sedento do dinheiro que hoje em dia se consegue no mercado da nostalgia, estampou um rótulo enganador! Isto não é o Toddy. Sabem o que é isto? Isto é o que se bebe naquelas pastelarias que ficam ao lado das clínicas, depois de se fazer uma análise que nos obrigou a estar a noite toda em jejum. Não é mau, mas também não é bom. O novo "Toddy", simplesmente, é. E nada contra as coisas que são. Mas, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus - o Toddy não é, apenas. O Toddy sempre foi mais do que isso. Não se usa aquele nome; não se usa aquele logotipo em vão!

 

No fim da prova, uma melodia soava em loop na minha mente cansada: "Já tomou seu Toddy hoooje?... Já tomou seu Toddy hoooje?... Já tomou seu Toddy hoooje?..."

 

Gritei: "NÃO!"

 

 

Não tenhamos ilusões.

 

O mundo do achocolatado está de luto.



Raul Solnado e Bruno Nogueira em acção, sob a direcção do Ricardo Freitas (também realizador d'Os Contemporâneos), numa reportagem da PFTV.

 

 

Entretanto, convém lembrar que a RTP disponibiliza a série completa para visionamento, no site oficial.





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