A sempre atenta e pioneira HBO fez ontem História ao estrear dois programas de humor cuja génese está na Internet. Ambos são preciosas lições de como algo que já tinha na net uma vida forte e independente de grandes companhias e executivos com discutível gosto e poder de decisão, consegue ganhar uma nova e surpreendente vida na velha caixa (que, apesar de velha, ainda continua a chegar a muito mais gente do que a Internet). É claro que estes dois exemplos de "mau comportamento" nunca convenceriam os suits de uma NBC, ABC ou afins e que, a acontecer em televisão, só poderiam mesmo acontecer num canal de cabo como a HBO. Mas é um reflexo interessante da maneira como, na televisão, a Internet começa a ditar regras com projectos que não foram pensados para existir fora dela.

 

 

The Ricky Gervais Show pega no audio dos ultra-divertidos podcasts criados por Gervais, Stephen Merchant e Karl Pilikington para o jornal The Guardian, há uns anos, e serve-o em delirantes pedaços de animação deliciosamente surreal, a meio caminho entre a estética 60s-70s de Hanna-Barbera (Ricky Gervais pediu expressamente aos animadores que o transformassem numa espécie de Fred Flintstone) e o subversivo retro de John Kricfalusi no lendário The Ren & Stimpy Show. As conversas improvisadas do trio - geralmente consistindo em Gervais e Merchant provocando Pilkington devido à sua inenarrável visão do mundo - começam com os avatares do trio num estúdio e de lá vão saindo, ilustrando cada ideia delirante do diálogo e fazendo com que até um fã que já conhece aquelas conversas de trás para a frente (não só dos podcasts mas do livro Ricky Gervais Presents The World of Karl Pilkington) volte a chorar a rir com esta nova vida de um velho conceito. Ver as Monkey News sobre o macaco-astronauta ou a exploração de Pilkington ao velho casarão abandonado onde o papel com a inquietante mensagem "FLIES" antecede uma descoberta tão chocante como hilariante é uma experiência inesquecível.

 

 

Há uns anos, Will Ferrell e Adam McKay (dupla por trás de filmes como Anchorman ou Talladega Nights), criaram na Internet uma obra que devia valer-lhes um Nobel qualquer. Numa nobre tentativa de democratizar a comédia, inventaram o site Funny or Die, uma espécie de fusão entre You Tube e oficina de humor onde toda a gente - desde celebridades a desconhecidos - podia criar e fazer o upload da sua comédia, decidindo os visitantes do site se ela merecia continuar em exibição ou desaparecer para sempre. Os próprios Ferrell e McKay alinharam no jogo, produzindo experiências baratíssimas de comédia como a deliciosa curta The Landlord. E depressa a experiência atraiu o interesse de diversos consagrados, ávidos de testar material e fazer, em total liberdade e gozo, o tipo de coisa que Hollywood não costuma consentir. Agora a invenção de Ferrell e McKay surge também na HBO, na série Funny or Die Presents, uma selecção do melhor material do site, cruzado com material inédito e um conceito algo Tal Canal que, com muita piada, provoca o novo meio em que renasceu: a Internet organizando uma grelha televisiva semanal de meia-hora, composta de sketches, curtas-metragens, micro-talk shows e, em suma, as mais estimulantes obras que celebridades e desconhecidos criaram, a custo zero, para o site. Sublime, o conceito Drunk History: gravar o depoimento de alguém descrevendo um momento da História da América depois de beber duas garrafas de boa pinga e, a partir dessa descrição, encenar a reconstituição desse momento. Will Ferrell, Don Cheadle e Zoeey Deschanel estão magníficos e nada que vos possa aqui descrever fará justiça ao efeito desta Drunk History. E Playground Politics, transformando grandes e pertinentes questões de política interncional em brincadeiras de recreio de escola, com miúdos é uma ideia de génio!

 

As duas novas séries cómicas da HBO servem de ilustração não só do estrondoso poder da Internet como ferramenta de criação e divulgação de comédia, mas também que, quando comida requentada é servida com tanta imaginação e talento, ela pode saber-nos, de novo, como se tivesse sido acabada de fazer!



 

 

Fiquei hoje a saber por um ouvinte que a cadeia de videoclubes Blockbuster prepara-se para ser transformada num potencial cromo da Caderneta de Cromos que faço todos os dias na Comercial (no sentido de passar a vir precedida da expressão "lembras-te?..."). Aquele que já foi um verdadeiro templo de culto devoto vai abandonar Portugal devido a um forte declínio no volume de negócios. De facto, visitar uma das cada vez menos lojas Blockbuster de Lisboa e arredores era uma experiência deprimente, mesmo ao fim-de-semana. Percebemos quando as coisas estão mal, a partir do momento em que não só é possível alugar, á vontadinha, os lançamentos mais apetecíveis da temporada, como conseguimos ler nos olhos dos empregados que seria óptimo se fizéssemos o favor de o fazer.

 

A sensação é bizarra. Por um lado, lembro-me de olhar para a Blockbuster como a cruel responsável pelo extermínio dessa instituição da nossa juventude que era o videoclube de bairro, nos dias gloriosos do VHS. Por outro - e como acabei por ceder e ser um activíssimo sócio, primeiro do Blockbuster das Amoreiras e depois do de Benfica - a verdade é que o ritual de passear por estantes e estantes de cinema do mais variado ouvindo o meu caro Aurélio Gomes publicitar os últimos lançamentos através dos altifalantes da loja, o ritual de rezar a todos os santinhos para que lá houvesse pelo menos uma cópia disponível de Fargo, o entusiasmo histérico de perceber que, apesar de não haver nenhuma cópia nas prateleiras, um sócio acabou de entregar uma no balcão - tudo isso está prestes a desaparecer das nossas vidas. A gente não se importa: hoje em dia os canais de cinema e os videoclubes virtuais de ZONs, Meos e afins permitem-nos ver tudo aquilo que encontraríamos nos escaparates da Blockbuster sem termos de levantar o rabo do sofá. E, claro, haverá sempre, e de forma cada vez mais descontrolada, a pirataria.

 

Mas a questão é essa: cada vez andamos a levantar menos o rabo do sofá - e agora já nem sequer para passearmos pelas avenidas de caixas vazias da Blockbuster a ler partes de trás de capas e para comprarmos pacotes de gomas e pipocas para acompanhar a fita quando voltarmos para o sofá. Acho que vou ter saudades. O Álvaro Costa dizia outro dia uma coisa parecida com esta e eu subscrevo: num mundo cada vez mais digital, uma pessoa dá por si a ter uma certa vontade de ser mais analógica.

 

(E sim, sempre achei que eles deviam ter uma secção para adultos. Se calhar hoje em dia não estavam a passar tão mau bocado - Portugal ainda é, apesar dos brandos costumes, um país de bons tarados!)



O dia de ontem começou com as celebrações da 100ª edição da Caderneta de Cromos, a minha rubrica da Rádio Comercial. Cumpri o prometido de forma surpreendentemente ágil: tinha jurado ao vasto auditório que iria comemorar os 100 cromos fazendo rodar 100 vezes um dos lendários limões de plástico populares no fim dos anos 70, princípio de 80s, à volta do meu tornozelo, enquanto os meus colegas - Pedro Ribeiro, Vanda Miranda e Vasco Palmeirim - enunciavam, por cada volta do limão, o título de cada uma das 100 edições da rubrica. O limão - e a reportagem video que se segue - foi gentilmente cedido pela Mónica Albuquerque, uma fã tão dedicada da Caderneta de Cromos que, se um dia fizermos a CadernEXPO, a grande exposição de pedaços das nossas infâncias e juventudes, ela será o nosso Joe Berardo. A Colecção Albuquerque, que a Mónica vai revelando em inúmeras fotografias na página oficial da Caderneta de Cromos no Facebook, é de uma riqueza ímpar, incluindo brinquedos, livros e gadgets que quase todos tivemos e que há que tempos que não víamos.

 

A Mónica filmou o momento em que, no ar, em directo, para todó Portugal, eu abracei - ao som, inevitavelmente, de Chariots of Fire - o desafio de dar 100 voltas com o limão. Praticamente em jejum, à excepção de um pedaço de bola de berlim. Apesar de um ligeiro e quase invísivel percalço, a coisa correu bem. Peço que atentem e se deixem banhar na emoção que os meus colegas emanam ao gritarem os títulos dos 100 cromos da Caderneta:

 

 

Foi bonito de se ver. Só faltava Eládio Clímaco a relatar este momento que, para ser digno de comparação com uma edição dos Jogos Sem Fronteiras, só precisava de envolver uma piscina.

 

À tarde, ficou gravado o primeiro episódio da saga de webisódios Asfalto Morninho, uma aventura da vida real que acompanha todo o meu processo de aprendizagem do maravilhoso mundo da condução automóvel. Achei que era interessante, depois de tantos anos de militância anti-carro, eu imortalizar, num verdadeiro docudrama, a minha saga de tirar a carta. Ou de chumbar. Seja como for, a série vai mostrar tudo - as vitórias, os falhanços, os embaraços, tudo. Vai ser a coisa mais emocionante envolvendo carros desde o Knight Rider. Neste momento ainda só está disponível um teaser explicativo, mas em breve poderão ver o episódio 1.

 

Maravilhosamente surreais foram os acontecimentos de fim de tarde, num centro comercial aqui da minha zona. Quando passeamos os três - eu, a Ana e o Pedro - depressa nos apercebemos que suscitamos o interesse e a simpatia das mais diversas pessoas e temos targets diferentes: a Ana - para além do vistaço que faz por ser a Deusa que é - atrai pessoas de alguma idade, fiéis seguidoras do Jogo Duplo; eu atraio pessoas mais jovens, ouvintes das minhas rubricas radiofónicas e seguidoras do Facebook, Twitter e do blog; o Pedro atrai, basicamente, toda a gente que tenha um mínimo de entusiasmo por bebés. Aqui para nós: fizemo-lo bem, perfeitinho e encantador, e com um poder de sedução gigantesco.

 

Uma senhora na casa dos 50 aproxima-se de nós, encantada com o bebé, e por fim dispara: "Muitos parabéns pelo seu papel no filme. Eu não gosto de nada do que faz, mas no filme está tão natural, gostei muito. Vai-me desculpar, mas não aprecio nem acompanho o que faz, porque gosto nada de programas da treta, mas adorei vê-lo n'A Bela e o Paparazzo."

 

Confesso que fiquei com vontade de dizer: "Não aprecio nada o seu cabelo, mas adorei o elogio." Em vez disso, digo: "Mas eu acho que nem me vê muito em programas da treta. Eu faço mais é rádio". Diz a senhora, depois de uns segundos de confusão: "Mas na rádio o senhor é mais sério". Perante isto, na minha mente passa um flashback da minha actuação matinal, fazendo um limão girar 100 vezes à volta do tornozelo enquanto os meus colegas gritam.

 

Preparo-me para pagar o lanche da família, na caixa do bar onde abancámos, quando uma jovem simpática, chamada Mariana, se aproxima de mim e me pede um autógrafo. A senhora que me está a cobrar o lanche diz, num forte sotaque brasileiro: "Mas quem é o senhor? É famoso? Porque está dando autógrafo? Quem é ele? Quem é ele?". Eu tento despachar a situação dizendo "faço umas coisas".

 

A Mariana explica quem eu sou. E de repente, todas as atenções estão sobre mim, naquele estabelecimento de sandes. Atrás do balcão, cada uma das quatro empregadas tem a sua teoria sobre o que eu faço, mas ninguém tem bem a certeza. Uma delas afirma: "É um que faz rir". Outra afirma: "Toda a gente sabe que é júri dos concursos de dança". Ainda outra, e sem dúvida o meu palpite favorito de todos: "É patinador".

 

Pelo meio da confusão, tento ouvir a Mariana, que diz que adorou o filme e que, tal como a personagem da Soraia, chama-se Mariana Reis. Enquanto tento explicar à Mariana, no meio da confusão que se gerou no bar, a origem dos nomes do argumento d'A Bela e o Paparazzo (na verdade são nomes de pessoas que o argumentista do filme, o Tiago Santos, conhece, entre amigos e família), constato que um senhor de idade se aproximou da Ana e do Pedro. O Pedro sorri para o senhor e este pega-lhe ao colo por uns momentos, antes de sacar de um espesso maço de notas da algibeira e dizer: "Ele já tem mealheiro?". Nós tentamos demover o senhor de oferecer dinheiro ao filho de estranhos como se fosse avô dele, embora agradecendo a simpatia, mas o senhor insiste ao ponto de começar a achar quase ofensiva a nossa recusa, deposita 10 euros nas mãos do confuso Pedro e vai-se embora, fazendo ouvidos moucos às nossas incessantes tentativas de recusar amavelmente o dinheiro.

 

Tudo isto aconteceu de forma imparável e foi divertido, embora eu queira acreditar piamente que aquele senhor do maço de notas faz isto também com bebés que realmente precisam. Foi divertido, claro está: excepto a parte em que o Pedro deu um safanão numa chávena de café bem quente para cima das minhas calças. Coisas que acontecem.

 





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Olhem para o que eu ando a fazer
Caderneta de Cromos - 2ª a 6ª feira, 8h45 e 9h45
(o clube de fãs no Facebook)

PRIMO - Sábado às 12 e Domingo às 23h00
(site do programa)

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