Começo com um facto muito simples: tudo aquilo que de brilhante
Os Simpsons podiam ter feito, já o fizeram. Ao longo de todas estas temporadas na televisão há momentos tão geniais, tão definitivos, que era impossível que alguém fosse ver
The Simpsons Movie à espera de uma experiência transcendente, inovadora, arrebatadora, inesquecível. Eles já foram tudo isso, pá. E é por isso que contesto vigorosamente as pessoas que agora falam em "desilusão". Do que estavam à espera? Groening e a sua equipa já fizeram tudo (aliás, já fizeram mais do que tudo, se contarmos com o genial
Futurama, série que levou o humor de cariz Simpsónico para os poucos lugares onde ele não tinha ido), pelo que
The Simpsons Movie só podia ser aquilo que é: uma celebração aconchegante e mais comunitária de uma coisa importante e marcante das nossas vidas pop-culturais.
Algo de transcendente, inovador e arrebatador conseguiram os rapazes do
South Park quando fizeram essa obra-prima cinematográfica chamada
South Park: Bigger, Longer, Uncut. Porquê? Porque a série ainda não tinha muito tempo de vida, e semeou as doses certas de brilhantismo para que uma longa-metragem, explodindo assim, de repente, as transformasse em qualquer coisa de sublime.
No caso dos Simpsons, e depois de 17 anos no ar, eles já chegaram ao sublime há que tempos. E não seria um filme que iria trazer mais novidade, nem poderia ser essa a sua função: um filme dos Simpsons teria, acima de tudo, que ser bom. E é!
Como fanático da obra de Matt Groening (e por "obra" entenda-se também o magnífico cartoon
Life in Hell), não me senti defraudado:
The Simpsons Movie ofereceu-me exactamente aquilo que eu esperava. Porque é aquilo que uma equipa e um conceito que já atingiu os píncaros da genialidade há que tempos me poderia dar: mais do mesmo, com a novidade do ecrã grande e da respiração mais cinematográfica. Mas mais do mesmo
é bom. Os desiludidos que me digam, objectivamente: conseguiria um filme dos Simpsons, só por ser "um filme", trazer algo de mais inovador e surpreendente do que um episódio como
Cape Feare? Ou
Stark Raving Dad, com aquela inesquecível reinvenção de Michael Jackson? Ou o díptico
Who Shot Mr. Burns?
Amo os Simpsons. E toda a Springfield. Admito que a série televisiva há uns tempos que entrou numa compreensível rotina, mas tenho com as aventuras destas pessoas amarelas a relação que tenho com o filmezinho anual do Woody Allen. Preciso delas como de pão para a boca, mesmo quando o pão já foi mais estaladiço. E sim,
Family Guy e
American Dad são giras, sim senhor. Mas não são
Os Simpsons. A classe da sátira, as dimensões e a coerência da mitologia Simpsónica - mais nenhuma série adulta de animação consegue lá chegar, mesmo que haja bons espécimes do género.
Voltando à imagem do pão e da boca: o pão que
The Simpsons Movie nos oferece é de boa qualidade. O filme é divertidíssimo, cheio de sátira afiada, e eu senti-me feliz por estar a vê-lo. Digamos que foi uma experiência do tipo "Natal-quando-somos-petizes". São 85 minutos compactos, vivendo de uma corrente contínua de piadas, conseguindo recriar, numa longa-metragem, o ritmo avassalador dos episódios televisivos. Quando termina - e, por favor, fiquem na sala até ao fim do genérico final! - ficamos com a sensação de que soube a pouco e que ainda lá podíamos ficar pelo menos mais uma meia-hora, à vontadinha. Mas quando começamos a fazer contas aos
gags que vimos, constatamos que foram às toneladas.
The SImpsons Movie é obra de uma equipa incrivelmente oleada, com plena noção do funcionamento dos mais ínfimos mecanismos desse delicado relógio que é a comédia.
No meio de dezenas e dezenas de sequências notáveis, chamo a vossa atenção para a maravilhosa cena erótica entre Homer, Marge... e o imaginário Disney.
Era mesmo o que estava a espera.
O cenário com aquele efeito 3d de futurama também estava muito bom.