Desde que esta coisa chamada Operação Prestígio arrancou, que várias têm sido as vozes discordantes, acusando-me de estar a ser parvo e a maltratar a língua portuguesa, arruinando uma palavra tão digna como esta.
Acontece que eu discordo vigorosamente dessa opinião e da suposta dignidade da palavra "prestígio". Passo a enumerar as minhas razões:
1) É uma palavra tonta, desprovida de real significado e sinceridade, usada de forma banal, a torto e a direito, sendo dos poucos vocábulos que é usado tanto para vender bombons ou papel higiénico de marcas respeitáveis, como para definir a carreira de pessoas ilustres.
2) A sua mudança de significado - passando ela a integrar o calão e a definir "rabo" - obrigará a que os organizadores de cerimónias que incluam Prémios Prestígio (e são tantas, desde galas televisivas a certames especializados nas mais diversas áreas, desde a Construção Civil ao Espectáculo) vejam a sua imaginação ser estimulada levando a que novas - e, possivelmente, mais sinceras - designações sejam utilizadas.
3) É uma palavra sem qualquer valor para as coisas que realmente interessam: arrisco dizer que não há um poema digno desse nome na literatura portuguesa que contenha a palavra "prestígio". No entanto, a palavra "prestígio" anda aos rebolões em discursos políticos, cerimónias balofas de homenagem, e, mais grave ainda, em cartas falsamente personalizadas de empresas que nos querem vender enciclopédias ao mesmo tempo que nos garantem que já fomos seleccionados para a atribuição de prémios do calibre de automóveis, libras em ouro ou apartamentos no Algarve, ou seja, prémios de - lá está - prestígio.
4) É uma palavra que obriga uma pessoa a fazer uma boca parva para a proferir, com os dentinhos cerrados e os labiozinhos a simular uma espécie de beijo molengão e enjoado, aquele tipo de beijo que damos ao de leve, na cara de pessoas de quem não gostamos mas as quais nos vemos obrigados a beijar.
Acreditem, meus amigos. Não vamos sentir a falta da palavra "prestígio". E eu posso trabalhar em comédia, mas sou uma pessoa sensata. Nunca me passaria pela cabeça arruinar o significado de uma palavra bonita e genuinamente útil como "saudade". Mas não ponho as mãos no fogo no que diz respeito, por exemplo, a "compactuar", cujo sentido virei em breve a propor que também mude, passando esta palavra a servir para definir actos sexuais envolvendo uma parte do corpo - precisamente o prestígio.