I Am Legend acaba por ser um dos filmes mais didáticos do ano: prova, de forma muito clara e transparente, os malefícios do excesso de dinheiro. Demonstra que rios de massa e de efeitos especiais só servem para estragar uma ideia que fora perfeitamente executada antes com 1% do orçamento. Sim, porque o filme de Francis Lawrence acaba por dever mais a 28 Days Later, de Danny Boyle, do que ao livro do genial Richard Matheson em que se baseia. Muitas vezes, I Am Legend parece mesmo o remake que Hollywood faria do filme de culto britânico, trocando a Londres deserta de Boyle por uma Nova Iorque igualmente deserta onde cartazes de Rent e The Producers e enfeites de um Natal passado, coexistem com vegetação alta, veados, leões... e uma espécie de zombies.
E é aqui, nesta espécie de zombie, que, para mim, reside um dos grandes problemas do filme. I Am Legend é interessante e razoavelmente abonado no que toca a suspense até ao momento em que Francis Lawrence mostra, finalmente, as criaturas ao espectador. E o espectador fica chocado pelas razões erradas: por perceber que, em vez dos humanos selvagens e reais que corriam desalmadamente atrás dos resistentes em 28 Dias Depois, os monstros de I Am Legend parecem saídos de Beowulf: são bonecos animados em computador (e é impressão minha ou têm quase todos a mesma cara?!), tão artificiais que, a cada aparição, a única coisa que, na sua fúria, conseguiram destruir foi o meu interesse de espectador num filme que até começa bem. Em Beowulf estas criaturas funcionariam - todo o filme era animado! - mas aqui ficam tão deslocadas ao pé dos actores humanos que acabam por fazer com que I Am Legend seja uma espécie de Quem Tramou Roger Rabbit do filme de terror. À parte disto, há que dizer que o argumento também não é grande espingarda: de que adianta partir das palavras de um Richard Matheson, quando é um Akiva Goldsman (Código Da Vinci, Cinderella Man, Uma Mente Brilhante, Batman e Robin) a reinventá-las e a poli-las para consumo no multiplex? E aquele final... Enfim.
De maneiras que estou desiludido. Não foi isto que os magníficos trailers me venderam durante estes meses todos. Não foi mesmo nada disto. Vou mas é pôr ali o 28 Days Later na maquineta, para desintoxicar...
AR
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