Apre... Levei uns três dias a construir este post, intercalando-o com a minha valente constipação (noutras condições isto já aqui estaria publicado), mas pronto: finalmente, aqui vai o meu top cinematográfico de 2007, tardando mas não falhando...
Antes de mais, recebi mais este e-mail da Lusomundo com a mais recente contagem do abelhómetro.
Mais de 400 mil espectadores em três semanas é um número todo jeitoso. E eu posso ser apenas a voz da abelha portuguesa, mas pelo trabalho perfeccionista que a equipa da Cláudia Cadima teve a fazer a dobragem, por aquilo que trabalhar na versão lusitana do
Bee Movie representou para mim (não só adaptar o humor do Seinfeld à palavra nacional, mas, caraças,
falar com o próprio Seinfeld), isto deixa-me a zumbir de prazer. E já se sabe que haverá quem surja a brandir o argumento de que números grandes não significam qualidade do produto. É verdade. Mas quando se esteve a trabalhar no produto com pinças e luvas e outras delicadezas para que a versão portuguesa fosse, realmente, digna dos padrões impostos pela Dreamworks, ver o público a aderir em massa a um filme de animação inteligente e, ao mesmo tempo, razoavelmente passado dos carretos como este, é muito simpático. Os habituais adeptos do
money porn escusam de se inquietar: não recebo mais pela venda maciça de bilhetes da versão portuguesa!
Quanto ao top dos meus favoritos de 2007, é já a seguir. De notar que a ordem
não é de gosto... É de data de estreia.
Apocalypto, de Mel Gibson
Não sou nada fã de
A Paixão de Cristo (sobretudo porque houve quem louvasse a qualidade desse filme enquanto apelidava os filmes do Eli Roth de
torture porn), mas achei
Apocalypto a mais decente tradução cinematográfica daquilo que de melhor tem o actual estado de aparente demência megalómana em que Mel Gibson se encontra. Numa altura da vida em que podia estar sossegado a jogar pelo seguro e a parir mais umas variações sobre
Arma Mortífera, o homem assume-se como uma espécie de candidato a
kamikaze, produzindo e realizando coisas que não passariam pela cabeça de mais ninguém em Hollywood.
Apocalypto funciona como devaneio artístico e filme de acção espectacularmente bem feito e empolgante, espezinhando pelo caminho, com inegável talento, questões mais duvidosas como uma interpretação algo livre da História. Há cinema do bom em doses suficientes dentro de
Apocalypto para o filme entrar nesta minha lista.
Contado Ninguém Acredita, de Marc ForsterHouve quem considerasse
Stranger Than Fiction uma história à Charlie Kaufman em versão
lite, mas isso pareceu-me uma etiqueta preguiçosa para definir uma deliciosa fábula sobre um homem que descobre, uma manhã, que é uma personagem de ficção. Não é todos os dias que Hollywood tem ousadias destas e o filme era bem escrito, interpretado e dirigido e ainda mostrava Will Ferrell numa vencedora mudança de registo. É pena que em
Mr. Magorium Wonder Emporium, a sua estreia como realizador, o argumentista deste filme, Zach Helm, se tenha razoavelmente espalhado ao comprido.
As Vidas dos Outros, de Florian Henckel Von DonnersmarckRevelou ao mundo Ulrich Muhe, um actor alemão que morreu antes de se tornar na gigantesca estrela planetária em que seria merecidíssimo que ele se tornasse, numa história comovente, contada com discrição e dignidade sobre um agente do regime (a RDA, no pré-queda do Muro) surpreendendo toda a gente - e surpreendendo-se a ele próprio - com uma imprevista explosão de Humanidade e compaixão.
Cartas de Iwo Jima, de Clint EastwoodAs Bandeiras dos Nossos Pais era um bom filme; mas o espectador ser subitamente surpreendido pela energia, a classe, a dignidade e a poesia com que um ícone americano aborda o outro lado do conflito, num filme quase inteiramente falado em japonês, isso constituiu (pelo menos para mim) um dos grandes, grandes momentos do ano cinematográfico.
O Labirinto do Fauno, de Guillermo del ToroSó Del Toro conseguiria cruzar com esta categoria comentário político e realismo puro e duro com fantasia da mais pura, num filme que não surpreendeu quem já tinha adorado a anterior experiência do realizador neste género (
El Espinazo del Diablo), mas que acabou por confirmar que o homem que, de vez em quando, faz uma perninha em Hollywood (e falamos de ricas pernas do calibre de
Blade 2 ou
Hellboy) é um magnífico contador de contos de fadas para adultos.
The Fountain - O Último Capítulo, de Darren AronofskySovado injustamente por muito crítico,
The Fountain merecia muito mais respeito pelo que representa: onde houve quem visse delírios mal enjorcados piscando o olho aos consumidores da
new age da moda, eu cá vi um filme sincero, feito por um tipo com talento e que se está rigorosamente nas tintas para os nomes que lhe chamem, lutando até ao último reduto pelas suas ideias e pela sua visão. Se pensarmos que, ainda por cima,
The Fountain levou um brutal corte orçamental a meio do processo, ainda padeceu da saída da superestrela inicialmente contratada (Brad Pitt), e que, mesmo assim, Aronofsky lutou contra ventos e marés e conseguiu fazer
este filme, a isso eu chamo ter um valente par deles.
Slither - Os Invasores, de James GunnÀ falta de uma boa sátira fantástica de Joe Dante, esta comédia de terror do promissor James Gunn, um realizador formado na produtora de série Z, Troma, foi um dos mais inspirados momentos de entretenimento puro de 2007, com o mesmo equilíbrio entre horror e gozo que se via nos primeiros tempos de Sam Raimi (quando ainda não lhe davam muito dinheiro) e, lá está, na obra de Dante (quando alguém decide dar-lhe algum dinheiro).
300, de Zach SnyderMais um daqueles filmes que irrita meio mundo e leva alguns histéricos a decretar a morte do cinema (já acontecera o mesmo com
Sin City... maroto do Frank Miller, a deitar tudo abaixo) quando, na verdade, o que
300 faz é prosseguir a descoberta da rota inicialmente trilhada por
Sin City, onde se derrubam as fronteiras entre a 7ª e a 9ª arte como nunca antes tinha acontecido. É um exemplo de boa, sumarenta utilização da tecnologia ao serviço do entretenimento, por oposição ao uso mais oco dos mesmos meios (como por exemplo em
Transformers, filme de que muito boa gente gostou mas eu - e peço uma vez mais desculpa - não).
INLAND EMPIRE, de David LynchNem todos os cineastas conseguem navegar pelos caminhos de estranheza e abstracção por onde Lynch anda por estes dias sem parecerem ocos e cheios de pose; David Lynch faz com que tudo pareça natural, e é aí que se vê como ele é um grande cineasta (exemplo de filme esquisito só para ser esquisito e totalmente falhado por isso, o recente
Hotel, de Mike Figgis). A dada altura da projecção de INLAND EMPIRE (o título é mesmo para escrever assim, a letra gorda) senti-me dentro de um sonho, e não foi porque tivesse adormecido: é porque esse é o mundo e a linguagem deste homem e quem os aceitar passa ali umas belas horas.
Beowulf precisava de um acessório (os óculos 3D) para mergulhar o espectador noutro universo; Lynch faz isso com cenários, movimentos de câmara, música... e câmaras de video que nem sequer são das mais caras.
Shortbus, de John Cameron MitchellAssim é que toda a pornografia devia ser: sexo explícito, sim senhor (e aqui há sexo explícito para todos os gostos e orientações sexuais) e uma fusão inteligente de humor e poesia numa história que é, afinal, sobre muito mais do que valentes quecas. Este filme onde há orgias a dar com um pau (na verdade, com vários paus) e um indivíduo que consegue fazer sexo oral a si próprio é, afinal, uma comédia amarga sobre a solidão e as coisas que uma pessoa faz para dela fugir. Inovador, e ainda por cima revelou-me a espantosamente
sexy Sook-Yin Lee (ela faz o papel da terapeuta que procura desesperadamente um orgasmo), cujo programa de rádio que ela faz na CBC (a rádio pública canadiana), o muito recomendável
Definitely Not The Opera, tenho ouvido com toda a devoção.
Quebra de Confiança, de Billy RayO
thriller de espionagem mais intimista da História (passa-se praticamente todo num escritório e numa casa!) expande o nítido interesse que o realizador Billy Ray tem sobre os mecanismos da mentira (ele que realizara também
Shattered Glass, o caso verídico de um jornalista fraudulento). Uma história real sobre a maior fuga de informações da História da América, novamente com Chris Cooper a mostrar como é um dos maiores, embora mais discretos, actores americanos da actualidade.
Zodiac, de David FincherMais um grande filme de Fincher sobre um
serial killer e a obsessão, embora aqui - e essa é a grande originalidade de
Zodiac - a obsessão em causa não seja a do assassino, mas a dos homens que durante anos tentaram percebê-lo e capturá-lo. Muita gente ficou desiludida com a lentidão e a maneira como o filme termina de forma inconclusiva, mas a verdade é que a vida é quase sempre assim. Apenas não tão bem filmada como uma obra de Fincher.
À Prova de Morte, de Quentin TarantinoMesmo que seja um Tarantino menor, é um entretenimento maior. Está bem que é muito palavroso (mas as palavras são divertidas) e, de repente, atira à cara do espectador uma perseguição automóvel tão bruta e orgânica que faz com que os
stunts mais arrojados do ano cinematográfico (Bruce Willis agarrado a um jacto, por exemplo) pareçam... um jogo de computador. Não vimos
Grindhouse inteiro, mas pensemos no lado positivo da questão: vimos os
director's cuts dos dois filmes que compunham a sessão dupla. E é bom ver Kurt Russell a regressar a um papel de jeito, como aqueles que ele fazia há anos para o grande Carpenter.
The Host - A Criatura, de Joon-Ho BongMais uma daquelas comédias de horror das quais preciso como de pão para a boca (a outra do ano foi
Slither) e, de novo, são bastante explícitas as influências do mestre Joe Dante na maneira como horror e sátira andam tão próximos neste filme fabuloso de Joon-Ho Bong. O primeiro ataque do monstro aquático é, para mim, um dos grandes momentos do ano cinematográfico.
Ratatouille, de Brad BirdPara mim, isto não tem grande história: é não só o melhor filme da Pixar, mas possivelmente o melhor filme animado desde que os computadores entraram em cena. É o quão boa eu acho esta história que ousa despertar estima e apetite no espectador tendo como protagonistas um sem fim de ratazanas. O argumento devia ser nomeado para o Óscar, e quem duvida que se lembre daquele momento extraordinário em que o crítico gastronómico tem uma epifania ao provar as iguarias feitas por Remy. Que grande filmaço.
Planeta Terror, de Robert RodriguezE pronto, com
Sin City e agora com esta sua metade do projecto
Grindhouse parece-me que Rodriguez recuperou a musa e deixou-se de vez de
Spy Kids, Sharkboys e
Lava Girls. Não é um autor de fitas infantis quem quer, e a natureza do endiabrado Rodriguez está aqui, na comédia negra, na reinvenção da série B e Z, na extraordinária eficácia com que ele dirige acção. Isto é um
party movie que deveria fazer parte de qualquer boa festa, mais até que o Trivial Pursuit.
Um Azar do Caraças, de Judd ApatowUm sério candidato a Woody Allen da geração trintona, Judd Apatow sabe escrever diálogos e criar personagens broncas com invulgar inteligência e sensibilidade. Muita gente confunde os filmes do criador da série
Freaks and Geeks com banais revisitações de
Porky's, mas é melhor assim: embora reconhecidos lá fora pela qualidade da escrita de Apatow, em Portugal os filmes dele ainda são uma espécie de segredo bem guardado capaz de levar mentes não iniciadas a olhar para os fãs de
Knocked Up ou
40 Year Old Virgin com um escandalizado "o quê? Tu gostas disso?". Gosto, pois. E mal posso esperar para que o homem crie mais comédias assim.
Eles, de David Moreau e Xavier PaludEnquanto Hollywood prossegue com sequelas e prequelas de
remakes de clássicos de terror como
Massacre no Texas ou
Os Olhos da Montanha, cada uma mais desinteressante e vazia que a outra, dois franceses dirigiram, como quem não quer a coisa, uma pequena e económica experiência de terror claustrofóbico em que praticamente todo o filme é uma sequência: a imparável perseguição que um bando - sabe-se lá de quê, durante boa parte do filme - move a um pacato casal que vive num sugestivo casarão. Moreau e Palud já estão em Hollywood a fazer o
remake de
The Eye com Jessica Alba, mas aposto quanto quiserem em como esta brutal e barata eficácia já não conseguem reproduzir.
Hot Fuzz - Esquadrão de Província, de Edgar WrightEste foi especial. Aclamada por público e críticos por todo o mundo, esta brilhante comédia britânica, que reúne os maiores talentos do humor
british da actualidade, estava prestes a desaparecer sem história para o mercado DVD. A Lusomundo acabou por se deixar convencer pelo movimento que se gerou aqui no blog para que
Hot Fuzz tivesse uma estreia nos cinemas nacionais e deu-me particular gozo estar nas ante-estreias que se fizeram para leitores aqui do estabelecimento, em Lisboa e no Porto. Deu-me particular gozo que até um bloguista que não pode comigo tenha vindo aqui ganhar um bilhete, como quem não quer a coisa, mesmo que isso tenha servido apenas para que o blog onde ele milita tenha dedicado quase tanta atenção a destruir
Hot Fuzz, à laia de cruzada, como eu aqui a elogiá-lo. De repente, tipos geniais como Simon Pegg transformaram-se em danos colaterais de uma antipatiazinha bem portuguesa. E isso, vistas bem as coisas, é cómico.
E O MELHOR DO ANO, SENHORAS E SENHORES...
Promessas Perigosas, de David CronenbergCronenberg está em grandíssima forma e
Eastern Promises prolonga o tipo de estudo sobre a violência iniciado com o igualmente extraordinário
Uma História de Violência. Esta é a altura em que qualquer crítico amador de blog, ansiando por mostrar com a sua devoção a David Cronenberg é maior que a de qualquer outro mortal, insere aqui lugares-comuns sobre o que representa o corpo na obra do cineasta, yada yada yada, mas eu vou ficar-me apenas pelo essencial:
Eastern Promises é um triunfo não apenas de Cronenberg, que realiza esta história com uma dignidade arrebatadora e comovente, mas também do argumentista Steven Knight, o homem que até há relativamente pouco tempo escrevia para a versão britânica do concurso
Quem Quer Ser Milionário e que, com o espantoso
Dirty Pretty Things (realizado por Stephen Frears) e agora com esta obra-prima que é
Eastern Promises se consagra como um dos mais profundos, detalhados e humanos cronistas dos microcosmos da Londres que não vem descrita nos guias turísticos. É a história mais violenta e, ao mesmo tempo, mais bela do ano e uma lição de perfeição absoluta nos mais variados níveis: realização, argumento, interpretação. Um daqueles filmes que, ainda não tinha terminado, e eu já estava em pulgas para rever. Sou fã de Cronenberg até
Irmãos Insperáveis (inclusive) e, a partir daí, comecei a desligar-me da obra dele, que me parecia estar a começar a tornar-se pretensiosa, fechada e maçadora. Dessa fase gostei de
Crash e
Naked Lunch (embora sem o mesmo entusiasmo com que adoro filmes como
Videodrome, Scanners, A Mosca, Irmãos Inseparáveis), e só me reconciliei com o mestre ao ficar embasbacado com a categoria de
Uma História de Violência.
Eastern Promises está ao nível desse filme (se não for ligeiramente superior, até) e mostra como a união de forças entre Cronenberg e Viggo Mortensen é capaz de ser a melhor relação realizador-actor desde a dupla Tim Burton - Johnny Depp.
ENTÃO E O PIOR DO ANO?...
Deve haver por aí muito leitor à espera que eu volte a falar de
Transformers, mas não. Nem sequer do terceiro volume de
Piratas das Caraíbas.
Para mim, a pior surpresa do ano chamou-se
O Número 23, uma espantosa explosão de má escrita e realização onde Joel Schumacher, que é bom ou péssimo realizador conforme o dia, parece querer destruir a carreira ultimamente algo tremida de Jim Carrey, num
thriller desonesto claramente concebido para criar no espectador menos exigente a sensação de que viu um filme importante e experimental.