A noite dos Óscares trouxe um punhado de coisas muito agradáveis. A começar pelo humor do Jon Stewart que fez muito com pouco: pode não ter havido um daqueles videos épicos de abertura, mas o grande Stewart foi disparando boas piadas, algumas delas bem servidas por coisas muito simples, eficazes e hilariantes (a piada sobre o adiamento da festa da
Vanity Fair como homenagem aos argumentistas - "uma homenagem melhor teria sido convidá-los, finalmente, para a festa!" - os tributos a coisas impossíveis como os pesadelos dos filmes; a revelação de que Cate Blanchett não só fez de Elizabeth e de Bob Dylan mas também do cão que persegue Josh Brolin em
No Country For Old Men); os fãs do
Daily Show de certeza que deliraram (eu cá delirei) com a cumplicidade entre ele e Steve Carrell ("lá está o Jon sempre com esta necessidade de chamar a atenção") e quanto à distribuição das estatuetas, pareceu-me bem.
Já tive ocasião de ver o
No Country For Old Men e é um espanto de filme. Já tinha ficado fã do livro e a maneira reverente e, ao mesmo tempo, 100% Coen como a irmandade adapta a obra do Cormac McCarthy faz do filme um daqueles clássicos instantâneos.
No Country For Old Men tem uma série de ousadias como há algum tempo não se via numa obra dos Coen: ousa, por exemplo, ser avassaladoramente lento (lá se perde a malta do
short attention span!), porque tudo aquilo tem mesmo que ser lento para ser tenso... E a tensão é brutal, cortesia de Anton Chigurh, um vilão tão bom (que merecido Óscar para Javier Bardem) que, sem precisar de comer pessoas, faz com que Hannibal Lecter pareça o Pai Natal. A história fala de ganância, do ponto sem regresso até onde um homem pacato vai quando descobre uma mala cheia de dinheiro, e a sua obstinação / obsessão por ficar com o saque, mesmo que haja um verdadeiro
terminator humano no seu encalço. Fala também de desencanto, de já não ter idade para certas coisas, e uma vez mais dá a Tommy Lee Jones uma daquelas interpretações de genial subtileza. Outra ousadia dos Coen é seguir à risca o final surpreendente (e contra todas as convenções) do livro de McCarthy, que em vez de fechar a sua história de forma toda jeitosinha, bem embrulhada e com um lacinho vermelho em cima, opta por criar uma brilhante simulação de vida que muita gente toma como "falta de final". Discordo e estou contente pelo triunfo de Joel e Ethan Coen, dupla de que sou fã mesmo nos momentos mais tépidos da sua obra. A verdade é que, mesmo nas suas experiências mais comerciais, eles conseguem manter um pé bem fincado no seu universo bizarro e surpreendente. Aqui é diferente: voltaram ao negrume dos seus primeiros tempos e fizeram um filme ainda mais negro que
Sangue Por Sangue. Estão em grande forma, os Coen...

E Paul Thomas Anderson também, com o seu
There Will Be Blood. Aliás, eu acho que são dois grandes filmes - não consigo escolher entre um e outro. São diferentes e acabam por estar num belo patamar de categoria: como fã, tanto se me fazia que ganhasse um ou outro. Mas o Óscar para Daniel Day Lewis era daquelas coisas que tinha de acontecer, porque mais do que uma mera interpretação, Day Lewis transforma-se, de forma quase sobrenatural, nas criaturas que interpreta... Ao ponto de, por vezes, nos esquecermos como ele é na realidade - e não podia ter menos a ver com figuras como o prospector de petróleo Daniel Plainview. O tipo é um fenómeno e sai daqui muitíssimo bem premiado.
Outro prémio que me agradou foi o que Diablo Cody recebeu por esse verdadeiro serviço público de felicidade chamado
Juno. Ela escreveu uma história simples com uma voz original, um estilo algures entre o literário e o coloquial e, mesmo que isso irrite algumas pessoas, ela injecta tanta alma naquela história que é impossível, mesmo da parte daqueles que não ficaram inteiramente convencidos com o filme, não sentir o calor humano que dali emana sem lamechices nem excessos de açúcar.
E, de repente, a maior e mais tocante justiça da noite foi para a dupla mais improvável de brilhar a grande altura numa noite destas. As nomeações para Melhor Canção foram das coisas mais vergonhosas da História: com tanta cantiga interessante em tanto filme diverso,
três nomeações para canções do Enchanted?! As canções, algumas das obras mais aborrecidas que já saíram da pena de Alan Menken e Stephen Schwartz, foram interpretadas com um aparato cénico tremendo, mas quem ganhou o prémio foi Glen Hansard e Marketa Irglova, actores e músicos da mais subtil história de amor do ano, o brilhante filme irlandês
Once.
Um rapaz à guitarra, uma rapariga ao piano. A orquestra do Bill Conti trouxe uma dimensão nova à canção
Falling Slowly, mas foi o triunfo da simplicidade e da sinceridade, contra o encantamento plastificado. Foi bonito, sim senhores.