ATENÇÃO: Esta análise pode conter algumas informações passíveis de funcionar como spoilers... Nada de bombástico, mas aqui se referem alguns pormenores do filme.

 

Esta é uma discussão interessante: um dos argumentos recorrentes de quem não gostou de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é que a história está cheia de coisas forçadas, pouco realistas, estúpidas. Isto parece-me um total e completo disparate. Suponho que a travessia de uma ponte invisível - uma ponte invisível, senhoras e senhores! - e o encontro com um cruzado guardião do cálice sagrado, no unanimemente celebrado A Grande Cruzada, seja mais realista?

 

Quanto aos extraterrestres, que muita gente acha deslocados do universo de Indiana Jones,  faz todo o sentido: que mito mais "Jonesiano" do que este, o que diz que "eles" já cá estiveram e andaram associados às civilizações antigas? De estranhar, era que Spielberg e Lucas ainda não tivessem referido isso em nenhum dos tomos da saga. E faz sentido também se analisarmos a coisa por outro prisma: os filmes de Indiana Jones são baseados nos velhos serials e aventuras série B da juventude dos seus criadores. Há nos três filmes anteriores ecos de coisas como os filmes de Tarzan, por exemplo. O disco voador que surge em O Reino da Caveira de Cristal é série B anos 50 puro.


Sou sincero: acho difícil que um genuíno fã possa detestar este filme. Um fã devoto poderá gostar menos, mas nada há em O Reino da Caveira de Cristal que seja assim tão afastado do universo e da qualidade dos filmes anteriores. Agora, "detestar", como muito auto-intitulado fã prega aos sete ventos? Acho excessivo, mas não vou entrar por um debate sobre gostos - cada um saberá de si e do que achou do filme.

O que me parece - e já há quem, entre os espectadores que não gostaram tanto do filme, assuma isso - é que muita gente envelheceu antes de Indiana Jones. E a culpa disso não é do filme... De 1989 a esta parte perdeu-se alguma da inocência que fez com que muita gente amasse os três filmes anteriores, ao ponto de eu achar que se, por exemplo, A Grande Cruzada estreasse hoje, levaria exactamente com as mesmas críticas sobre "inverosimilhança" e "estupidez" que, tristemente, O Reino da Caveira de Cristal está a levar. Parece que estou a ver: "Como é possível, eles encontrarem um cruzado vivo a guardar o Graal? Tão forçado!"

Gosto de manter vivo um pedaço da mesma inocência e entusiasmo que me fez ficar fã dos três filmes anteriores e acho que é isso que faz com que tenha adorado O Reino da Caveira de Cristal e me tenha divertido à grande a ver este filme. Reconheço que não será o melhor filme da saga, mas é um bom, divertido, imaginativo, louco filme de aventuras, como já não se faz em Hollywood. O Reino da Caveira de Cristal pede que se deixe o lado adulto e racional à porta da sala de cinema. Sim, todos sabemos que um ser humano não sobrevive a uma explosão nuclear dentro de um frigorífico. Mas este ser humano é o Indiana Jones. Olhando para tudo o que já lhe aconteceu desde 1981, não acham que, de uma forma realista, ele já devia estar morto há que tempos? Toda a sequência no bairro artificial no campo de testes nucleares é um delírio puro, quase de desenho animado (e não esqueçamos que Spielberg nunca escondeu as influências de Chuck Jones e dos cartoons clássicos da Warner Bros).

A mim chocou-me que, nesta ânsia por questionar a verosimilhança de um filme de assumida e delirante fantasia como este (e como os outros da saga) alguém - não me lembro qual de vós, leitores - tenha até questionado a cena das cascatas... Se todas aquelas quedas de cascata não são Indiana Jones 100% puro, não sei o que será!

 

O meu conselho: revejam a trilogia clássica, que me parece que muitos dos que se insurgem contra o novo filme já não devem ver os antigos há que tempos. E depois vejam (ou revejam) O Reino da Caveira de Cristal com outros olhos. Os mesmos com que vimos os filmes anteriores em 81, 86 e 89. É capaz de ser um esforçozinho, recordar o espírito com que alinhámos em Salteadores da Arca Perdida, Indiana Jones e o Templo Perdido e Indiana Jones e a Grande Cruzada, mas eu tenho cá para mim que vale a pena.



Ricardo Santo @ 19:05

Sex, 30/05/08

 

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Como qualquer outro gajo que tenha crescido nos anos oitenta, também para mim o Indiana Jones é um daqueles personagens que marcaram a minha infância e pré-adolescência.
Como tal, também eu aguardava com um entusiasmo a estreia deste filme e confesso que sou um daqueles que em parte se sentiram desiludidos com o produto final.
O certo é que há uma certa aura de encanto em relação aos 3 primeiros filmes que se sente ter-se perdido neste 4º.
Se a perda de inocência está em mim ou no filme é uma discussão filosófica que nos poderia levar muito longe, mas que será muito difícil de desmontar.
A minha opinião pode até soar a pedantismo anedótico, como quem quer extrair profundidade a uma coisa que não passa de mero entretenimento.
Contudo, no que toca a Indiana Jones (e provavelmente a muitas coisas mais), sou do mais parolo que pode haver.
O meu filme favorito da série é precisamente aquele que o próprio realizador menos gosta: o Indiana Jones e o templo perdido.
Na minha opinião, cenas como a do "arrancamento de coração" ou da sopa de olhos ficarão para a História do cinema.
Foi o filme que melhor explorou a componente de terror visceral e ao mesmo tempo a componente cómica, dois elementos-chave das histórias de pulp-fiction, nas quais o personagem foi inspirado.
Ao mesmo tempo, a aura de mistério subtil mantinha um clima de suspense permanente que mantinha o espectador colado à história.
Acho que este novo filme conseguiu manter essa aura de mistério, e gostei dele quase até ao final.
Só acho que a alusão aos extraterrestres não necessitava de ser tão explícita. Para mim, isso estragou um pouco o filme.




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