Eu ainda sou do tempo em que um indivíduo podia dizer que os Coldplay eram bestiais sem ser humilhado e insultado. Mais: nessa altura (por volta de Parachutes) era até razoavelmente cool gostar da banda de Chris Martin. Lembro-me da revista britânica Uncut celebrar a entrada em cena dos Coldplay com pompa e circunstância, apelidando-os de essenciais, fundamentais, geniais. Penso que a mesma Uncut, anos depois, troçava dos rapazes como se toda a festa que fez com a sua chegada nunca tivesse acontecido. O que resume, de certa maneira, o funcionamento de parte da imprensa musical. Nada contra: faz parte do folclore pop e eu adoro ler a Uncut (embora, dentro do mesmo género, tenha um fraquinho especial pela Q).
Penso que uma das razões mais fortes por que deixou de ser cool dizer que se gosta de Coldplay é o facto de Chris Martin ter casado com Gwyneth Paltrow. Os fãs homens não perdoam que um artista alternativo case com uma estrela de Hollywood, embora, na sua essência, tal se deva à clássica e muito masculina inveja que se tem do indivíduo que casa com uma gaja boa.
Outra razão, mais normal, é o facto de, de repente, toda a gente ter começado a gostar de Coldplay e de - isto admito que dói - haver sérias possibilidades de canções da banda terem começado a aparecer em cassetes de compilação entre namorados que se tratam por "môr", cassetes essas que incluíam também o You're Beautiful, do James Blunt.
Além disso, um tipo que se quer musicalmente cool não pode gostar de uma banda que, segundo sondagens, era referida como a preferida da classe média britânica para embalar e adormecer!
Resultado: de repente, gostar de Coldplay era como gostar, para aí, do Rod Stewart actual. Música RFM para deleite de executivos de pullover às costas. E Chris Martin bem se esforçou para mostrar que era um gajo cool - sendo uma das suas melhores demonstrações disso a inesquecível participação num episódio de Extras onde, cortesia do seu amigo Ricky Gervais, destrói a sua imagem de indivíduo bonzinho e bem comportado do rock. Além disso, Martin ainda deu voz a uma das canções originais da banda sonora de outro item bem cool da moderna cultura popular, a comédia de zombies Shaun of the Dead, de Edgar Wright e Simon Pegg. Mas nada disso libertou os Coldplay da fama de criadores de música "nhónhinhas".
A verdade é que os Coldplay sempre fizeram boa música "nhónhinhas". Por oposição à má música "nhónhinhas" (leia-se, James Blunts e afins). O mundo deixou de saber distinguir, e a imprensa musical adora, mais do que eleger ídolos, derrubá-los a traulitada de bulldozer. De repente, eles tornaram-se num símbolo do convencional e do bocejante. E a um fã dos tempos de Parachutes restavam as memórias longínquas dos tempos em que era fixe aconselhar os amigos a ouvir Coldplay.
Conscientes de que tinham de recuperar a aura cool, os rapazes convocaram o grande Brian Eno para lhes produzir o disco novo, Viva La Vida or Death and All His Friends.
E a verdade é que, como dizia alguém e muito bem, este disco novo é o Achtung Baby, o OK Computer deles. Não trará nada de tão revolucionário para a música popular como esses dois espécimes mas, com a breca, é um grande disco em qualquer circunstância, o melhor da carreira deles e uma sucessão de canções incrivelmente bem construídas e imaginativamente produzidas. Infelizmente, parece-me irreversível a imagem dos Coldplay enquanto músicos "nhonhinhas" para pessoas "nhonhinhas". O que é uma pena, porque está aqui um dos melhores discos da temporada e, ao contrário do que aconteceu com Parachutes, eu não vou poder aconselhá-lo a muitos amigos meus, porque sei que eles me vão olhar de lado e um ou outro quererá até cortar relações comigo. Snif.
Porque raio fizeram um disco assim, ó Coldplays? Estava tudo tão bem. Tudo tão sossegado. Para quê estraçalhar a coolness de um indivíduo com um disco do camandro? Eu que até já andava para aqui a falar de bandas sonoras obscuras do Mike Patton... Valha-me Deus.
De maneiras que agora não sei o que faça à vida. Bom, em casa ouço. Com headphones, não vão os vizinhos perceber que estou a ouvir Coldplay e lá se me vai a aura de gajo que "gosta de coisas malucas".
Mas o melhor mesmo é uma pessoa deixar-se de merdas e assumir a coisa: Viva La Vida or Death and All His Friends é um portento de bom gosto, inteligência, criatividade. Não é "nhónhinhas" em nenhuma circunstância. É obra de uma banda no auge da inspiração, trabalhando com um dos mais talentosos produtores do mundo. Magnífica ilustração do fulgor com que eles estão neste disco é a canção Viva La Vida, que é capaz de ser a melhor que eles já fizeram. Videoclip ainda não há, mas alguém fez uma espécie de karaoke e deixou no You Tube.
Já é fixe outra vez gostar dos Coldplay? Eu gosto. Quem ouve música estritamente a pensar no cool que ela lhe fica, não sabe o que está a perder neste rico disquito.
Gostei de forma moderada de todos após o parachutes, mas este... mhe.
Talvez com o tempo, vá lá.