É o que eu digo sempre: assim como o excesso de hype é passível de provocar inesquecíveis desilusões, o défice do mesmo tem como principal vantagem dar azo a surpresas agradáveis. Portanto, correndo o risco de ser gozado, achincalhado, vilipendiado (porque a verdade é que nunca como agora foi tão pouco estiloso gostar dos Ficheiros Secretos), quero que fique nas actas que, com a breca, eu gostei de The X-Files: I Want to Believe!
E gostei, em parte, pelas razões que fazem com que muita gente não goste do filme (e garanto que não é só para ser do contra que o digo). Acho que, como diz o João Lopes no Diário de Notícias, este segundo filme tem muito mais a ver com as primeiras temporadas da série, com uma espécie de intimismo e engenho low budget, do que com aquilo em que a série tristemente se tornou aí por volta das últimas três temporadas. É claro que os primeiros tempos da série eram, de facto, low budget e que este novo filme, embora parecendo não contar com o mesmo tipo de extravagância financeira do filme anterior, tem valores de produção de blockbuster. Mas não há interiores de naves, criaturas delirantes, luz, cor e magia. Há até muito pouco de verdadeiramente sobrenatural neste filme e mais de maluqueira psicopata à Dexter, mas a verdade é que isso não me afligiu nada, pelo contrário. Soou curiosamente refrescante, e a química entre Mulder e Scully compôs o ramalhete e ainda me fez sorrir ao lembrar-me dos tempos em que ver Ficheiros Secretos (na TVI, lembram-se?) era um dos rituais mais importantes da minha existência.
É claro que este filme não é nenhuma obra-prima e tem problemas (a personagem do padre visionário, Joe, interpretado pelo grande Billy Connolly promete mais do que dá e os vilões são algo genéricos e desprovidos de carisma, apesar do seu horrífico plano). E, assim de repente, lembro-me de dezenas e dezenas de episódios da série francamente mais imaginativos e inesquecíveis do que I Want to Believe. Mas a maneira como lida com as questões da fé e como coloca a potencial "salvação do mundo" nas mãos de um estranho padre pedófilo, trazem à memória o tipo de serena provocação e ousadia de alguns dos melhores momentos da série. O ambiente, incomparavelmente mais negro, soturno e sufocante do que do primeiro filme, é sugestivo e eficaz, e é interessante constatar como Chris Carter e Frank Spotnitz parecem, claramente, ter-se estado nas tintas para o grande espectáculo. Por vezes, não há nada melhor para a saúde de uma marca outrora tão forte e actualmente tão em baixa como The X-Files como a ausência da frenética pressão que se tem quando se está no topo (e que, aqui para nós, fez com que a primeira longa-metragem de The X-Files ficasse aquém de tudo o que um fã esperaria que ela fosse - embora, na altura, o profundo amor pela série nos impedisse de dar o braço a torcer).
The X-Files: I Want to Believe levou-me, de certa forma, a fazer as pazes com a imortal criação de Chris Carter. É um bocado difícil perdoar o buraco a que a série televisiva chegou, ao não parar na altura certa, mas o facto é que este discreto e genericamente mal amado segundo filme reacendeu uma chamazita no coração deste velho fã. E isso já não é pouco, não senhores.
E já que estou com a mão na massa, deixem-me que aplauda Broken, a canção que os UNKLE fizeram de propósito para o filme e que é bem jeitosa: