Estando nos últimos dias confinado em casa curtindo uma valentíssima gripe e recusando-me a ceder à cama, decidi ontem à noite fazer uma experiência. A minha cara-metade estava fora, a trabalhar, e pensei que aquele seria um bom serão para, all by myself, expandir as minhas capacidades - porque acho que as tenho - de chefe de culinária e assim ensaiar para, um dia, a surpreender com um opulento jantar. Se há uma boa oportunidade de desenvolver esses talentos é quando estamos sozinhos, porque se os resultados forem humilhantes, só nós é que os presenciamos. Mas nada me prepararia para o espectacular desfile de emoções que me aguardava.
Sim, meus amigos, ontem decidi levar a cabo a tarefa-tabú da cozinha, a coisa que, quando é mal feita... é tragicamente mal feita. O terror de quem começa a cozinhar.
Ontem, pela primeira vez na minha vida e sem dizer nada a ninguém, decidi cozer arroz.
E fui logo para o mais difícil: arroz integral. A própria embalagem dizia que o tempo de cozedura é muito maior do que para o arroz normal, mas as instruções pareciam básicas: "Por cada medida de arroz, duas e meia de água e levar a cozer durante 35 a 45 minutos". Até aqui tudo bem.
E também tudo mal: porque 45 minutos depois, dentro da panela borbulhava em água fervente uma das mais abjectas, compactas e peganhentas argamassas que já se produziram numa cozinha.
No entanto, pensei: não desanimarei. Vou comer esta merda. Defendo que um candidato a cozinheiro não pode, simplesmente, fazer mal um prato e depois não o comer. Por muito má que esteja uma primeira experiência, é dever do mau cozinheiro ingerir o seu erro com dignidade e galhardia.
Felizmente tinha no frigorífico umas magníficas almôndegas (feitas por quem as sabe fazer; não por mim) e pensei que a solução para salvar o cimen... perdão, o arroz, era impregnando-o com o molho das almôndegas ao ponto de já não se perceber sequer que aquilo, em tempos, fora arroz.
Introduzi as almôndegas no micro-ondas.
Segundos depois de carregar na tecla "MICRO", toda a instalação eléctrica da minha casa foi abaixo com um possante estoiro.
Na escuridão, suspirei fundo.
Pronto: tinha três aquecimentos a bombar em três zonas diferentes da casa (esta terra é fresquinha pela noite e eu estou constipado). É natural que quando, ainda por cima, se mete ao barulho um micro-ondas, tenha sido uma sorte a luz não ter faltado em pelo menos metade da Linha de Cascais.
Depois de accionar novamente o quadro eléctrico e esquecer o micro-ondas, decidi que iria aquecer as almôndegas no fogão. Com tudo isto, o arroz esfriava. Enquanto as almôndegas tomavam um reparador banho quente, provei, a medo, um bago do arroz por mim cozinhado. Agora vagamente tépido, o arroz estava mais compacto e pegajoso que nunca. Uma pessoa que cozinha arroz apercebe-se de que está metida num sarilho quando o único, pequeno e miserável bago que prova se cola imediatamente ao céu da boca, de onde se revela difícil de despegar.
Olhei para o pacote de arroz e a tesoura com que o abrira, uma hora antes. Tanta promessa. Tantos sonhos. Por terra.
Com o delicioso molho de tomate das almôndegas, o arroz que depositei no meu prato foi deglutido de forma passável. O molho conseguiu disfarçar tudo, excepto a consistência assustadora do arroz. Pensei que uma forma interessante de salvar a minha experiência seria usar o arroz restante como uma espécie de papier-maché e com ele construir uma pequena estatueta para oferecer à minha namorada e tentar convencê-la de que a razão porque cozinhara aquele arroz fora, à partida, para efeitos de artesanato e não de culinária.
Mas não fui capaz. O aspecto do arroz era assustador e ele parecia olhar para mim como o monstruoso Brundlefly na cena final de A Mosca, pedindo a Geena Davis que lhe desse um tiro nos miolos e lhe acabasse com o sofrimento.
Odeio deitar comida fora, e agora faço questão de comprar um pacote de arroz e oferecê-lo ao Banco Alimentar Contra a Fome, ou instituição parecida. Preciso também de um período de reflexão (e talvez dos meus livros do Jamie Oliver e do Arcebispo de Cantuária) antes de voltar a tentar cozinhar arroz. E com o coração nas mãos, apelo aos leitores deste blog que me expliquem: como é que eu faço um arroz decente, por Deus?!
Muito obrigado.
http://www.jamieoliver.com/diary