A minha relação com Perdidos, inicialmente entusiástica e devota, andou tremida, aqui e ali, fruto de uma desconfiança estúpida da minha parte de que os enigmas sucessivos da série se acumulavam sem rei nem roque e que parecia não haver um plano definido. E sim, é verdade que na 3ª série houve palha desnecessária. Mas...
Depois de ver a 4ª temporada, engulo as minhas palavras cépticas e penitencio-me: cada vez é mais evidente que a mitologia de Lost está admiravelmente traçada pelos seus criadores, Damon Lindelof, J.J. Abrams e Jeffrey Lieber; pontas soltas que, no passado, provocavam mais irritação que interesse são repescadas de forma brilhante. No fundo, eu estava a cair numa coisa que odeio: estava a ser um paladino do short attention span, quando, no fim de contas, e na boa tradição de séries clássicas inovadoras da era pré-Internet, pré-clip, pré-You Tube, como Twin Peaks, Perdidos pede paciência ao espectador. E depois premeia-o - nem que seja muito tempo depois! - com deliciosas revelações.
Consegui a proeza de, nos últimos meses, evitar ler/ver/ouvir qualquer coisa que me descrevesse o que se passa na 4ª série de Lost. Esperei, estoicamente, pelo lançamento em Portugal da caixa da última temporada, e nos últimos fins-de-semana despachei a quarta temporada rápida e avidamente, tendo visto ontem à noite o último episódio. Adorei, embora compreenda que haja quem se esteja a afastar da série, cujo arranque intimista e intrigante dá agora lugar a espectáculo bigger than life, com explosões, soldados tipo action-men e efeitos especiais de encher o olho. Compreendo que para um espectador mais céptico, o momento em que Benjamin Linus (interpretado com génio por Michael Emerson) se agarra a uma enorme alavanca e consegue mudar a ilha de sítio com um clarão e um "puff", é capaz de ser um bocadinho demais. Mas agora Lost está com os pés firmemente plantados num registo fantástico - muito fantástico - e será difícil que de lá os tire até ao final da história.
O que eu sinto é que Lindelof, Abrams e Lieber estão, cada vez mais, a fazer da série a hora semanal de televisão mais extrema e intrigante desde Twin Peaks - com a diferença de que, para o final, Twin Peaks já andava à deriva (mesmo que assumidamente; parece-me que nunca foi intenção de David Lynch e Mark Frost resolver as pontas soltas) e Lost consegue misturar situações crescentemente surreais com uma mitologia consistente. Ao ver os flash-forward que salpicam a quarta série por oposição aos flashbacks das séries anteriores, torna-se mais claro que os autores sabem onde querem chegar. E isso é mais que tranquilizador; devolve ao espectador fiel o gozo de descobrir o que raio se anda a passar ali.
Como é tradicional, no fecho da quarta série as questões continuam a ser mais que muitas - sobretudo com a ilha a desaparecer em frente aos olhos dos Oceanic Six (e do espectador!) e o intrigante caso de "Jeremy Bentham" que fecha o último episódio - mas, na minha modesta opinião, Lost está a agarrar mais do que nunca. Infelizmente, novos episódios só a partir de 21 de Janeiro de 2009. Mas, lá está, "paciência" é, desde sempre, a palavra-chave desta saga.
(Uma coisa que, com muita pena minha, não foi ainda explicada é que raio vem a ser aquele gigantesco pé de pedra visto no fim da segunda temporada, parte de uma estátua que deve ter o tamanho do monstro de Cloverfield. E por falar nisso, terá Cloverfield alguma coisa a ver com a Iniciativa Dharma? Diacho, pá.)
Nuno gostaria de saber a tua opinião sobre o Ensaio Sobre a Cegueira sff.
Abraço.