Quando se tem demasiado tempo nas mãos, a coisa pode dar para o torto, mas felizmente o jornalista americano A.J. Jacobs usa-o para fazer experiências que só encontram rival no britânico Danny Wallace (cuja experiência verídica de passar uma temporada só a dizer sim a toda a gente resultou no filme com Jim Carrey que está agora em exibição). Há uns anos, Jacobs tentou perceber se, lendo os inúmeros volumes da Enciclopédia Britânica da primeira à última página, ficaria um homem mais culto e transformou a experiência no livro The Know-it-All; mais ambiciosa e divertida seria a sua mais recente aventura: em 2007, A.J. Jacobs decidiu, em plena Manhattan, rodeado de potenciais pecados por todos os lados, seguir os mandamentos do Novo e do Velho Testamento à risca. De forma literal. O resultado é hilariante e um comentário inteligente à relação dos homens com a religião: em 370 e tal páginas, Jacobs conta as suas meticulosas experiências que incluíram deixar crescer a barba de forma desmesurada e apedrejar adúlteros. Está tudo em Um Ano de Vida Bíblica, um título português muito menos engraçado que o original - The Year of Living Biblically. Fico com a sensação que o título português leva muita gente que me vê a ler o livro no comboio, a pensar que me estou a converter à religião (apesar da capa mostrar o próprio Jacobs, caracterizado como figura bíblica, segurando os Dez Mandamentos numa mão e um copo da Starbucks na outra!).
O livro é óptima leitura, seja para crentes, agnósticos ou ateus, mesmo que a tradução portuguesa traga algumas gralhas incómodas para a leitura que nem mosquitos numa noite de Verão. Tentem é que o Cardeal Patriarca não vos apanhe a lê-lo, que o senhor anda transtornado e ainda se irrita. Não sei o que se passa com os CEOs da Fé, mas depois das últimas hiper-retrógradas tiradas de Bento XVI, ouvir ainda o nosso D. José Policarpo a aconselhar as moças casadoiras a evitar maridos muçulmanos e a lerem o Corão para perceberem como aquilo é gente ruim, leva-me a pensar que os homens da Igreja precisam urgentemente de férias. E deviam tê-las. Durante vinte e dois dias úteis por ano, cardeais, bispos, padres, o papa, despiam as batinas, tiravam os hábitos e eram indivíduos normais. Relaxavam a cabeça, tinham relações sexuais, pecavam à vontade - enfim, faziam tudo o que um tipo que trabalha num escritório faz, quando não está a trabalhar num escritório. Ou seja, todas as coisas que não se fazem num escritório (embora haja bastante gente a usá-los para ter relações sexuais). Proponho isso para os homens da Igreja. Fazia-lhes bem.
É que ver um representante da Igreja a atirar pedras ao telhado muçulmano por oposição às virtudes católicas, sobretudo poucas semanas depois de eu ter visto um extraordinário documentário chamado Livrai-nos do Mal, provoca-me uma amarga vontade de rir.
Descobri este filme, vencedor de vários prémios e nomeado para o Oscar de Melhor Documentário, numa cesta de saldos de um hipermercado. O preço era apelativo - 7 euros - mas é pena que muita gente não saiba da existência, no mercado português de DVD, de um filme tão chocante quanto essencial.
não pode ser senão com espanto que leio esta sua afirmação, que cito:
«ouvir ainda o nosso D. José Policarpo a aconselhar as moças casadoiras a evitar maridos muçulmanos e a lerem o Corão para perceberem como aquilo é gente ruim».
Perdoará, mas eu não ouvi o Senhor Cardeal Patriarca aconselhar a leitura do Corão «para perceberem que aquilo é gente ruim». O que foi dito é que é preciso conhecer para compreender. Aliás, D. José Policarpo disse que, em geral, os portugueses são ignorantes em relação à cultura e à religião muçulmanas e que as mesmas devem ser respeitadas.
A sua observação deturpa as palavras do Cardeal. Aliás, a sua observação é um acrescento àquelas palavras e, portanto, uma absoluta falsidade. Permita-me, pois, que expresse aqui o meu descontentamento.
Cumprimentos.