
Entre as pecularidades do circo Walter Dias - antigo Circo Atlas - está, obviamente, o uso abusivo descarado (e corajoso, tendo em conta o poder da Disney para esmagar quem a rouba) do lettering da Walt Disney, concebido a partir da assinatura do próprio Disney. Mas isso é o menos, até diverte. Hoje passei pelo estaminé circense de Walter, aqui ao lado, em Carcavelos. Digamos que já é algo surreal ver um dromedário nesta zona; obsceno e trágico é ver um dromedário, em Carcavelos, tentando desesperadamente mexer-se dentro de uma jaula pouco mais que minúscula. Dizem-me que também há leões nesta situação. E sabe-se lá mais o quê.
Passar junto ao circo Walter Dias é sentirmo-nos (ainda) mais terceiro mundo. É evidente que este é apenas um caso entre muitos - o que não falta em Portugal é circos tratando animais com uma desumanidade medieval. Mas este foi o exemplo chocante pelo qual passei hoje, e que me levou a sonhar que existia mesmo um movimento revolucionário como o que Brad Pitt liderava no 12 Macacos. Vontade não falta de abrir aquelas jaulas e libertar aquela bicharada. O problema é que uns eram capazes de nos comer e os outros eram atropelados ali ao pé, na Marginal. Porquê? Precisamente porque não é suposto estes animais estarem aqui. E isso é capaz de não ser uma verdade elementar para os miúdos, o público-alvo do circo, mas deveria ser para os adultos e, por exemplo, para as empresas supostamente sofisticadas e civilizadas que, ano após ano, pactuam com esta inacreditável forma de tortura, preguiçosamente depositando a organização das suas festas de Natal, Carnaval e afins nas mãos de artistas como Walter.
O circo de Walter Dias está montado para a época Carnavalesca. A mesma época em que uma sátira ao computador Magalhães, no Carnaval de Torres Vedras, foi aplicadamente proibida, num inacreditável acto de censura sem explicação. Aparentemente, estamos num país em que, no Carnaval, há que zelar pelo bom nome de um computador - enquanto um dromedário, leões e outras criaturas se debatem com falta de espaço, frio e um treino que não deve ser nada meigo para que cumpram o que deles se espera e Walter Dias receba o dinheiro de que necessita para, eventualmente, poder pagar o dinheiro que a Disney ainda lhe vai exigir por usar a assinatura de Deus no seu arrepiante Carnivale.
Associações de defesa dos animais há várias, neste país, e fazem o que podem - enquanto são olhadas por muito boa gente como bandos de malucos sem vida que não deixam o bom entretenimento da tortura animal ser apreciado em sossego pelo povo. Mas não era suposto uma ASAE ver o que se passa aqui e fazer alguma coisa? Talvez não - até porque, se calhar, é num circo como este que acontece a festa de Natal lá dos funcionários.
P.S - Como não tenho twitter aqui deixo uma resposta a um comentário que realizaste sobre touradas. O toiro apenas existe devido ás touradas. Caso as touradas não existissem, os touros á muito que teriam desaparecido do habitat.