De vez em quando, lá vem um filme que deixa um tipo completamente abananado. A obra abananante do momento vem da Suécia e é o filme que reinventa de tal maneira as convenções do filme de vampiros que se arrisca a ditar as regras de todo o filme de vampiros que se fizer daqui para a frente. Låt Den Rätte Komma In, chama-se a fita que Tomas Alfredson dirigiu a partir do livro homónimo de John Ajvide Lindqvist, mas podemos tratá-la pelo mais perceptível título inglês, Let the Right One In (até porque o título é respeitosamente surripiado a uma canção de Morrissey, com uma ligeira alteração - Let the Right One Slip In). Dirigido com a devida lentidão e ponderação que se espera de um filme criado na terra de Bergman, composto com a subtileza e a clareza de design de uma peça de mobiliário do IKEA, mas dotado da intensidade - e o derrame de sangue - de um bom e apaixonado conto de vampiros, Let the Right One In é, acima de tudo, uma comovente história sobre isolamento, bullying e o verdadeiro terror que é a adolescência; e, como toda a boa narrativa de sugadores de sangue, é também uma espantosa história de amor sub-16 capaz de fascinar o mais empedernido. É também, apesar do universo escolar em que se passa, um filme muitíssimo adulto (muito mais adulto que a saga Twilight, por exemplo).
Let the Right One In não me sai da cabeça. Não só a história é um espanto, como Tomas Alfredson se encarrega de fazer com que cada plano seja inesquecível, de uma forma tão bela quanto discreta. Há prédios de apartamentos, há neve, há salas cinzentas e luzes fluorescentes - materiais que Alfredson torna tão adequados a esta pequena história de vampiros como o mais gótico dos palácios. Vejam - e, se possível, no deslumbrante Blu-ray, que já está à venda, e em edição region-free na sempre fiável Axel Music.
A dada altura de Let the Right One In (e, por acaso, numa das cenas mais arrepiantes do filme), é usada na banda sonora uma canção que eu não ouvia há séculos. Sendo o filme sueco e passado nos anos 80, Tomas Alfredson foi buscar um hit de uma banda local, os Secret Service. A canção em questão chegou a passar na altura nas rádios portuguesas com alguma frequência. Por isso teve alguma graça ouvir A Flash in the Night no filme, apesar de ser eurodisco do mais pechisbeque e de ser utilizado numa sequência particularmente perturbante. Se calhar, percebe-se agora, é para ornamentar filmes de terror que o eurodisco foi inventado!