Gente sem filhos, acreditem no que vos dizem: assim que uma criaturinha destas entra na vossa vida, tudo - e friso bem: tudo - é feito em função dela. O trabalho que aceitamos. Como o vamos fazer. As horas a que decidimos divertir-nos. O sentido da vida, ele próprio. Tudo. T-U-D-O. Fico algo espantado quando recebo emails - a cujos remetentes agradeço - que no mesmo parágrafo me oferecem os parabéns pelo nascimento do rebento e de seguida me convidam para um trabalho de não sei quantos dias fora de Lisboa. Agradeço a lembrança e gostava, a sério que gostava. Mas aposto que os meus caríssimos anfitriões ainda não passaram pela reviravolta alucinante na vida de uma pessoa que é a chegada de um filho. Sim, ainda se consegue ter vida pessoal (pelo menos até ao momento); consegue-se trabalhar e ter ideias e escrevê-las; não, não se tem, nem de perto nem de longe, a mesma liberdade de movimentos. A não ser que se seja um daqueles pais que acha que já fez a sua parte e deposita agora toda a responsabilidade nos ombros da mãe. E é nesta altura que entra o Vítor de Sousa recitando "meu filho, não tenho tempo": OK, esse poema poderá não ser o suprasumo da subtileza, mas a verdade é que de pais ausentes está o mundo cheio e desde já fica aqui o aviso de que, por estas alturas, aceito todo o trabalho interessante que me for proposto, mas que não me afaste muito ali do berço, da panela da esterilização e, é claro, das sublimes duas pessoas que fazem com que a minha vida tenha sentido: a minha namorada-modelo (não só porque é uma mulher deslumbrante a todos os níveis, mas porque é um modelo de recuperação pós-gravidez sem precisar de cirurgias à barriga, apenas com um precioso cuidado com a alimentação) e os dois quilos setecentos e tal de ser humano que há uns dias adormeceram a mexer-me no nariz (sim, finalmente descobri a utilidade desta penca - ALELUIA).

 

Portanto, o segredo está em formatar o nosso mundo em redor deste acontecimento bombástico, definitivo, extenuante e fascinante. A partir de terça-feira que vem recomeço com crónicas radiofónicas na Antena 3, nas Manhãs da 3, com uma série de Há Vida em Markl sobre as loucuras da paternidade e os estragos que ela já provocou (nomeadamente ao nível de um esterilizador de biberões todo XPTO que já não o é; R.I.P.). Não estarei no estúdio, estarei a emitir do local onde tudo acontece. Ao mesmo tempo, continuo a escrever material para Os Contemporâneos e crio pequenos desafios a mim mesmo que me ajudam a encarar sem queixinhas nem lamentos a dura realidade que é ter de suspender o universo de três em três horas, seja de noite ou de dia, para, com a Ana, ir fazendo do Pedro um ser humano melhor. Por enquanto, essa demanda épica ainda se vai resolvendo com relativo minimalismo (nesta fase, fazer um ser humano melhor implica, basicamente, limpar caca e dar-lhe alimento; ainda não há lugar para grandes ensinamentos para a vida - ele, com esta idade, caga neles. Literalmente.)

 

Um dos pequenos desafios recentes tem a ver com música. A música sempre foi das coisas mais importantes na minha vida. Não no sentido de a fazer ou de a cantar, mas no sentido de a consumir - eu preciso de ter banda sonora para quase tudo (excepto para fazer amor, porque me desconcentra). E achei que era essencial descobrir música adequada para me manter desperto quando, a meio da noite, tenho de cambalear até à cozinha para manusear água a ferver. Uma destas madrugadas, à conta da falta de uma banda sonora estimulante adequada, retirei um biberão de um tacho usando - muito inteligentemente - uma pinça própria para se pegar em biberões esterilizados ferventes; infelizmente, ao despejar o excesso de água a ferver no interior do biberão, fi-lo por cima não só da pinça, mas da minha mão. Não é bom.

 

De experiência em experiência, descobri o disco. É novo, é divertido, é inteligente, é cafeína musical pura, é este:

 

 

Confesso que não estava muito familiarizado com os noruegueses Datarock, até me ter cruzado com eles a meio da noite, num rápido zapping pelos canais do cabo enquanto esperava que a água para o suplemento alimentar do meu filho fervesse. E fiquei repleto de alegria. Aqui está malta que se sabe divertir, que sabe tirar partido dos excessos dos 80s e transformá-los em algo tão puramente fun como esta canção: Give it Up.

 

 

Agora há a parte geek da coisa. Estava eu a ouvir Give it Up e a pensar: "Caramba, isto há para aqui qualquer coisa de Talking Heads. Mas ao mesmo tempo não. Mas sim." Sendo os Talking Heads uma das razões porque gosto de música, a pulga ficou-me definitivamente atrás da orelha. E não é que, ao ouvir o álbum Red, dou de caras com uma canção espantosa chamada True Stories (pois!) cuja letra consiste num desfiar dos títulos das canções mais emblemáticas de David Byrne e companhia? Acabou por tornar-se no tema musical do jogo The Sims 3:

 

 

Portanto, como vêem pelo meu entusiasmo, pode-se ser pai e pode continuar-se a ser geek. É uma chama que se consegue manter viva, dentro da mais viva das chamas deste grande incêndio que é a vida.

 

Porra, esta agora foi forte!

 

P.S.: Já houve quem, no Twitter, começasse a queixar-se de que eu só falo na paternidade, com o desdém de quem se queixa de um tipo que só fala, sei lá, de um carro novo. A verdade é que, neste momento, quase duas semanas após o nascimento do meu filho, ainda não há mais nada sobre o que falar. Porque o resto parece mesmo só o que acontece nos intervalos.





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