Raul Solnado não gostava de homenagens lamechas. Estávamos, nas Produções Fictícias, a trabalhar com ele num programa especial sobre o próprio, para a RTP, e a mera palavra "homenagem" era praticamente proibida pelo Raul. Enclausurado num corpo demasiado frágil e debilitado para a imensa força criativa e o endiabrado humorista que ainda vibrava dentro do actor, o Raul continuava a ter ideias delirantes e a contar histórias com um timing à prova de idade - uma delas estava planeada para abrir o programa, com direito a reconstituição, e era a hilariante explicação para o seu profundo desprezo pelo conceito de homenagem, que data dos seus tempos de juventude, quando o pai decidiu organizar um almoço de tributo a uma das primeiras actuações do filho em palco à qual compareceram apenas ele, o pai e um amigo do pai, embora a mesa estivesse posta para dezenas de pessoas.
Antes disso, trabalhámos n'As Divinas Comédias, a série documental sobre a História do Humor da TV portuguesa, que o Raul apresenta com o Bruno e que, tristemente, acaba por ser a sua despedida. Trabalhar com ele, mesmo desta forma fugaz, foi um privilégio raro - de repente ali estávamos, em brainstorms com um ícone, um revolucionário cómico que não só foi o genuíno pioneiro do stand-up nacional, como colocou as pedras basilares de um novo humor. O material que visionámos dele, em programas como o histórico Zip Zip, O Resto São Cantigas ou mesmo na injustamente esquecida sitcom Lá em Casa Tudo Bem, mostram um cómico transversal, capaz de fazer rir os mais diversos tipos de público com a mesma piada.
O Raul já não vai poder assistir à estreia d'As Divinas Comédias, a não ser que a RTP chegue lá acima (alguém devia tratar de aumentar a potência dos satélites da RTP Internacional, que ele merece). Mas fica-me a alegria emocionada dele depois de todos visionarmos o primeiro episódio montado: "As pessoas vão gostar muito disto", disse ele. Estava feliz com aquele que, jurava ele a pés juntos e sempre sem perder o sentido de humor, ia ser, e cito, "o último trabalho que faço na vida". Em Setembro tínhamos nova reunião marcada com ele para o programa de homena... Peço desculpa, Raul - para o programa sobre a vida e a obra do artista. Ainda custa a acreditar que ele já não cá esteja. Se o programa for para a frente, Raul, vamos ter em conta as indicações cá deixadas. Nada de lamechices. Seja.
O país fica incompleto sem Raul Solnado. É como se se perdesse uma peça fundamental do puzzle que é Portugal. Quem nos vai agora pedir o favor de sermos felizes?