O meu mundo mudou quando me cruzei, na revista Empire deste mês, com um artigo sobre o fenómeno The Room. Filme independentíssimo, escrito, produzido, realizado e interpretado por um tal Tommy Wiseau, estreou em 2003 como melodrama e, todos estes anos depois, mantém-se em cinemas de vão de escada de Los Angeles mas como a mais espectacular comédia involuntária de sempre, tendo gerado um culto que não pára de crescer e esgotando a lotação das salas onde está em exibição. Eu tive de ver para crer. E ainda não acredito. The Room, o melhor pior filme de sempre desde as obras de Ed Wood, não só sobrevive ao hype; revela-se ainda melhor do que as mais delirantes expectativas do espectador. O filme conquistou, em Hollywood, um clube de fãs ilustres - os comediantes Paul Rudd (de Anchorman), David Cross e Will Arnett (de Arrested Development) e a actriz Kristen Bell (de Veronica Mars e Heroes) são dos mais fervorosos apoiantes da experiência delirante que é atravessar uma sessão de The Room. Bell conseguiu inserir uma referência a The Room num episódio de Veronica Mars e Rudd manifesta constantemente o seu sonho de fazer um remake plano-a-plano do filme, como Gus Van Sant fez com Psycho. Pagava para ver isso.
O trailer dá-vos uma ideia dos píncaros de... arte a que chega o filme que Tommy Wiseau começou por vender como melodrama na boa tradição de Tennessee Williams e que, perante o culto, vende agora como "uma comédia negra".
A história(?) de The Room é a de um triângulo amoroso. O próprio Wiseau, numa interpretação que busca a força de um James Dean mas apenas consegue fazer com que Jean-Claude Van Damme e Steven Seagal pareçam actores de Shakespeare ao pé dele, interpreta o papel de um executivo com uma vida aparentemente perfeita, vivendo com uma loura (a Sharon Stone mais barata e ruim que foi possível arranjar) que está farta dele e o trai com o melhor amigo. Pelo meio há a mãe dela, que diz casualmente a meio de uma conversa que tem cancro da mama e não mais se refere o facto no filme; um jovem adoptado pelo protagonista que não se percebe durante o filme todo se é apenas tonto ou padece de uma deficiência mental (apesar de se envolver em negócios não explicados de droga); e um casal com um fetiche por bombons. E mais, muito mais.
Alguns exemplos notáveis da inépcia em que The Room está empapado: neste, repare-se como Johnny (Tommy Wiseau) entra no terraço do seu prédio falando sozinho, negando para si mesmo que tenha batido na namorada depois de uma noite de bebedeira (a malvada espalha esse boato); note-se a subtileza como ele passa da revolta de "I did not hit her" para o casual "oh, hi Mark", ao cumprimentar o melhor amigo:
O filme está pejado de "oh, hi Marks", ou de "oh, his" seguidos de outra coisa qualquer. Um dos favoritos dos fãs é quando, durante uma cavalgada de mau diálogo entre a personagem de Wiseau e uma florista, o protagonista cumprimenta um cão com... "oh hi, doggie". Não sem que antes a florista lhe atire um "oh, hi Johnny", obviamente. Note-se ainda como a florista só reconhece Johnny depois dele tirar os óculos escuros.
Esta outra sequência também tem um "oh, hi Mark", mas o melhor vem no fim. Um amigo de Johnny (o tal do fetiche de chocolate) conta - fazendo expressões faciais que, claramente, significam que ele é o comic relief da obra - o delirante episódio em que deixou umas cuecas na sala onde fez sexo com a namorada. Tudo é magnífico, aqui: não só a narração do episódio (que vemos umas cenas antes, não se percebendo porque é que a personagem o tem de contar de novo), como a bizarria destes indivíduos em atirarem uma bola uns aos outros a tão curta distância uns dos outros, terminando com uma queda que - e é obra, isto - não fica inteiramente definido no filme se é uma queda cómica ou dramática. Percebemos é que a personagem, subitamente, parece que andou a beber - quando nada do que aconteceu antes valide essa ideia. É lindo!
E é claro que nenhum post sobre The Room estaria completo sem o destaque para a deixa que se tornou lendária: "YOU ARE TEARING ME APART, LISA!"
Alguém deixou também no You Tube um excerto de uma sessão pública de The Room que, tal como Rocky Horror Picture Show já tem uma série de regras de participação do público em momentos-chave, como este em que a mãe da loura fatal lhe anuncia que tem cancro da mama como se de uma banal constipação se tratasse.
The Room junta-se à grande galeria dos melhores filmes maus da História. É um entretenimento possante, de ir às lágrimas, e, ao mesmo tempo, um prazer quase culpado, pelo facto de Wiseau ter uma inocência quase infantil na maneira como, desastradamente, cria o seu thriller sexual. Agora, Wiseau já não se importa que se riam dele e até afirma que tudo no filme é deliberado - desde as más interpretações às falhas de lógica, passando pelos momentos em que a imagem está desfocada. Um dos elementos do elenco disse à Entertainment Weekly, no entanto, que Wiseau simplesmente virou o fiasco a seu favor, ao dizer agora que o filme é uma comédia, já que, quando o estava a fazer, ele estava plenamente convencido não só de que tinha em mãos um poderoso melodrama, como também um showcase para os seus arrebatadores dotes de actor.
The Room existe em DVD de região 1 e vale o dinheiro que custa. Mas é difícil de encontrar, pelo que se aconselha uma busca por torrents, Rapidshares e afins usando as palavras-chave "Room", "Wiseau", "dvdrip". É apiratado, mas um culto destes vive da partilha.