Eu sei. Eu sei que gostos não se discutem. Eu sei que se deve respeitar a opinião de toda a gente. Mas desta vez, mais do que nunca, e perante algumas azedas críticas que o novo filme de Quentin Tarantino, Sacanas Sem Lei, tem recebido em Portugal, eu tenho de dizer isto - e não me importo que me levem a mal e que me insultem: não percebo, juro que não percebo, como é que cinéfilos com um mínimo de informação, sentido de humor e inteligência podem correr Inglourious Basterds a estrelas solitárias e a dizer cobras e lagartos de um filme tão cinéfilo, tão inventivo, tão divertido como este. E perdoem-me uma vez mais, mas depois de ler, pelo menos umas três vezes, em publicações diferentes e debitada por críticos diferentes, a mesma ideia - que o problema de Tarantino é o estar estagnado numa adolescência criativa - ocorrem-me duas reflexões: a primeira, é que está visto que há um toque fashion em usar tal argumento para arrasar a obra do cineasta e que se confirma o lugar-comum do "agora-já-não-é-fixe-para-um-crítico-diz
Eu acho que vale mais um tipo manter uma adolescência criativa aos 46 anos do que uma secura crítica em idade mais jovem. Inglourious Basterds, para mim, é uma obra-prima e valeu a escapadela ao cinema em época de gripe A. Correspondeu inteiramente às expectativas, indo precisamente em sentido contrário a todas elas (o que, para espectadores mais incautos, será motivo - mais compreensível - de desilusão). Não é um filme de acção, não é um filme rápido, não é exactamente um filme de guerra, sequer. E não é um filme de citações - ao contrário do esperado, Inglourious Basterds nem sequer vai beber assim tanta inspiração às fitas série B de war-sploitation como o Inglorious Bastards de Enzo Castellari. Em vez disso é, possivelmente, o filme mais incatalogável de Quentin Tarantino, uma celebração cinéfila que leva o espectador a pensar que vai ver sequências alucinantes de acção com milhares de figurantes e que, no fim de contas, vai concentrando a sua palavrosa acção, progressivamente, até juntar todos os peões da guerra, de forma desconcertante, no mais inesperado campo de batalha jamais mostrado num filme: um cinema!
Mais não se conta, para não estragar. Apenas se deixa aqui a dica: Sacanas Sem Lei tem uma daquelas revelações que acontecem uma vez em muitos anos e dá pelo nome de Cristoph Waltz. O desconhecido actor austríaco, popular apenas na sua terra natal onde faz, acima de tudo, televisão, dá um considerável baile a todo o restante elenco (que, apesar disso, vai muitíssimo bem), incluindo o cabeça de cartaz, Brad Pitt. O oficial nazi Hans Landa, "caçador de judeus", é, simplesmente, a melhor personagem que Tarantino já criou - e, sim, estou a contar com o mercenário religioso de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction. O texto que o argumento lhe dá é grandioso, mas Waltz dá uma dimensão estrondosa a Landa, numa interpretação hipnótica e fervilhante de detalhes: cada pausa, cada mudança no olhar, cada gesto, cada palavra - raios, cada músculo, por pequeno que seja, que Christoph Waltz põe ao serviço desta criatura tão afável e educada quanto abjecta e mortífera, faz do Coronel Landa uma figura para a História do Cinema e, se houver justiça neste mundo, fará de Waltz uma das maiores e mais requisitadas estrelas do cinema mundial. Ele merece, e de que maneira.
Sacanas Sem Lei tem um cinema de bairro, a magia da sala de projecção, uma apaixonada utilização do celulóide e até tem um ou dois temas de Ennio Morricone. É uma espécie de Cinema Paraíso, portanto. Só que com balas, facadas, suásticas desenhadas na testa com lâminas, crânios desfeitos à paulada, litradas de sangue, humor negríssimo e mortes inesperadas. Com tudo isto, é dos filmes mais inteligentes e sensíveis dos últimos anos...