Nota: os logotipos que ilustram este post foram criados ontem à tarde por fãs na minha página do Facebook. Foi uma verdadeira jam session gráfica!
No fim dos anos 80 trabalhei numa rádio pirata chamada Voz de Benfica que, entre outras características, tinha a particularidade de, quando queríamos fazer um jingle com efeito de eco termos de o ir gravar para a casa-de-banho. Mais: o sinal horário era accionado à mão (era um botão vermelho que, chegando à hora, tínhamos de premir um número não definido de vezes; frequentemente esquecíamo-nos do sinal horário, noutras vezes alguém pousava distraidamente a mão sobre o botão vermelho durante uma emissão, não percebendo que, dessa forma, estava a oferecer aos ouvintes não apenas música mas um apito contínuo irritante). Essa experiência, juntamente com o conhecimento que tenho das rádios locais também por ser ouvinte delas e do estilo inconfundível que muitas ainda hoje têm, de forma militante e irredutível, está na base da minha nova rubrica da Antena 3, Talismã FM: a recriação o mais fiel possível de uma rádio local parada no tempo, algures numa zona indefinida do país (aparentemente no centro) chamada Sobralinhos de Alhambra. Não é uma radionovela como era o Perdidos no Éter; o conceito da rubrica é que, durante breves minutos, a emissão da Antena 3 é ocupada por uma ligação a esta pequena rádio que ainda acha que é com efeitos de eco e instrumentais dos Space e de Jean-Michel Jarre que se conquista um auditório.
Fazer a Talismã FM tem sido das coisas mais divertidas que fiz na rádio, já que a nossa ambição, minha e do César Martins, o sonoplasta que, como habitualmente, produz os episódios com o seu gigantesco talento (que já esteve ao serviço de Perdidos no Éter e O Livro dos Porquês), é ser absolutamente perfeito nas imperfeições que esta estação emissora tem. Este deve ser o único projecto em que dou por mim a dizer ao César coisas como "ainda não está suficientemente mau, o som; piora um bocadinho mais, por favor". Nesta rubrica, forma e conteúdo cruzam-se como nunca e o filtro "sujo" escolhido pelo César para criar o ambiente sonoro consegue dar um incrível impacto às piadas. Ouvir a gravação limpa, sem o filtro "microfones-e-emissor-baratos-de-198
Quer isto dizer que a partir de 4ª feira, há um momento perigosíssimo na Antena 3 em que um ouvinte mais incauto poderá achar que se enganou na sintonia, tal é o rigoroso e obsessivo trabalho de ruindade sonora que andamos a levar a cabo. Saúde-se a coragem do José Mariño, director da Antena 3, em dar tempo de antena à nossa pequena mas empenhada rádio local! Já criámos anúncios ("compromissos comerciais", na verdade), excertos de programas diurnos e nocturnos, rubricas, programas religiosos, astrológicos... e isto ainda é só o começo.
Outra coisa que já temos é um "ID" gravado por uma vedeta. Ontem o mítico Roberto Leal foi à Antena 3. Expliquei-lhe o conceito da Talismã FM e ele gravou uma daquelas mensagem "olá, eu sou o Roberto Leal", completamente dentro do espírito da rubrica. Hão-de a ouvir pelo meio de um dos episódios, um dia destes. E hão-de aparecer mais vedetas reais lá pelo meio, convivendo com as vedetas fictícias da rádio.
As vedetas fictícias da rádio, as vozes que abrilhantam as emissões da Talismã FM... são, na verdade, as mesmas que abrilhantam as emissões da Antena 3. Só que expondo o seu lado mais pirata e com alguns retoques dados em pós-produção pelo César. Eu já me transformei em vários cromos (incluindo um estranhíssimo vidente chamado Mestre Banzu), mas o Luis Oliveira, a Joana Dias, o Jorge Botas e o José Mariño também já mostraram todo um lado desconhecido, ao gravarem alguns "compromissos comerciais" para a estação.
No meu estaminé do Facebook podem ouvir uma amostra da rubrica, e, se acompanharem o que aconteceu lá durante a tarde de ontem, vêem a colecção completa de logotipos feitos por fãs e um video explicativo da coisa, entre outras informações. A Talismã FM começa na quarta-feira que vem e depois passa de 2ª a 6ª às 9h15, 14h15 e 17h15, na Antena 3. Como acontece com todas as rubricas da rádio, a obra deve depois ser transformada num podcast, para quem não puder ouvir em directo ou quiser repetir a tortura!