Ontem foi um daqueles dias. A minha Jamie, fiel companheira desde há 12 anos, partiu, acredito eu, para o Grande Paraíso dos Cães (não sei porquê, mas ouço sempre a música Pepperland, que o George Martin compôs para a banda sonora do Yellow Submarine quando penso no Grande Paraíso dos Cães). A razão porque consegui, hoje, na rádio, não transparecer nada da tristeza e das saudades que sinto é porque, primeiro, chorei tudo ontem e não foi pouco; e depois porque há meses que a saúde da Jamie se estava a deteriorar a um ponto extremo. A morte parecia ter-se esquecido da minha velha amiga e ela, muito longe de ser a boa velha Jamie que entrou na minha vida e na da minha ex-mulher, Anabela, em 1997, transformava-se numa genuína personagem canina de um filme de Tim Burton: uma cadela-zombie - e digo isto com todo o amor e admiração que tenho pela Jamie. Toda a gente me dizia que se o Guinness Book tivesse descoberto a Jamie, ela já lá estava imortalizada naquelas páginas.

 

A teoria mais realista aponta para que a super-rafeira Jamie tenha vivido quase duas décadas. Mas perante o sofrimento e a indignidade dos últimos tempos de vida, não tivemos outro remédio senão fazer o que mais custa, mas o que era menos egoísta e mais humano: proporcionar-lhe uma partida serena, relaxada, mas que me arrasou completamente. Sim, já não era a velha Jamie - mas, que diabo, era. E nunca mais a vou ver. E isso dói como o caraças.

 

À noite, estive na ante-estreia de O Sítio das Coisas Selvagens, de Spike Jonze. É, provavelmente, o melhor filme que se fez sobre a infância, construído com um detalhe, um amor e uma ausência de lamechice (apesar de toda a sala estar a lacrimejar, no final) que fazem desta adaptação do fantástico livro infantil de Maurice Sendak, uma obra que devia existir em todas as casas, essencial para ser vista por crianças e por pais, porque está lá tudo. Obviamente, um filme que fala sobre afecto entre um humano e criaturas peludas não será a coisa mais animada para ver no dia em que me despedi da Jamie - mas, por outro lado, houve ali quase um tributo involuntário. Rafeira até à medula, vira-lata e, nos seus tempos áureos, muitíssimo brincalhona, a Jamie podia, perfeitamente, ser uma daquelas wild things.

 

Há umas coincidências interessantes sobre a passagem da Jamie pelo meu mundo. Ela apareceu em Janeiro de 1998, estava eu na Comercial e O Homem Que Mordeu o Cão a dar os seus primeiros passos. Outros primeiros passos na altura: os da vida realmente adulta. Eu estava recém-casado, vivendo na primeira casa própria. A Jamie representou mais um pedaço das novas responsabilidades: eu já gostava de cães, cães já tinham passado pela minha vida, mas ali estava agora o meu cão, a ensinar-me a preocupar-me a sério com outras criaturas do planeta que não apenas os humanos. Graças à iluminação Jaminiana, acendeu-se o meu interesse pelos movimentos de defesa dos direitos dos animais, pela ajuda a instituições dessa natureza. Há que estar eternamente grato à Jamie por isso.

 

A Jamie foi-se embora noutro Janeiro, o de 2010 - estou eu de regresso à Comercial e uma outra rubrica, A Caderneta de Cromos, a dar os seus primeiros passos. Já lá vai a responsabilidade de início de vida adulta, quando ela apareceu; ela deixa-me no momento em que me estreio - e, até ver, com algum sucesso e competência! - noutra responsabilidade: a de ser pai. Provavelmente são tudo coincidências, mas que se lixe. Não faz mal nenhum pensar que a Jamie andou por cá com uma agenda, fez o seu trabalho e, como o anjo do filme Do Céu Caiu Uma Estrela, agora ganhou as tais asas e foi à vida dela.

 

Foi a minha musa Ana quem acompanhou a Jamie nos últimos minutos de vida e assegurou que a idosa cadela adormecesse em paz. O facto dela ter lá estado com a Jamie, só me faz gostar da Ana ainda mais - e ficar furioso comigo próprio por não ter adiado tudo o que tinha para fazer ontem à tarde para estar lá também. A Anabela era impossível estar, já que está a viver no estrangeiro, mas sei que os pensamentos dela estiveram com a velha Jamie.

 

À tarde, tive tempo para me despedir dela, para lhe dar festas e agradecer-lhe estes 12 anos. Reagiu com a desorientação dos últimos tempos, como se fosse só mais um dia e mais uma mão indiferente a tocá-la. Depois de me despedir da Jamie, fiz a viagem de comboio pela Linha de Cascais, até Lisboa, a tentar - em vão - conter as lágrimas. Tive esperança que, se alguém olhasse, pensasse só que eu estava constipado ou com um ataque particularmente violento de sinusite. E depois, defequei de alto nas aparências e pensei que era merecido que alguém me visse naquele estado. A Jamie já andava noutra dimensão e não reconhecia os donos, tentava morder e assustava-se sempre que alguém lhe tocava, independentemente de quem fosse - mas, ainda assim, eu devia ter lá estado. Tarde demais para lamentar isto. E estou feliz pela Ana ter lá estado. Fica-me o consolo de ter feito o meu melhor, nestes 12 anos, para assegurar que nada faltou à Jamie. Se alguma vez a refeição foi dada mais tarde ou mais mal servida, as minhas desculpas, Jamie! Mas acho que foi uma bela vida... 

 

É para a Jamie que vai esta dedicatória: o muitíssimo apropriado tema musical principal de Where The Wild Things Are, All is Love, pela Karen O. Sim, a Jamie vai para o Grande Paraíso dos Cães, mas quer-me parecer que esse belo e verdejante condomínio fica num bairro algures no Sítio das Coisas Selvagens.

 

Boa viagem, Jamie. E obrigado por tudo.

 

 





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