O dia de ontem começou com as celebrações da 100ª edição da Caderneta de Cromos, a minha rubrica da Rádio Comercial. Cumpri o prometido de forma surpreendentemente ágil: tinha jurado ao vasto auditório que iria comemorar os 100 cromos fazendo rodar 100 vezes um dos lendários limões de plástico populares no fim dos anos 70, princípio de 80s, à volta do meu tornozelo, enquanto os meus colegas - Pedro Ribeiro, Vanda Miranda e Vasco Palmeirim - enunciavam, por cada volta do limão, o título de cada uma das 100 edições da rubrica. O limão - e a reportagem video que se segue - foi gentilmente cedido pela Mónica Albuquerque, uma fã tão dedicada da Caderneta de Cromos que, se um dia fizermos a CadernEXPO, a grande exposição de pedaços das nossas infâncias e juventudes, ela será o nosso Joe Berardo. A Colecção Albuquerque, que a Mónica vai revelando em inúmeras fotografias na página oficial da Caderneta de Cromos no Facebook, é de uma riqueza ímpar, incluindo brinquedos, livros e gadgets que quase todos tivemos e que há que tempos que não víamos.
A Mónica filmou o momento em que, no ar, em directo, para todó Portugal, eu abracei - ao som, inevitavelmente, de Chariots of Fire - o desafio de dar 100 voltas com o limão. Praticamente em jejum, à excepção de um pedaço de bola de berlim. Apesar de um ligeiro e quase invísivel percalço, a coisa correu bem. Peço que atentem e se deixem banhar na emoção que os meus colegas emanam ao gritarem os títulos dos 100 cromos da Caderneta:
Foi bonito de se ver. Só faltava Eládio Clímaco a relatar este momento que, para ser digno de comparação com uma edição dos Jogos Sem Fronteiras, só precisava de envolver uma piscina.
À tarde, ficou gravado o primeiro episódio da saga de webisódios Asfalto Morninho, uma aventura da vida real que acompanha todo o meu processo de aprendizagem do maravilhoso mundo da condução automóvel. Achei que era interessante, depois de tantos anos de militância anti-carro, eu imortalizar, num verdadeiro docudrama, a minha saga de tirar a carta. Ou de chumbar. Seja como for, a série vai mostrar tudo - as vitórias, os falhanços, os embaraços, tudo. Vai ser a coisa mais emocionante envolvendo carros desde o Knight Rider. Neste momento ainda só está disponível um teaser explicativo, mas em breve poderão ver o episódio 1.
Maravilhosamente surreais foram os acontecimentos de fim de tarde, num centro comercial aqui da minha zona. Quando passeamos os três - eu, a Ana e o Pedro - depressa nos apercebemos que suscitamos o interesse e a simpatia das mais diversas pessoas e temos targets diferentes: a Ana - para além do vistaço que faz por ser a Deusa que é - atrai pessoas de alguma idade, fiéis seguidoras do Jogo Duplo; eu atraio pessoas mais jovens, ouvintes das minhas rubricas radiofónicas e seguidoras do Facebook, Twitter e do blog; o Pedro atrai, basicamente, toda a gente que tenha um mínimo de entusiasmo por bebés. Aqui para nós: fizemo-lo bem, perfeitinho e encantador, e com um poder de sedução gigantesco.
Uma senhora na casa dos 50 aproxima-se de nós, encantada com o bebé, e por fim dispara: "Muitos parabéns pelo seu papel no filme. Eu não gosto de nada do que faz, mas no filme está tão natural, gostei muito. Vai-me desculpar, mas não aprecio nem acompanho o que faz, porque gosto nada de programas da treta, mas adorei vê-lo n'A Bela e o Paparazzo."
Confesso que fiquei com vontade de dizer: "Não aprecio nada o seu cabelo, mas adorei o elogio." Em vez disso, digo: "Mas eu acho que nem me vê muito em programas da treta. Eu faço mais é rádio". Diz a senhora, depois de uns segundos de confusão: "Mas na rádio o senhor é mais sério". Perante isto, na minha mente passa um flashback da minha actuação matinal, fazendo um limão girar 100 vezes à volta do tornozelo enquanto os meus colegas gritam.
Preparo-me para pagar o lanche da família, na caixa do bar onde abancámos, quando uma jovem simpática, chamada Mariana, se aproxima de mim e me pede um autógrafo. A senhora que me está a cobrar o lanche diz, num forte sotaque brasileiro: "Mas quem é o senhor? É famoso? Porque está dando autógrafo? Quem é ele? Quem é ele?". Eu tento despachar a situação dizendo "faço umas coisas".
A Mariana explica quem eu sou. E de repente, todas as atenções estão sobre mim, naquele estabelecimento de sandes. Atrás do balcão, cada uma das quatro empregadas tem a sua teoria sobre o que eu faço, mas ninguém tem bem a certeza. Uma delas afirma: "É um que faz rir". Outra afirma: "Toda a gente sabe que é júri dos concursos de dança". Ainda outra, e sem dúvida o meu palpite favorito de todos: "É patinador".
Pelo meio da confusão, tento ouvir a Mariana, que diz que adorou o filme e que, tal como a personagem da Soraia, chama-se Mariana Reis. Enquanto tento explicar à Mariana, no meio da confusão que se gerou no bar, a origem dos nomes do argumento d'A Bela e o Paparazzo (na verdade são nomes de pessoas que o argumentista do filme, o Tiago Santos, conhece, entre amigos e família), constato que um senhor de idade se aproximou da Ana e do Pedro. O Pedro sorri para o senhor e este pega-lhe ao colo por uns momentos, antes de sacar de um espesso maço de notas da algibeira e dizer: "Ele já tem mealheiro?". Nós tentamos demover o senhor de oferecer dinheiro ao filho de estranhos como se fosse avô dele, embora agradecendo a simpatia, mas o senhor insiste ao ponto de começar a achar quase ofensiva a nossa recusa, deposita 10 euros nas mãos do confuso Pedro e vai-se embora, fazendo ouvidos moucos às nossas incessantes tentativas de recusar amavelmente o dinheiro.
Tudo isto aconteceu de forma imparável e foi divertido, embora eu queira acreditar piamente que aquele senhor do maço de notas faz isto também com bebés que realmente precisam. Foi divertido, claro está: excepto a parte em que o Pedro deu um safanão numa chávena de café bem quente para cima das minhas calças. Coisas que acontecem.