Fiquei hoje a saber por um ouvinte que a cadeia de videoclubes Blockbuster prepara-se para ser transformada num potencial cromo da Caderneta de Cromos que faço todos os dias na Comercial (no sentido de passar a vir precedida da expressão "lembras-te?..."). Aquele que já foi um verdadeiro templo de culto devoto vai abandonar Portugal devido a um forte declínio no volume de negócios. De facto, visitar uma das cada vez menos lojas Blockbuster de Lisboa e arredores era uma experiência deprimente, mesmo ao fim-de-semana. Percebemos quando as coisas estão mal, a partir do momento em que não só é possível alugar, á vontadinha, os lançamentos mais apetecíveis da temporada, como conseguimos ler nos olhos dos empregados que seria óptimo se fizéssemos o favor de o fazer.

 

A sensação é bizarra. Por um lado, lembro-me de olhar para a Blockbuster como a cruel responsável pelo extermínio dessa instituição da nossa juventude que era o videoclube de bairro, nos dias gloriosos do VHS. Por outro - e como acabei por ceder e ser um activíssimo sócio, primeiro do Blockbuster das Amoreiras e depois do de Benfica - a verdade é que o ritual de passear por estantes e estantes de cinema do mais variado ouvindo o meu caro Aurélio Gomes publicitar os últimos lançamentos através dos altifalantes da loja, o ritual de rezar a todos os santinhos para que lá houvesse pelo menos uma cópia disponível de Fargo, o entusiasmo histérico de perceber que, apesar de não haver nenhuma cópia nas prateleiras, um sócio acabou de entregar uma no balcão - tudo isso está prestes a desaparecer das nossas vidas. A gente não se importa: hoje em dia os canais de cinema e os videoclubes virtuais de ZONs, Meos e afins permitem-nos ver tudo aquilo que encontraríamos nos escaparates da Blockbuster sem termos de levantar o rabo do sofá. E, claro, haverá sempre, e de forma cada vez mais descontrolada, a pirataria.

 

Mas a questão é essa: cada vez andamos a levantar menos o rabo do sofá - e agora já nem sequer para passearmos pelas avenidas de caixas vazias da Blockbuster a ler partes de trás de capas e para comprarmos pacotes de gomas e pipocas para acompanhar a fita quando voltarmos para o sofá. Acho que vou ter saudades. O Álvaro Costa dizia outro dia uma coisa parecida com esta e eu subscrevo: num mundo cada vez mais digital, uma pessoa dá por si a ter uma certa vontade de ser mais analógica.

 

(E sim, sempre achei que eles deviam ter uma secção para adultos. Se calhar hoje em dia não estavam a passar tão mau bocado - Portugal ainda é, apesar dos brandos costumes, um país de bons tarados!)





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