Esta semana não haverá edições novas da Caderneta de Cromos, na Rádio Comercial; e nem eu, nem a minha irmã apresentaremos A Rede, o nosso magazine do Canal Q (à excepção do programa que irá para o ar amanhã, segunda-feira, que foi gravado na sexta). Neste triste domingo de Páscoa perdemos o nosso pai, vencido que foi pela doença com que se debateu nos últimos tempos. Devia prestar-lhe uma digna homenagem neste espaço, mas neste momento é difícil articular uma única ideia de jeito. Apenas vos digo que muitas recentes edições da Caderneta têm sido quase um tributo instintivo ao meu pai: foi ao lado dele, no sofá da nossa casa de Benfica, que vi muitas das séries televisivas de que tenho falado; foi com ele que experimentei muitos dos brinquedos que têm sido tema de várias edições da minha rubrica; foi ele o duende agente secreto que, todos os Natais, organizava para mim e para a minha irmã a mais complexa operação de prova da existência do Pai Natal. Cioso do seu mundo, vivendo praticamente dentro dos quadros clássicos que estudou e perdido nas estimulantes batalhas das inúmeras partidas de xadrez que jogou, ao som de uma telefonia sempre sintonizada na Antena 2, mesmo que o velho Dagoberto não tenha sido, por vezes, o mais presente dos pais, constato agora que esteve em momentos suficientes para que, neste momento, eu me sinta invadido por uma gigante tristeza e saudade. A minha irmã recordou-me hoje algo que ele disse há muitos anos: que no dia em que morresse, preferia que nos ríssemos em vez de chorar. Isso é impossível, mas pelo menos conto regressar ao humor desta segunda a oito. Sendo que foi dele que herdei o sentido de humor e o gosto por fazer rabiscos, retomar o meu ofício será a melhor homenagem que lhe poderei fazer.
Comunista convicto a vida toda e tremendamente céptico no que toca a religião e algum esoterismo, o meu pai nunca negou que tinha uma tremenda curiosidade e interesse pelo que pudesse haver no outro lado. Espero que lá haja alguma coisa, que esteja de acordo com as expectativas dele e que ele esteja feliz a descobri-la.
Até um dia destes, pai.