Reza a sabedoria popular que quem anda à chuva molha-se. Eu sei disso, e sei que a partir do momento em que tenho um blog e recantos nas redes sociais do Facebook e do Twitter, as coisas que lá ponho, não deixando de ser pessoais, passam a ser de quem as apanhar - e muito tem sido apanhado por jornais e revistas dos posts que deixo espalhados por aqui e por ali - geralmente acompanhadas de um "de acordo com o que escreveu no seu blog". Por isso, não protestarei se alguma coisa que eu aqui diga se tornar notícia; poderei argumentar que, quando aprendi jornalismo, o tipo de coisas que eu partilho com quem acompanha o que faço, estava longe de ser considerado material digno de encher páginas de jornal. Mas o mundo mudou bastante desde que aprendi jornalismo, nos idos de 90-91. Tanto assim que uma disciplina que não tive, na minha aprendizagem do ramo, foi a de Clicagem do Botão Refresh do Browser, uma especialização que, constato, muito jovem jornalista tem hoje em dia. No tempo em que aprendi jornalismo, jornalistas, repórteres, saíam, de facto, das redacções. Faziam reportagens. Pesquisavam. Mas a ver pela quantidade de material do meu blog que já foi usado pelas mais variadas publicações, e pela rapidez com que esse material foi transformado em "notícia", há jornalistas, hoje em dia, cuja grande arte é passar uma tarde a fazer refresh no Firefox / Explorer / Safari, a ver quando sai post novo e relevante (hei-de experimentar escrever um sobre o funcionamento dos meus intestinos, só para testar até onde vai o interesse jornalístico do meu mundo).

 

Algumas horas depois do meu pai falecer, na semana passada, escrevi um post - podem lê-lo abaixo - onde assinalo o facto de forma emocionada e visceral. É claro que não estranhei quando algumas publicações citaram esse post - mas aí é que está: citaram é a palavra-chave, aqui. O 24 Horas, por exemplo, dedicou uma página ao assunto, ilustrada com pedaços do meu post e referindo a origem dessas citações. A Lux enviou um paparazzo ao funeral do meu pai e fotografou-me família, amigos e uma perturbante imagem gigante do caixão saindo da capela. Gosto discutível, sensação de devassa de um momento pessoal - mas, de certa maneira, compreensível (quem anda à chuva molha-se, lá está). Nesse artigo complementaram-se as fotografias com excertos do meu post aqui de baixo, mas sempre citando a origem desses pedaços de texto.

 

O que me custou muito a compreender foi o que fez a Nova Gente.

 

 

Numa secção da revista dramaticamente intitulada "A Dor..." (assim mesmo, com reticências; não percebo se para efeito poético ou para deixar um espaço em branco para preencher, semanalmente, quem são os diferentes doridos), o texto integral que aqui escrevi sobre a morte do meu pai surge numa coluna toda jeitosa com o título "A Carta Aberta da Semana", com uma fotografia minha e, rematando todo um conjunto de espectacular gosto tendo em conta o assunto do texto, uma outra foto minha e da minha namorada Ana, por coincidência vestidos de preto (conveniente) mas à saída da maternidade, em Junho passado, sorrindo alegremente e segurando o ovo onde estava deitado o Pedro. O mau gosto de tudo aquilo que está impresso é o menos; cada um tem o gosto que tem e nem todos podem nascer com o dom da sensibilidade. O mau gosto profundo e imperdoável está na maneira como, com uma falta de respeito, de consideração, dos mais elementares mecanismos da vida em sociedade; em suma: de decência, pura e simples, a Nova Gente estampa a homenagem que aqui fiz ao meu pai naquela página não se preocupando nem em pedir-me permissão pela publicação do texto integral, nem fazendo a mais pequena referência ou enquadramento sobre de onde o tirou. Quem veja aquela página da Nova Gente pensa o que pensaram algumas pessoas com quem falei e que viram esta edição da revista: que escolhi a Nova Gente como nobre plataforma para a despedida do meu pai. Que, eventualmente, lhes dei ou vendi o exclusivo da minha dor. Não há nada naquela página, naquela coluna, que explique que aquilo foi um texto publicado num blog pessoal.

 

E era tão simples, o que eles deveriam ter feito: primeiro, um pedido de autorização da publicação do texto; mas acima de tudo, uma referência do local de onde o tiraram. Era só. E nessas condições, se calhar, eu até lhes tinha dito que sim senhor. Mas o "jornalismo" da era do refresh já nem isso faz; limita-se a pilhar, a roubar por esticão, independentemente do enquadramento, da tragédia, de tudo. Parte do ordenado de um "jornalista" da Nova Gente paga um simples copy+paste (bons empregos!) - e, de repente, o meu texto pessoal, publicado no meu blog pessoal, sobre um acontecimento tão pessoal como a morte do meu pai, passa a ser um texto de uma coluna da Nova Gente.

 

É abjecto. E sim, quem anda à chuva molha-se. Mas mesmo quem anda à chuva ainda acredita que, no meio de todas as gotas da chuva, ainda surja um ou outro pingo de elementar decência. Parece que na Nova Gente não usam disso, mas quero acreditar que ainda terão um resto perdido numa gaveta que lhes permita, pelo menos, apresentar um pedido de desculpas e um esclarecimento numa próxima edição.





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