Não se pode dizer que eu seja um tipo de Azar. Com A maísculo. Tenho uma família que amo, tenho a profissão que sempre sonhei ter e vivo dela, não tenho razão de queixa da minha vida - é razoavelmente abençoada. Agora, tenho é azar. Com A pequeno, como os chihuahuas. Que é um cão minúsculo mas implicativo - e esse tipo de azar implicativo, isso tenho com fartura. E, de certa forma, ainda bem - é este tipo de coisa que acaba transformada em material de comédia embora, enquanto está a ser vivido, seja incrivelmente maçador. Mas é admirável, a qualidade da pequena chatice em que me meto. É admirável, porque é como que uma delicada filigrana de merda - situações que parecem cuidadosa, delicada e detalhadamente criadas para me chatear, completas com cereja no topo.

 

Veja-se o que sucedeu hoje. De manhã, um clássico: não encontro a chave de casa em lado nenhum. Apertado de tempo, não vejo outra alternativa senão usar a chave da Ana para abrir o único portão que temos - que é automático e lento, o que deve ser emocionante em caso de incêndio - e depois atirar a chave sobre o muro para que a Ana possa ficar com ela e sair de casa.

 

Vou à minha vida.

 

No caminho, decido enviar uma SMS à Ana dizendo-lhe que não se inquiete por não ver a chave dentro de casa. Explico que não encontrei a minha e que usei a dela para sair, tendo atirado a dita para o quintal.

 

A mensagem dá erro. E outro erro. E outro. E outro.

 

Tento fazer uma chamada e sou brindado com a doce voz gravada de uma senhora que me diz que até regularizar a minha situação de pagamento em falta, estou impedido de fazer chamadas ou enviar SMS. "Belo", penso eu, imaginando a Ana, atrasadíssima para sair de casa, procurando a chave por todos os lugares óbvios excepto onde ela está - caída algures na relva, perto do portão.

 

Felizmente, está ali o Nuno Santos, motorista da Rádio Comercial e o homem que todas as manhãs me leva à rádio - não num esquema de mordomia, calma; é que ele mora ao pé de mim e vai para a rádio à mesma hora, por isso é uma feliz coincidência. Uso o telemóvel dele para ligar para a Ana e resolvo esse primeiro obstáculo do meu dia.

 

No fim de um longo dia de trabalho - que incluiu uma gravação especialmente tardia do ShoWMarkl e em que tive de estar nu com um balde na cabeça - regresso a casa, aproveitando uma agradável boleia do meu bom amigo Pedro Ribeiro, que mora na minha zona e foi convidado do programa. Na recta final da viagem liga-me o Bruno Nogueira, que tem um iPad novinho em folha e está a explorar as suas potencialidades com a alegria de uma criança com um brinquedo novo.

 

Mal imagino eu que Nogueira será o meu anjo da guarda numa situação notável de acumulação de fezes.

 

À porta de casa, digo a Bruno: "Dá-me só um instante para abrir o portão."

 

Recordo-me: não trouxe chave.

 

Digo a Bruno: "Dá-me só um instante para tocar à campainha."

 

Recordo-me: a campainha está avariada há semanas, tocando só quando lhe apetece. Evidentemente que, nesta situação, seria bom demais se tocasse.

 

Começa a chover.

 

Digo a Bruno: "Deixa-me só ligar à Ana para que ela me abra a porta e já falamos."

 

Recordo-me: estou impedido de fazer chamadas e enviar SMS até regularizar a situação.

 

Chove de forma consistente. Não há uma única zona na minha rua onde me possa abrigar.

 

Digo a Bruno: "Bruno, faz-me um favor: liga à Ana para que ela me abra a porta."

 

O Bruno desliga.

 

Recordo-me: a minha conta e a da Ana são em pacote e ela também não pode fazer chamadas devido à conta por pagar. Pode recebê-las mas...

 

Recordo-me: ela disse-me que ia sair de casa para ir à Optimus regularizar a situação.

 

Recordo-me: ela disse-me também que hoje estava sem telemóvel; não o usou por não poder fazer chamadas.

 

O Bruno liga-me de volta: "A Ana não me atende o telefone."

 

Chove com mais força.


Digo a Bruno: "Vou abrigar-me debaixo de uma ponte que há ali à frente e pensar o que fazer."

 

Tão perto de casa e no entanto, tão longe.

 

Diz o Bruno, rindo alarvemente: "Então e se saltasses o muro?"

 

Para aceder ao meu muro - defendido por uma valente e alta chapa de ferro - preciso de escalar o portão da vizinha. Se alguém me vê, de blusão preto com capuz a escalar um portão alheio, temos sarilho.

 

Opto por albergar-me sob a finíssima ponte de peões. Chove-me em cima na mesma.

 

Recordo-me: a ama do Pedro está em casa.

 

Digo a Bruno: "Vou dar-te o número de telefone da Mariana, a nossa ama búlgara." Friso: "O sotaque dela é porque é búlgara."

 

Não sei por que raio preciso de dar esta dica ao Bruno. Ele diz que vai ligar-lhe de outro telefone e eu ouço a conversa.

 

"Está? Mariana? Olhe, daqui fala um amigo do Markl. Ele não consegue entrar e está aí fora, à porta. Nu."

 

Tinha de acrescentar uma gracinha, raça do gafanhoto. Ser amigo de humoristas é uma coisa muito cansativa.

 

Chove-me em cima.

 

A chamada termina, o Bruno volta a falar-me, no tom confortável de quem está no aconchego do lar a brincar com o seu iPad enquanto lá fora chove e outras pessoas estão há cerca de 20 minutos impedidas de entrar na sua própria casa: "Markl, ela respondeu 'tá bem, tá bem', mas não percebi se não era um 'tá bem, tá bem' sarcástico, de quem acha que está a ser gozada e não vai fazer nada."

 

Digo a Bruno: "Disseste 'Markl' e ela não me conhece por esse nome. Devias ter dito 'Nuno'. Ela não sabe quem é o 'Markl'. Ela julga que foi uma chamada de engano."

 

E, de facto, o portão mantém-se fechado. E a chuva continua a cair-me em cima.

 

E eu encharcado, no meio da rua. Na mão, apenas uma caixa com a 1ª temporada de Glee, que me foi oferecida hoje e que é o tipo de objecto que pode valer que alguém, num carro que passe, grite "MARICONÇO!".

 

Por fim, a porta abre-se. Nogueira salvara-me. A Mariana não percebeu bem o que se passava mas, destemida, resolveu arriscar e abrir o portão, correndo o risco de encontrar um Markl nu, fosse lá o que isso fosse. Vejo-a à porta, com o meu filho ao colo e penso, aliviado: "Estou em casa."

 

Explico a Bruno o que se passa, quase de lágrimas nos olhos.

 

Noto uma ligeiríssima frustração na voz de Bruno - penso que, por ele, isto podia ter continuado noite fora.

 

 

 

 





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