A pedido de várias famílias - e porque daqui a algumas horas o meu texto, bem como o dos restantes cronistas, é bem capaz de estar a embrulhar peixe ou a forrar caixotes de lixo nas cozinhas de Portugal - eis o meu balanço de Fevereiro, feito a convite do DN e publicado na edição de hoje: FOI O FIM DO MUNDO Antes de mais, perdoem-me eventuais imprecisões neste balanço: tenho uma vaga memória do que aconteceu ontem, pelo que será ainda mais difícil que me lembre exactamente do que se passou em Fevereiro. Houve um tempo em que me lembrava, mas creio que as actuais falhas de memória não têm (ainda) a ver com a idade. Acontece que hoje é tudo muito mais rápido e descartável. É como se, há vinte anos, Deus tivesse que se levantar do seu divino sofá para ir mudar de canal e hoje possuísse um comando à distância que não o deixa parar de fazer “zapping”. Dizem-me que, em Fevereiro, “explosões em Bagdad fazem pelo menos 60 mortos”; inquieta-me que o “body count” já não seja um acontecimento e seja isso mesmo – uma contagem. 60 aqui, 70 ali, 30 acolá, 90 além. Quem se importa? De maneira arrepiante, é quase como o boletim meteorológico – sabemos que podemos contar com ele todos os dias à hora de jantar e começamos a encarar imagens de horror com a mesma naturalidade com que olhamos para pequenas nuvens desenhadas em cima de mapas. Lembro-me que redescobri em Fevereiro o poder incendiário do humor – perante a tensão crescente que começara em Setembro e que aqui atingia o auge, cheguei a imaginar que, num futuro mais ou menos distante, por entre destroços fumegantes, alguém iria questionar: “Mas espera aí – exactamente o que é que provocou o fim disto tudo?”, e alguém iria responder: “Eh pá, parece-me que foram umas caricaturas.” Identifico-me com isso. Na escola, os rapazes mais velhos, para não me baterem, pediam-me que lhes desenhasse a caricatura. Quando aquilo não ficava parecido, era o fim do mundo. E no meio da confusão, em Fevereiro, o primeiro caso da Gripe das Aves surge na Europa. Em vez de entrar em pânico, o que me parece a coisa sensata de se fazer perante uma coisa destas, dou por mim a tomar nota de meia dúzia de potenciais piadas sobre a notícia, digo algumas na rádio e guardo outras tantas para quando estivermos todos a atravessar a epidemia e precisarmos de nos rir daquele grande sarilho, enquanto damos as nossas derradeiras assoadelas. (Apesar de tudo é uma gripe, não é? Logo, há-de requerer lenços.) Volto a imaginar o tal futuro mais ou menos distante e o mesmo alguém que se questionou sobre a causa do fim dizendo: “Não, mas espera aí – isto não pode ter acabado só porque uns tipos fizeram umas bonecadas num jornal, pá.” E o outro alguém que com o primeiro atravessa o cenário devastado, respondendo: “És capaz de ter razão. Também ouvi dizer qualquer coisa que tinha a ver com galinhas. É isso, é. Isto acabou tudo por causa de umas bonecadas e de umas galinhas.” “Tens a certeza?” “Tenho, pá. Foram umas bonecadas e umas galinhas.” “De certeza que não foi um meteoro que caiu na Terra e extinguiu esta malta toda? Já não era a primeira vez, sabes?” “Não, pá. Não tivemos a mesma sorte dos dinossauros. Foram mesmo as bonecadas e as galinhas...”


Blayer @ 22:07

Sex, 29/12/06

 

link
responder

Catastroficamente (não tenho a certeza sobre a essestência desta palvra) fabuloso.
Faz-me recordar uma participação tua na Revolta dos Pastéis de Nata, nde referiste uma espécie de "piadas em arquivo" onde se esperava que a catástrofe acontecece para depois pô-ls na net




Conversetas
Clique aqui para entrar onde pessoas giríssimas se juntam em amena tertúlia.
Arquivos
2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


2004:

 J F M A M J J A S O N D


2003:

 J F M A M J J A S O N D


2002:

 J F M A M J J A S O N D


2001:

 J F M A M J J A S O N D


2000:

 J F M A M J J A S O N D


1999:

 J F M A M J J A S O N D


1998:

 J F M A M J J A S O N D


1997:

 J F M A M J J A S O N D


1996:

 J F M A M J J A S O N D


1995:

 J F M A M J J A S O N D


1994:

 J F M A M J J A S O N D


1993:

 J F M A M J J A S O N D


1992:

 J F M A M J J A S O N D


Olhem para o que eu ando a fazer
Caderneta de Cromos - 2ª a 6ª feira, 8h45 e 9h45
(o clube de fãs no Facebook)

PRIMO - Sábado às 12 e Domingo às 23h00
(site do programa)

Tudo na Rádio Comercial
Pesquisar
 
Texto e cartoons © 2008 Nuno Markl
Design Patrícia Furtado