Neste fim-de-semana de revelhão, eu e a Sra. Markl fomos à caça de fitas quase desconhecidas, nas prateleiras do Blockbuster (porque as conhecidas estavam, obviamente, todas fora). Demos de caras com três surpresas que é urgente descobrir. Vamos por ordem crescente de grandeza:

A medalha de bronze vai para
Golpe a Frio, de Harold Ramis, a partir do romance de Scott Phillips. Um dos Caça-Fantasmas (o dos óculos, também conhecido como Egon Spengler) e também realizador de algumas pérolas da comédia como
O Feitiço do Tempo e
Uma Questão de Nervos, assina um anti-
film noir natalício, passado numa véspera de Natal e envolvendo dois tipos (relativamente) normais (John Cusack e Billy Bob Thornton) que levam a cabo um golpe daqueles como nos filmes, roubando 2 milhões de dólares ao mafioso da cidade (Randy Quaid). Pelo meio há uma mulher fatal, como convém (Connie Nielsen, gostosa) e um misto de comédia negra e espírito natalício que faz de
The Ice Harvest um petisquinho cinematográfico despretensioso, bem escrito, e que foi um dos fiascos de bilheteira do ano que terminou. Tem um certo espírito à
Fargo (embora sem o requinte dos Coen) e não trazendo nada de muito inovador, é consistentemente divertido.

A medalha de prata vai para
O Fio da Vida (
Strings), o delicado filme de marionetas do dinamarquês Andres Klarund, co-produzido pela Zentropa (a produtora de Lars Von Trier). Tecnicamente inovador no uso que faz de marionetas clássicas e conseguindo integrar na narrativa fantástica o facto dos fios, como é normal, estarem à vista,
Strings está a um passo de ser um clássico do calibre de
Nightmare Before Christmas, na maneira como reinventa uma tecnologia antiga (a stopmotion no caso de
Nightmare...; a manipulação de marionetas em
Strings). Com um punhado de óptimas ideias e uma realização espantosa que trata os bonecos como se fossem seres humanos,
Strings precisava só de uma afinadela no argumento que o libertasse de alguns lugares-comuns das narrativas mitológicas. Seja como for, é uma experiência nova que vale a pena descobrir, sobretudo para quem liga a estas coisas da animação. Trey Parker e Matt Stone usaram esta mesma tecnologia, de forma consideravelmente mais ácida, no seu
Team America.

A medalha de ouro vai para
E Viveram Felizes Para Sempre, uma sublime comédia anti-romântica de Yvan Attal. Attal é, juntamente com Agnes Jaoui, um dos melhores autores de comédia do actual cinema francês. Tinha feito há uns anos o divertidíssimo
A Minha Mulher é Actriz e aqui volta a contracenar com a distinta esposa, Charlotte Gainsbourg, numa fatia de vida, servida com provocação e pano para mangas de debate, sobre a fidelidade e o casamento. Bem escrito, filmado, montado e interpretado,
E Viveram Felizes Para Sempre pega no lugar-comum de conto de fadas enunciado no título e transforma-o em algo de inquietante, cruzando as experiências de um grupo de amigos, todos eles insatisfeitos com as suas vidas afectivas por uma razão ou por outra, desde os que estão fartos de estar casados, aos que amam a mulher mas poderão igualmente amar a amante, passando pelos que têm todas as amantes que querem e suspiram por um casamento estável. Attal conta estas histórias sem lamechices nem moralismos: apresenta factos, vidas, e deixa os juízos para cada espectador. Mas acima de tudo consegue criar um filme muito cómico, com uma ou outra sequência de ir às lágrimas (de riso) e com mais algumas demonstrações de talento e timing por parte de Alain Chabat (de
O Gosto dos Outros,
Astérix e Cleópatra e
A Ciência dos Sonhos). O filme inclui ainda um magnífico
cameo de Johnny Depp e uma das melhores bandas sonoras dos últimos tempos, saltitando entre Velvet Underground, Burt Bacharach, Radiohead e Henry Mancini. Tudo isto está à vossa espera nas prateleiras do videoclube. Ide à caça.
Feliz Ano de 2007 para o casal Markl.