David Lynch é um dos meus realizadores preferidos desde que, há muitos anos, vi
Veludo Azul e
O Homem Elefante e, juntamente com Terry Gilliam, um daqueles que quanto mais estranha e críptica for a obra, mais apelativa e viciante se torna. Porque isso é genuíno - é a mente deles, a linguagem deles. Nenhum filme que eu tenha visto do Lynch, nem mesmo o ultra-bizarro
Mullholland Drive soa a "deixa-me cá fazer um filme à mim" (coisa de que acusei o Alejandro Gonzalez Iñarritu com
Babel ou o Abel Ferrara dos últimos, irritantes, filmes). A estranheza e a aparente falta de sentido é a natureza Lynchiana, a brilhante tentativa de nos servir o seu (e o nosso) subconsciente sem o traduzir, necessariamente, numa narrativa tradicional. São sonhos, pesadelos, ideias, conceitos que andam pelas profundezas da nossa mente - e eu acho que ninguém os transforma em cinema tão bem como ele. Já ouvi dizer que o filme novo,
INLAND EMPIRE (o título é assim mesmo, escrito em maiúsculas) é ainda mais extremo que
Mullholland Drive e isso já é suficiente para que esteja em pulgas para o ver e para me deixar perder uma vez mais no universo Lynchiano em estado puro. Vem esta converseta toda a propósito de um livrinho que encontrei na FNAC escrito pelo próprio David Lynch e editado o ano passado pela Penguin. Este:
Catching The Big Fish é um acontecimento histórico, porque é a primeira vez que David Lynch "abre o jogo" (e ponho entre aspas porque continuará a haver um oceano de perguntas sem resposta) sobre os seus filmes. Não todos -
Dune, por exemplo, está ausente, talvez porque Lynch tenha um particular ódio por todo o processo de feitura desse filme - mas os essenciais e obrigatórios. E, pasme-se, é desarmantemente simples. Não há um resquício de pretensiosismo ou de complexidade neste estudo íntimo da sua própria obra. Ele queria ser pintor e não ligava pevas ao cinema; um dia, pensou no incrível que seria se as suas pinturas tivessem movimento. E assim descobriu o cinema enquanto meio de quebrar a barreira entre artes, sendo o seu método de conseguir ideias muito visual, instintivo e baseado na sua experiência na pintura. Ele conta, por exemplo, que a ideia de
Veludo Azul começou com três simples imagens (uma delas sonora!) na sua mente: um jardim, a canção
Blue Velvet na versão de Bobby Vinton e uma orelha cortada. O filme nasceu a partir daí. Inesperado é o espírito de livro de auto-ajuda que
Catching The Big Fish tem: em vez de escrever o seu pequeno compêndio para estudantes de cinema, Lynch escreve-o claramente para qualquer pessoa que o queira ler e explica como os trinta e três anos de meditação transcendental ("vinte minutos de manhã, outros vinte à tarde e depois vou à minha vida") o ajudam a ter ideias e a estar em contacto com o seu mundo interior - no fundo aquele que vemos nos seus filmes, completo e inadulterado. O seu discurso é sincero, contido e inteligente e faz de
Catching The Big Fish um bem de primeira necessidade a quem acompanha os filmes dele desde sempre.
Bjocas!!!! ^^