Aqui vai o serviço noticioso do Planeta Markl.
A Bela e o Paparazzo saiu em DVD...
... numa edição que contém extras gostosos. Nomeadamente ao nível das cenas apagadas. São cenas interessantes, mas que não encaixavam no filme e lhe atrasavam o passo, mas que agora podem ser apreciadas em todo o seu esplendor. Ainda não confirmei, mas creio que está lá o final alternativo filmado no Music Box, onde a minha personagem, Tiago, trama a vilã - a brilhante Maria João Falcão - numa cilada movida a coca. Que, na verdade, era leite em pó de bebé. O DVD inclui ainda comentário audio do António-Pedro Vasconcelos, o making of e o videoclip com a canção do Jorge Palma. Para quem tem preguiça de levantar o rabo do sofá para ir comprar a fita, ela está disponível nos serviços on demand da ZON e do MEO.
Entretanto...
A campanha TMN Banda Larga continua, desta vez com um anúncio criado pela TBWA produzido pela excelentíssima equipa da Tangerina Azul que muito gozo nos deu a filmar e onde o familiar e o profissional se encontram de forma explosiva, já que contraceno com a minha musa Ana Galvão numa aventura campista que poderão ver com mais algum detalhe em breve, na versão maior do spot. Esta é a versão de 30 segundos:
Hã, e não, não tive assim tantas namoradas. Mas agradeço aos criativos da TBWA por acharem que sim. Um tipo sente-se galvanizado - embora já me sinta isso todos os dias, ao partilhar a minha vida com uma Galvão.
Já agora, aqui estão os dois spots anteriores desta campanha:
Por fim: acedi ao simpático convite da revista Sábado para ser um dos protagonistas da experiência de Realidade Aumentada que eles vão fazer na edição da semana que vem. Na aventura, que poderá ser apreciada usando apenas um computador com webcam e ligação à net e a edição da Sábado, alinham também milady Ana Galvão, David Fonseca, Tim e o campeão de snowboard João Allen. Vocês vão ver todas estas pessoas ganhar vida nas páginas da Sábado, numa experiência que expande o conceito de revista de uma forma que será interessante continuar a explorar no futuro. Eu fiquei fã, e estou curioso para saber o que acham. A Esquire fez há uns meses uma experiência de Realidade Aumentada que fez furor; vamos ver que furor faz a nossa experiência! A Sábado de Realidade Aumentada sai dia 22 de Julho, quinta-feira.
Num registo mais deprimente, aproxima-se o dia em que faço 39 anos. Nunca mais voltarei a fazer anos com um 3 à esquerda. Aflitivo.
Fiquei hoje a saber por um ouvinte que a cadeia de videoclubes Blockbuster prepara-se para ser transformada num potencial cromo da Caderneta de Cromos que faço todos os dias na Comercial (no sentido de passar a vir precedida da expressão "lembras-te?..."). Aquele que já foi um verdadeiro templo de culto devoto vai abandonar Portugal devido a um forte declínio no volume de negócios. De facto, visitar uma das cada vez menos lojas Blockbuster de Lisboa e arredores era uma experiência deprimente, mesmo ao fim-de-semana. Percebemos quando as coisas estão mal, a partir do momento em que não só é possível alugar, á vontadinha, os lançamentos mais apetecíveis da temporada, como conseguimos ler nos olhos dos empregados que seria óptimo se fizéssemos o favor de o fazer.
A sensação é bizarra. Por um lado, lembro-me de olhar para a Blockbuster como a cruel responsável pelo extermínio dessa instituição da nossa juventude que era o videoclube de bairro, nos dias gloriosos do VHS. Por outro - e como acabei por ceder e ser um activíssimo sócio, primeiro do Blockbuster das Amoreiras e depois do de Benfica - a verdade é que o ritual de passear por estantes e estantes de cinema do mais variado ouvindo o meu caro Aurélio Gomes publicitar os últimos lançamentos através dos altifalantes da loja, o ritual de rezar a todos os santinhos para que lá houvesse pelo menos uma cópia disponível de Fargo, o entusiasmo histérico de perceber que, apesar de não haver nenhuma cópia nas prateleiras, um sócio acabou de entregar uma no balcão - tudo isso está prestes a desaparecer das nossas vidas. A gente não se importa: hoje em dia os canais de cinema e os videoclubes virtuais de ZONs, Meos e afins permitem-nos ver tudo aquilo que encontraríamos nos escaparates da Blockbuster sem termos de levantar o rabo do sofá. E, claro, haverá sempre, e de forma cada vez mais descontrolada, a pirataria.
Mas a questão é essa: cada vez andamos a levantar menos o rabo do sofá - e agora já nem sequer para passearmos pelas avenidas de caixas vazias da Blockbuster a ler partes de trás de capas e para comprarmos pacotes de gomas e pipocas para acompanhar a fita quando voltarmos para o sofá. Acho que vou ter saudades. O Álvaro Costa dizia outro dia uma coisa parecida com esta e eu subscrevo: num mundo cada vez mais digital, uma pessoa dá por si a ter uma certa vontade de ser mais analógica.
(E sim, sempre achei que eles deviam ter uma secção para adultos. Se calhar hoje em dia não estavam a passar tão mau bocado - Portugal ainda é, apesar dos brandos costumes, um país de bons tarados!)
Diz o António-Pedro Vasconcelos, e muito bem, que uma ante-estreia como a de ontem não deve ser tomada como avaliação do sucesso de um filme. Foi uma mega-operação, com um mar de espectadores desesperadamente tentando trocar os seus convites por lugares não só na sala 1 mas também na sala 3, onde o filme foi projectado para quem não chegou a tempo para conseguir lugar na sala principal, mas a verdade é que havia lá muita gente do meio, muitos amigos das pessoas que trabalharam no filme. E isso, quer-se queira, quer não, acaba sempre por influenciar o olhar daqueles espectadores.
Mas estava lá muita, muita gente - e muitos espectadores imparciais. E foi um gosto perceber que a sala estava agarrada à história - simples, directa, inteligente - que o Tiago Santos criou para o António-Pedro realizar e que, numa observação de alívio mais pessoal, a minha personagem - tal como o argumentista, Tiago de seu nome - cumpriu o seu papel de comic relief da obra. Eu trabalho em comédia, e nada se compara, para quem faz disto a sua vida, à visceral reacção de uma sala gigante cheia, rindo em uníssono. O meu trabalho não foi o mais difícil: o Tiago acaba por ser a tal variação do que eu sou, aquilo em que eu me teria tornado se tivesse tomado escolhas diferentes em momentos decisivos da minha vida; o mais difícil - e que merece todas as honras e elogios - é o trabalho de escrita do outro Tiago, o Santos. Tanto ele como o António-Pedro permitiram-me "marklizar" algumas coisas, mas, na sua essência, aquilo que fez a sala rir foram as brilhantes ideias do Tiago, a começar pelo conceito da personagem que quer transformar um prédio num estado independente. Estarei sempre grato ao Tiago por ter escrito aquele material precioso e por ele e o António-Pedro mo terem posto nas mãos, opção arriscada tendo em conta a minha inexperiência como actor - no sentido mais puro e duro da palavra.
Mas foi uma noite feliz e divertida. A começar logo pelo encontro dos actores no Hotel Altis. Rever o Marco d'Almeida e o Pedro Laginha e beber com eles uma bica da sorte no bar do hotel foi reeditar a química que nos uniu no filme. Na verdade o Laginha tentou convencer-nos a beber um shot de qualquer coisa, o grande maluco, mas a mistura entre eu não ter comido nada de jeito o dia todo (os nervos!) e o bar do Altis não ser uma tasca levou à ajuízada situação de entrarmos no São Jorge totalmente sóbrios.
Confesso que nunca pensei que tanta gente quisesse assistir à ante-estreia do filme. A decisão de projectar o filme em duas salas para caber toda a gente gerou um caos tão extremo que, por momentos, temi que não houvesse lugar para a minha própria mãe - mas tudo se compôs. Adorei ter a Ana do meu lado quando a luz se apaga e a hora da verdade começa. Adorei vê-la rir e, como já tinha visto o filme, pude reflectir sobre o quão importante foi o papel dela em tudo isto. Quando o António-Pedro me convidou para esta pequena odisseia, o meu filho Pedro estava prestes a nascer e eu temia que a rodagem me afastasse dos primeiros meses de vida dele e sobrecarregasse a Ana com uma trabalheira de dimensões titânicas. Isso e o medo de não estar à altura do convite: o que iria eu fazer rodeado de actores a sério, num filme dirigido pelo homem que fizera O Lugar do Morto, Aqui d'El Rei, Jaime, Os Imortais, Call Girl? A Ana não só me encorajou a avançar, como teve a trabalheira de fazer os papéis todos do filme, em sessões caseiras de "bater texto" que foram essenciais para eu ir com outro à vontade para as rodagens. Uma mulher assim é preciosa! E eu só podia estar à altura da confiança que ela depositou em mim. Foi a sensação da noite, perceber que ela adorou genuinamente o filme e o trabalho que ela ajudou a construir e que me afastou, alguns dias e noites, de casa. Isso vale mais que qualquer crítica, há que dizê-lo...
Também foi emocionante ver a minha mãe comovida. A minha mãe é de um realismo e frontalidade extremos, e estava receosa de ver o filho meter-se num buraco. O episódio mais divertido que se passou sobre isto aconteceu na noite em que fui com ela e com a minha irmã ao Corte Inglês, à ante-estreia d'O Sítio das Coisas Selvagens. No átrio do cinema há um enorme stand-in d'A Bela e o Paparazzo. A minha mãe consulta a ficha técnica do cartaz e diz, num tom de lamento: "Não estás aqui, filho. Não te puseram no cartaz."
"Mãe, olha para ali: Soraia Chaves. Marco d'Almeida. Nuno Markl."
"Ah! Estás no princípio da ficha técnica! Eu estava à procura do teu nome cá para baixo..."
Acho que ela não estava à espera que o Tiago atravessasse o filme de uma ponta à outra e ela é o indicador mais animador, apesar de ser minha mãe: se ela não tivesse gostado, ela tinha-o dito com a sinceridade que a caracteriza. O facto dela ter gostado foi, acreditem, importantíssimo para mim.
No final da sessão houve aplausos, ovações e momentos quase surreais. No melhor dos sentidos. De repente surge o Presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, dando-me os parabéns e dizendo "se quiser prédios para declarar a independência, eu arranjo-lhe uns quantos em Lisboa!". E, de repente, o antigo Presidente da República, Mário Soares: "O senhor é um grande actor". E eu penso: à partida, nada nesta frase bate certo comigo, a começar no "senhor" e a terminar no "grande actor". Mas percebi que havia ali sinceridade e entusiasmo: aparentemente, consegui fazer Mário Soares rir com gosto. A parte mais delirante é que - obviamente ele não se lembra disto, no meio de tudo o que tem sido a vida dele - mas nos meus tempos de jornalista, eu consegui irritar o nosso ex-Presidente (era ele Presidente!), quando, ao serviço da rádio e como jovem e anónimo repórter, tentei obter umas declarações dele sobre um tema qualquer da actualidade durante uma visita dele a uma exposição já não sei de quê. Vocês não queiram irritar Mário Soares, é só o que digo!
A noite de ontem não terá sido a hora da verdade, mas uma semi-hora da verdade. Foi bom sentir a respiração da sala e perceber que os mais diversos tipos de público, juntos na(s) mesma(s) sala(s), mantiveram o interesse naquela história. E foi bom, hoje, começar a encontrar elogios destes, na net. O que claramente anula o efeito de lixo deste, escrito por alguém que não viu o filme, mas que já tem sábios juízos sobre ele, baseados em ignorância iluminada, preconceito, estupidez e total e completo desconhecimento do que é A Bela e o Paparazzo, da intenção do filme, da acutilância e inteligência do argumento do Tiago Santos e de como este, como vários outros filmes do António-Pedro Vasconcelos, consegue trabalhar a sério para ser o elo perdido entre chegar ao público e nivelar por cima.
É verdade que o cinema português não anda com a melhor das imagens, mas só posso, neste momento, pedir que os mais cépticos dêem o benefício da dúvida a um filme feito por um grupo de pessoas preocupadas em contar bem uma história, em dizer alguma coisa de relevante, em fazer com que o cinema português recupere a fusão de acessibilidade e inteligência que movia os ilustres veteranos da Idade de Ouro da comédia portuguesa. Seria presunção dizer que o conseguimos, mas todos, em todas as áreas, trabalhámos a sério para chegar lá perto.
Dito isto, eis um pouco do ambiente de ontem, no São Jorge, seguido do making of que a RTP exibiu ontem, realizado pelo Sebastião Albuquerque.
Conforme prometido, na 2ª feira ao serão acontece nesta fanpage do Facebook o estonteante jogo-relâmpago d'A Bela e o Paparazzo, iniciativa que junta a ZON Lusomundo e o Cão Azul e que será uma frenética competição por um lugar na antestreia VIP do filme e por t-shirts da colecção criada pelo Cão Azul para a personagem levemente alucinada que interpreto no filme, o empreendedor Tiago.
Tudo acontecerá quando eu publicar um post na página do Facebook dando o tiro de partida. Imediatamente a seguir, cabe aos interessados desatar a deixar comentários nesse post dizendo apenas "Estou com uma erecção!" (que, conforme sabe quem já viu o trailer do filme, é uma coisa extremamente digna que a minha personagem diz a dada altura da obra). Não há limite de comentários por concorrente, tudo vale no frenesim de ser o autor do 100º comentário. O autor ou autora do centésimo "Estou com uma erecção!" será o(a) feliz contemplado(a) com um convite duplo para a antestreia VIP do filme - que acontece no Cinema São Jorge, em Lisboa, na quinta-feira, às 21h30 - e também com uma das t-shirts da colecção A Bela e o Paparazzo, do Cão Azul, à sua escolha (e por escolha entenda-se também o esquema de cores).
... e há ainda um modelo que não aparece no final cut, mas que é bem catita:
Os autores dos comentários 98 e 99 não terão direito a convite para a antestreia, mas não saem de mãos a abanar, ganhando também, cada um deles, uma t-shirt à escolha, entre os espécimes da colecção do filme.
2ª feira à noite, estejam atentos. Aqui.
Nem parece que foi assim há tanto tempo que eu andava aqui a fazer o diário dos meus dias de rodagem n' A Bela e o Paparazzo, a comédia romântica agridoce do António-Pedro Vasconcelos e do seu argumentista, o Tiago Santos. E agora, aí está a obra acabada... e vista! Ontem a ZON e o produtor, Tino Navarro, organizaram uma sessão na sua sala de projecções para a Soraia Chaves, o Marco d'Almeida e eu - e confesso que, antes da projecção, eu estava com os nervos em franja. Não por causa do filme em si - um argumento sólido como o do Tiago e a realização sempre segura do António-Pedro nunca poderiam resultar num mau filme - mas por causa de mim. É que uma coisa é imitar uma orca num sketch; outra, é atravessar um filme de uma ponta à outra e manter uma personagem que, por muito confortavelmente próxima que seja da minha pessoa, é uma figura com nuances, twists, surpresas, variações de tom e segredos do fundo do coração - e no cinema está tudo em grande.
Mas a verdade é que estou muito contente com o resultado: A Bela e o Paparazzo não quer mudar o mundo; quer entreter as pessoas ao mesmo tempo que as espicaça a pensar sobre o vampirismo mediático. É uma comédia romântica que vai beber a sua inspiração não àquilo que hoje se convencionou chamar "comédia romântica" ou "rom-com", mas às da velha guarda: a Billy Wilder, por exemplo, que, como o prova O Apartamento, conseguia equilibrar histórias de amor doces com uma certa acidez que está presente no filme do António-Pedro e no argumento do Tiago. Não é uma Pretty Woman nem um You've Got Mail: é um filme que chama bois pelos nomes e diz palavrões (e o Tiago sabe escrever muito bem diálogos com palavrões) e dá murros no estômago (e, coitado do Marco, também na cara dele). Ao mesmo tempo, e mesmo que se preveja que apareçam críticos a dizer que é um filme americanizado, é uma história intensamente lisboeta e que, nas cenas de bairro, tem um espírito muito Pátio das Cantigas que a todos nos deu grande gozo ressuscitar.
Não faço ideia como é que público e crítica vão reagir (a bem dizer, prevejo como vai reagir alguma crítica e, como é de esperar, não será bonito de se ler), mas independentemente do que se diga, escreva e aconteça, A Bela e o Paparazzo fica-me no livro das memórias de várias formas especiais. Não só porque acho que ficou feito um bom e inteligente filme comercial (e percamos o medo de usar a palavra "comercial" porque o António-Pedro Vasconcelos tem provado, ao longo da carreira, que o cinema pode falar ao público e ser inteligente), mas também porque o processo foi divertido, didáctico para mim que estava habituado a ver os bastidores nos extras dos DVD e que, desta vez, estava lá dentro, e porque as rodagens coincidem com o nascimento do Pedro - e o gozo que A Bela e o Paparazzo deu, acabou por ser uma espécie de celebração involuntária de uma das alturas mais inacreditavelmente felizes da minha vida. Por tudo isto - e porque o António-Pedro é tão bom a dirigir actores que faz com que eu não me tenha envergonhado nada de me ver na fita - A Bela e o Paparazzo será sempre um grande momento da minha existência.
E não se preocupem - não pretendo seguir carreira de actor, que onde me sinto bem é a escrever para actores a sério, a fazer rádio e a imitar orcas. Isto foi um acidente feliz e se mais alguém quiser uma perninha numa fita, que se lembre que eu só sei fazer de mim próprio e que é provável que até haja quem faça de mim próprio melhor do que eu!
Dito isto, estou ansioso para que vejam o filme. Na segunda-feira, dia 18, à noite, haverá um passatempo-relâmpago alucinante na minha página de fãs do Facebook onde será atribuído um convite duplo para a antestreia VIP que acontece na quinta-feira, 21, no São Jorge, com a presença do realizador e do elenco. Quem não conseguir ir à antestreia VIP, pode sempre, nessa noite, ver o promissor making of da fita que a RTP vai exibir ao serão.
Dia 29, sexta-feira, o António-Pedro Vasconcelos, a Soraia Chaves, o Marco d'Almeida e este vosso amigo estarão numa sessão especial do filme no Colombo, à noite, onde apresentaremos a obra e, se alguém estiver para aí virado, rabiscaremos autógrafos. Isto é uma sessão normal de cinema, com bilhete comprado.
Dia 30, sábado, este mesmo grupo estará no Parque Nascente, no Porto, para outra sessão de apresentação e autógrafos.
Vemo-nos num dia destes!
Há uma certa verdade nisto: em supermercados baratuchos como o LIDL, encontra-se, muitas vezes, produtos de altíssima qualidade a preços irrisórios, produzidos por empresas de que nunca ninguém ouviu falar. Actividade Paranormal está para o cinema de terror como a lasanha do LIDL para a gastronomia: é baratucho e ninguém sabe bem de onde é que veio, mas deixa um indivíduo satisfeito e mais bem alimentado do que se tivesse optado por muita marca mais cara e reputada.
É fácil dizer mal de Actividade Paranormal, como era também fácil dizer mal não só da lasanha do LIDL, como de Projecto Blair Witch. Basta assumir a pose arrogante de "eu-tenho-lá-algum-medo-de-fitas-de-terr
A espera é o mecanismo mais extraordinário do terror, como o prova este filme hiper-baratucho do jovem Oren Peli, feito com amigos na casa dele, mas com uma tremenda sede de perfeccionismo e vontade de inquietar. Boa parte do tempo de projecção de Actividade Paranormal é ocupada pelo plano fixo de um quarto, como se vê aqui em cima, e o espectador sabe que algo irá acontecer, algumas vezes requerendo uma atenção quase "Onde-Está-o-Wally" para não perder nenhuma subtileza. E coisas acontecem, em crescendo: sons que cortam a madrugada, objectos que se movem... e mais não se avança para não estragar a experiência. Apenas se diz que este objecto típico da geração You Tube é dos que mais se aproxima das intenções mais antigas do cinema de horror e que isso, para um fã devoto do género, faz de Paranormal Activity um verdadeiro maná de gostosa cagufa.

Já se fazem poucos filmes de ficção científica como Distrito 9, que estreou a semana passada em Portugal. Fita capaz de resumir tudo o que nos fez adorar John Carpenter, David Cronenberg, Steven Spielberg e outros na década de 80, junta todas essas referências para criar algo de refrescante, inteligente, divertido e até tocante e poético. É um série B cujo orçamento daria para construir um cenário mediano de uma produção A de Hollywood, mas que contém espantosos efeitos visuais ao serviço de uma boa história. Há um disco voador estacionado sobre Joanesburgo, mas os extraterrestres que lá vêm dentro não querem destruir-nos nem exactamente socializar. Estão doentes, a nave está avariada e as autoridades constroem um ghetto onde as criaturas - chamadas de "camarões" ("prawns") embora a legendagem portuguesa insista em "gafanhotos" - são enfiadas, naquilo que é toda uma nova forma de apartheid.
Como toda a boa ficção científica clássica, Distrito 9 - realizado por Neil Blomkamp, um jovem discípulo de Peter Jackson com experiência na área dos efeitos visuais - consegue ser um entretenimento robusto e ter coisas a dizer: é uma fábula a meio caminho entre o falso documentário e o filme de acção sobre a intolerância, a ganância e outros mimos da Humanidade - e sobre um homo sapiens desprezível a aprender a ser humano a partir do momento em que começa a transformar-se numa criatura. Tudo isto é feito num formato que tinha tudo para não resultar - um híbrido entre documentário e narrativa tradicional que, vá-se lá saber como, Blomkamp consegue cruzar com extraordinária harmonia - mas que acaba por fazer de Distrito 9 um dos melhores espécimes (talvez o melhor!) de ficção científica do pós-Matrix (o primeiro; se calhar agora esquecíamos os outros). A acção é trepidante e a alma que o realizador e técnico de efeitos visuais consegue injectar nos alienígenas é um espanto: Christopher Johnson (é este o nome do extraterrestre simpático do filme) é uma criatura viscosa que, no entanto, tem o olhar mais meigo e expressivo desde o bom velho E.T.
Eu sei. Eu sei que gostos não se discutem. Eu sei que se deve respeitar a opinião de toda a gente. Mas desta vez, mais do que nunca, e perante algumas azedas críticas que o novo filme de Quentin Tarantino, Sacanas Sem Lei, tem recebido em Portugal, eu tenho de dizer isto - e não me importo que me levem a mal e que me insultem: não percebo, juro que não percebo, como é que cinéfilos com um mínimo de informação, sentido de humor e inteligência podem correr Inglourious Basterds a estrelas solitárias e a dizer cobras e lagartos de um filme tão cinéfilo, tão inventivo, tão divertido como este. E perdoem-me uma vez mais, mas depois de ler, pelo menos umas três vezes, em publicações diferentes e debitada por críticos diferentes, a mesma ideia - que o problema de Tarantino é o estar estagnado numa adolescência criativa - ocorrem-me duas reflexões: a primeira, é que está visto que há um toque fashion em usar tal argumento para arrasar a obra do cineasta e que se confirma o lugar-comum do "agora-já-não-é-fixe-para-um-crítico-diz
Eu acho que vale mais um tipo manter uma adolescência criativa aos 46 anos do que uma secura crítica em idade mais jovem. Inglourious Basterds, para mim, é uma obra-prima e valeu a escapadela ao cinema em época de gripe A. Correspondeu inteiramente às expectativas, indo precisamente em sentido contrário a todas elas (o que, para espectadores mais incautos, será motivo - mais compreensível - de desilusão). Não é um filme de acção, não é um filme rápido, não é exactamente um filme de guerra, sequer. E não é um filme de citações - ao contrário do esperado, Inglourious Basterds nem sequer vai beber assim tanta inspiração às fitas série B de war-sploitation como o Inglorious Bastards de Enzo Castellari. Em vez disso é, possivelmente, o filme mais incatalogável de Quentin Tarantino, uma celebração cinéfila que leva o espectador a pensar que vai ver sequências alucinantes de acção com milhares de figurantes e que, no fim de contas, vai concentrando a sua palavrosa acção, progressivamente, até juntar todos os peões da guerra, de forma desconcertante, no mais inesperado campo de batalha jamais mostrado num filme: um cinema!
Mais não se conta, para não estragar. Apenas se deixa aqui a dica: Sacanas Sem Lei tem uma daquelas revelações que acontecem uma vez em muitos anos e dá pelo nome de Cristoph Waltz. O desconhecido actor austríaco, popular apenas na sua terra natal onde faz, acima de tudo, televisão, dá um considerável baile a todo o restante elenco (que, apesar disso, vai muitíssimo bem), incluindo o cabeça de cartaz, Brad Pitt. O oficial nazi Hans Landa, "caçador de judeus", é, simplesmente, a melhor personagem que Tarantino já criou - e, sim, estou a contar com o mercenário religioso de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction. O texto que o argumento lhe dá é grandioso, mas Waltz dá uma dimensão estrondosa a Landa, numa interpretação hipnótica e fervilhante de detalhes: cada pausa, cada mudança no olhar, cada gesto, cada palavra - raios, cada músculo, por pequeno que seja, que Christoph Waltz põe ao serviço desta criatura tão afável e educada quanto abjecta e mortífera, faz do Coronel Landa uma figura para a História do Cinema e, se houver justiça neste mundo, fará de Waltz uma das maiores e mais requisitadas estrelas do cinema mundial. Ele merece, e de que maneira.
Sacanas Sem Lei tem um cinema de bairro, a magia da sala de projecção, uma apaixonada utilização do celulóide e até tem um ou dois temas de Ennio Morricone. É uma espécie de Cinema Paraíso, portanto. Só que com balas, facadas, suásticas desenhadas na testa com lâminas, crânios desfeitos à paulada, litradas de sangue, humor negríssimo e mortes inesperadas. Com tudo isto, é dos filmes mais inteligentes e sensíveis dos últimos anos...
O jornal i desafiou um punhado de guionistas - o Filipe Homem Fonseca, o Luis Filipe Borges, o João Tordo e este que se assina - a reescrever cenas clássicas de filmes de Quentin Tarantino, mas reinventando as situações em géneros diferentes. Ao Filipe desafiaram-no a reescrever a famosa cena sobre a canção Like a Virgin do início de Cães Danados como se fosse cinema português antigo, do tempo d'A Canção de Lisboa; o Borges reescreveu o diálogo das diferenças linguísticas entre a América e França, de Pulp Fiction, na era bíblica; o João Tordo transformou o diálogo em torno das Chicks With Guns, de Jackie Brown, num momento novela das 9 com meninos-bem; a mim, calhou reescrever o combate entre a Noiva e Elle Driver, em Kill Bill, como se de um musical se tratasse. Isto são coisas que não se pedem a ninguém, mas lá que tive gozo a fazer isto, lá isso tive. E era o i a pedir, e tenho para mim que o i é dos jornais portugueses mais interessantes do momento. Leiam aqui.