Parecia apenas um trabalho de encomenda e acabou por ser uma experiência divertida e artisticamente compensadora. A SIC encomendou a uma equipa formada por mim, o Francisco Martiniano Palma e o João Quadros a escrita de sketches que apresentassem cada uma das categorias a premiar com Globos de Ouro. Os sketches tiveram direito a um elenco de luxo - o Bruno Nogueira, o Rui Unas, o Manuel Marques e alguns "cameos" - e à produção da Até ao Fim do Mundo, com o Ricardo Freitas a realizar. É uma equipa de sonho e não admira que depois disto tenhamos ficado com vontade de fazer mais projectos juntos. Adorei também trabalhar com a Bárbara Guimarães, para quem escrevemos o guião da festa. Raras são as grandes vedetas para quem escrevemos que nos visitam e trabalham connosco munidas de sacos cheios de pão quente com chouriço, bebidas e batatas fritas.
Contra todos os meus receios, a TVI deu-me a mim, ao Pedro Ribeiro e à Maria de Vasconcelos liberdade total para expandir o universo do Cão depois da rádio, dos livros e do espectáculo teatral no Villaret (e depois, pelos caminhos de Portugal).
Foi pena não termos mais orçamento para criar “sketches”, mas ainda assim fizeram-se alguns orgulhos – sobretudo na terceira série, quando tivemos o veterano Fernando Ávila como realizador, homem com uma sensibilidade rara para compreender a comédia televisiva (ou não tivesse ele, nos anos 80, assinado a realização de uma das obras-primas do Herman, Crime na Pensão Estrelinha). Era dramático fazer, em directo, um programa que terminava às duas e tal da manhã (tendo eu que acordar, no dia seguinte, às 6 e meia da manhã, para ir para a rádio!). Mas está cheio de boas recordações, como o elenco que reunimos para as rábulas e que incluía a Joana Capucho, a Teresa Tavares, o Francisco Palma, o Eduardo Madeira e o João Quadros.
O Francisco Penim é um director com ideias delirantes e criou este conceito simples e louco: um homem neurótico com extremas teorias de conspiração, falando para a câmara numa espécie de emissão pirata. Fizemos centenas de edições d’ O Homem da Conspiração e acho que muitas acertam ao lado – por minha culpa… eu não sou actor! No entanto, foi interessante ter, pela primeira vez, pessoas a escrever para mim (geralmente acontecia o contrario), sendo que as pessoas em questão eram de luxo: o João MacDonald e o Luís Guerra. O método de produção era alucinante de tão série B. Uma vez filmámos nas escadarias da Assembleia da República, perante o olhar desconfiado de um policia que, depois de se certificar que eu e o Pedro Costa tínhamos autorização para gravar ali, me chamou “ganda maluco”. Sobre O Homem da Conspiração, e respondendo a todos os que se queixavam que “aquilo não tinha piada”, cito o próprio Penim que, sobre o programa, disse um dia: “Não é preciso ter piada. Só queremos que as pessoas vejam aquilo e digam ‘o que raio acabou de acontecer aqui?’”. Acho que conseguimos essa proeza. Os textos do MacDonald e do Guerra tinham uma qualidade literária à qual a minha falta de talento não fez justiça. Felizmente foi editado o livro com os textos, onde se pode apreciar a riqueza daquelas prosas surreais.
A sequela vendeu metade do original: cada vez mais o Cão estava a deixar de ser o fenómeno gigantesco de moda e a voltar às mãos dos fãs de longa data. Acho-o um livro melhor que o primeiro, com mais conteúdo original e alguns dos textos do Homem Que Mordeu o Cão ao Vivo. Mas o mais divertido de fazer foi o DVD que vinha com o livro e onde trabalhei com uma das melhores equipas televisivas nacionais: o grupo da Até Ao Fim do Mundo. É sempre bom quando se encontra alguém que está exactamente na mesma sintonia. Foram também os Gémeos Freitas da Até ao Fim do Mundo que realizaram o louco videoclip do tema musical d’ O Homem Que Mordeu o Cão, composto e interpretado pelo meu alter-ego musical, o grande Gimba (dos Afonsinhos do Condado e dos Irmãos Catita).
Este era um talk-show ambicioso, criado pelo Fernando Alvim, mas o que fizemos não foi exactamente o que tínhamos planeado no papel, por não haver meios. Mas havia boa vontade e entusiasmo. Fizeram-se reportagens delirantes, mas o maior orgulho que eu e o Alvim temos n’ O Perfeito Anormal foi termos “lançado” os Gato Fedorento, que fizeram n’ O Perfeito Anormal alguns dos seus maiores clássicos de sempre como A Minha Vida Dava Um Filme Indiano.