Parecia apenas um trabalho de encomenda e acabou por ser uma experiência divertida e artisticamente compensadora. A SIC encomendou a uma equipa formada por mim, o Francisco Martiniano Palma e o João Quadros a escrita de sketches que apresentassem cada uma das categorias a premiar com Globos de Ouro. Os sketches tiveram direito a um elenco de luxo - o Bruno Nogueira, o Rui Unas, o Manuel Marques e alguns "cameos" - e à produção da Até ao Fim do Mundo, com o Ricardo Freitas a realizar. É uma equipa de sonho e não admira que depois disto tenhamos ficado com vontade de fazer mais projectos juntos. Adorei também trabalhar com a Bárbara Guimarães, para quem escrevemos o guião da festa. Raras são as grandes vedetas para quem escrevemos que nos visitam e trabalham connosco munidas de sacos cheios de pão quente com chouriço, bebidas e batatas fritas.





Onde se juntam “cartoons” do suplemento Inimigo Público com textos da rubrica da Antena 3, num livro de formato largo (um pouco como os álbuns de Calvin e Hobbes, que adoro). Não dá muito jeito para arrumar numa estante, mas tenham paciência com ele – é a coisa mais pessoal que fiz e deu-me tanto trabalho como gozo.




Respondi ao desafio do Jorge Reis Sá, editor do Porto, para me juntar a um vasto elenco de autores que ia de Sérgio Godinho a Rita Ferro Rodrigues, escrevendo histórias originais para crianças. A minha estava engavetada há anos e foi escrita não para o público infantil, mas num registo algo devedor do Terry Gilliam e do filme O Rei Pescador. Nunca pensei bem se aquela história funcionaria melhor em filme, em telefilme ou em livro, e nunca pensei que acabaria transformada num livro infantil, mas acabou por ser uma solução nada forçada. D. Sebastião reaparece numa manhã de nevoeiro – em plena 2ª Circular, rodeado de carros por todo o lado – e um miúdo leva-o para casa, numa fábula com o seu quê de E.T. As ilustrações da Joana Quental são belíssimas. Fazer este livrinho fez-me pensar que é disto que quero viver um dia: escrever fábulas para crianças espertas e adultos com pouca vontade de crescer.




Misturando textos de rádio e do programa de televisão com algum material novo, A Revolução fechou a era d’ O Homem Que Mordeu o Cão. Tinha lá textos dos quais me orgulho deveras, mas também um sistema de interactividade com o leitor que resultava melhor no papel do que na prática, e que envolvia o envio de SMS para um site onde, depois, eu respondia às questões dos leitores. Seja como for, é a minha capa preferida da série e tem algumas das coisas mais ousadas que fizemos na TV, por isso é um livrinho que reside num canto especial do meu coração. O que é uma maçada quando eu preciso de o tirar para consultar qualquer coisa.


Contra todos os meus receios, a TVI deu-me a mim, ao Pedro Ribeiro e à Maria de Vasconcelos liberdade total para expandir o universo do Cão depois da rádio, dos livros e do espectáculo teatral no Villaret (e depois, pelos caminhos de Portugal).

Foi pena não termos mais orçamento para criar “sketches”, mas ainda assim fizeram-se alguns orgulhos – sobretudo na terceira série, quando tivemos o veterano Fernando Ávila como realizador, homem com uma sensibilidade rara para compreender a comédia televisiva (ou não tivesse ele, nos anos 80, assinado a realização de uma das obras-primas do Herman, Crime na Pensão Estrelinha). Era dramático fazer, em directo, um programa que terminava às duas e tal da manhã (tendo eu que acordar, no dia seguinte, às 6 e meia da manhã, para ir para a rádio!). Mas está cheio de boas recordações, como o elenco que reunimos para as rábulas e que incluía a Joana Capucho, a Teresa Tavares, o Francisco Palma, o Eduardo Madeira e o João Quadros.



A rubrica das Manhãs da 3, Há Vida em Markl acaba por ser a fusão entre os últimos tempos d’ O Homem Que Mordeu o Cão (que já eram menos sobre notícias bizarras e mais sobre coisas da vida) e o “cartoon” que eu fazia desde 2003 no suplemento Inimigo Público, segundo sugestão do Nuno Artur Silva. É mais pessoal e menos bombástico que O Homem Que Mordeu o Cão. A melhor imagem é esta: o Cão era um “blockbuster” do Jerry Bruckheimer; o Há Vida em Markl é um filme independente. É qualquer coisa a meio caminho entre o “stand-up” e a crónica, tentando cobrir todos os grandes temas que inquietam a Humanidade, desde o amor a Deus, passando pelos aromas do papel higiénico humedecido. É interessante, no Há Vida em Markl, criar “sketches” para dentro dessas crónicas, pós-produzidos por pelo mestre da sonoplastia César Martins e protagonizados por toda a sorte de “amigos famosos”: a Teresa Tavares, o David Fonseca, os Gato Fedorento, a Sílvia Alberto, a Leonor Seixas, o Aldo Lima, entre outros.


O Francisco Penim é um director com ideias delirantes e criou este conceito simples e louco: um homem neurótico com extremas teorias de conspiração, falando para a câmara numa espécie de emissão pirata. Fizemos centenas de edições d’ O Homem da Conspiração e acho que muitas acertam ao lado – por minha culpa… eu não sou actor! No entanto, foi interessante ter, pela primeira vez, pessoas a escrever para mim (geralmente acontecia o contrario), sendo que as pessoas em questão eram de luxo: o João MacDonald e o Luís Guerra. O método de produção era alucinante de tão série B. Uma vez filmámos nas escadarias da Assembleia da República, perante o olhar desconfiado de um policia que, depois de se certificar que eu e o Pedro Costa tínhamos autorização para gravar ali, me chamou “ganda maluco”. Sobre O Homem da Conspiração, e respondendo a todos os que se queixavam que “aquilo não tinha piada”, cito o próprio Penim que, sobre o programa, disse um dia: “Não é preciso ter piada. Só queremos que as pessoas vejam aquilo e digam ‘o que raio acabou de acontecer aqui?’”. Acho que conseguimos essa proeza. Os textos do MacDonald e do Guerra tinham uma qualidade literária à qual a minha falta de talento não fez justiça. Felizmente foi editado o livro com os textos, onde se pode apreciar a riqueza daquelas prosas surreais.




A sequela vendeu metade do original: cada vez mais o Cão estava a deixar de ser o fenómeno gigantesco de moda e a voltar às mãos dos fãs de longa data. Acho-o um livro melhor que o primeiro, com mais conteúdo original e alguns dos textos do Homem Que Mordeu o Cão ao Vivo. Mas o mais divertido de fazer foi o DVD que vinha com o livro e onde trabalhei com uma das melhores equipas televisivas nacionais: o grupo da Até Ao Fim do Mundo. É sempre bom quando se encontra alguém que está exactamente na mesma sintonia. Foram também os Gémeos Freitas da Até ao Fim do Mundo que realizaram o louco videoclip do tema musical d’ O Homem Que Mordeu o Cão, composto e interpretado pelo meu alter-ego musical, o grande Gimba (dos Afonsinhos do Condado e dos Irmãos Catita).





Nunca gostei de livros de anedotas, e alinhei – tal como o Pedro Ribeiro e a Maria de Vasconcelos – no Vai Uma Rapidinha por duas razões: a possibilidade de comentarmos as anedotas e de gravarmos um CD onde subvertemos alegremente a arte de contar piadas. O dito CD foi gravado a horas tardias, impossíveis, pelo Luís Miguel Melo, sonoplasta com quem eu e o Pedro Ribeiro já tínhamos trabalhado no Correio da Manhã Rádio. Foi estafante e divertido em doses iguais.


Este era um talk-show ambicioso, criado pelo Fernando Alvim, mas o que fizemos não foi exactamente o que tínhamos planeado no papel, por não haver meios. Mas havia boa vontade e entusiasmo. Fizeram-se reportagens delirantes, mas o maior orgulho que eu e o Alvim temos n’ O Perfeito Anormal foi termos “lançado” os Gato Fedorento, que fizeram n’ O Perfeito Anormal alguns dos seus maiores clássicos de sempre como A Minha Vida Dava Um Filme Indiano.





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