Eu e milady Galvão tivemos hoje tempo para levar a cabo um dos nossos passatempos favoritos: explorar lojas chinesas. Descobrimos uma, aqui pela nossa zona, onde pudemos colmatar uma terrível falha do Natal do ano passado: não tivemos uma estrela decente no nosso pinheiro. Hoje foi só entrar nessa verdadeira Lapónia de plásticos que é uma loja chinesa e, por 3 euros e meio, depressa adquirimos um espécime vermelho cintilante de altíssimo gabarito, o tipo de coisa que, no Natal, ornamenta uma árvore e que, no resto do ano, pode perfeitamente fazer parte da indumentária de um transformista, caso eu veja necessidade em abraçar essa profissão num 2011 de crise.
Arrumada a questão da estrela da árvore de Natal, entregámo-nos ao doce prazer de explorar os fascinantes corredores de mais um destes templos onde Budas se cruzam com Badedas. E descobrimos aquela que nos pareceu, unanimemente, a invenção do século - provavelmente, do milénio. Ou talvez a maior invenção desde a roda:
Melhor invenção de sempre, melhor caixa de sempre, melhor fotografia de sempre - meu Deus, há tanto para amar no produto Cobertor Mágico (as únicas palavras da caixa que fazem, mais ou menos, sentido) que nem sei por onde começar.
Ah, o talentoso e valente tradutor do Google!... Mas com estas palavras ainda percebemos a ideia desta obra-prima que pode ser apelidada de Mantinha de Fim-de-Semana Chuvoso 2.0. O pior é quando procuramos, na caixa, uma descrição mais desenvolvida do objecto, para ficarmos realmente convencidos de que é o que precisamos em temporada natalícia, quando, aos domingos à tarde, sentimos necessidade de nos enrolarmos em algo quente para assistir a um filme envolvendo animais.
Sem dúvida que a minha passagem favorita, de tão queriducha, é "mantem-no morno da cabeça ao dedo do pé". Aquele singular, em "dedo do pé", mata-me. E mata-me também a fofura familiar das fotos laterais da caixa: este produto chega para transformar as famílias portuguesas em clãs de Chewbaccas. No que toca aos casais, perde-se a comunhão romântica da manta única para dois, mas ganha-se toda uma nova espécie de sex appeal.
O texto parece o tipo de coisa que um psicopata iletrado escreveria numa folha de papel usando letras recortadas de várias publicações e que depois seria analisada pela polícia como código para explicar onde está o próximo cadáver.
A loja em questão não quer que falte nada ao consumidor - e havia um Cobertor Mágico para demonstração, fora da caixa, ali ao pé.
E é isto o amor, para quem não saiba, amigos: olhar para a nossa mulher com os braços enfiados num Cobertor Mágico e não só continuar a achá-la sexy, como também suficientemente repleta de glamour para dar por mim a lamentar que não tenhamos descoberto isto há um ano, aquando da Hollywoodesca estreia do filme A Bela e o Paparazzo: o brilharete que ela ia fazer com este Cobertor Mágico! E eu, olhando para ela, sorriria e pensaria para comigo, embevecido: "Esta wife com Fleece totaliza comfort e beleza."