De maneiras que 2012 parece ser o ano em que, finalmente, consigo dar-me ao luxo de fazer o pleno de projectos pessoais e de total liberdade criativa na Televisão. Estava eu a preparar o Felizes para Sempre, a enciclopédia audiovisual satírica sobre casamento que farei com a minha talentosa musa, Ana Galvão, no Canal Q, quando o Hugo Andrade, director da RTP, me convida para ser um dos apresentadores do renovado 5 Para a Meia-Noite, que passou da RTP2 para a RTP1. De maneiras que estarei então, com um pé na Televisão generalista grande e blockbuster (embora com total liberdade criativa), onde, pela primeira vez, me vejo como protagonista (ah no que eles se foram meter, valha-me Deus!); e com o outro nesse delicioso tubo de ensaio em crescente expansão e culto que é o Canal Q. A isto juntam-se as Manhãs da Comercial com a Caderneta de Cromos e serve, portanto, este post, para avisar toda a gente que, pelo menos nos próximos 6 ou 7 meses fechei a loja e não posso aceitar nem mais um grama de trabalho (exceptuando a ocasional actuação ao vivo do Como Desenhar Mulheres Motas e Cavalos - datas anunciadas em breve), porque esta trilogia vai-me dar água pela barba - mas também um gozo monumental. É, certamente, uma das eras mais profissionalmente felizes da minha vida. Só espero não estragar tudo. Mas pensemos pelo lado positivo: se estragar, é da maneira que, finalmente, tenho férias. Win win!
Sim, é um programa de televisão. Provavelmente o mais livre, experimental, barato e inacreditável da História. Ando a prepará-lo para estrear em breve no Canal Q (como saberão por esta altura, está na posição 15 do Meo) e a ideia - pouco pretensiosa - é que esteja para os talk shows televisivos como o Being John Malkovich está para os filmes normais. O ShoWMarkl, o primeiro programa de televisão da História cujos meios de produção foram adquiridos na papelaria do bairro, é um programa de televisão que entra no cérebro dos programas de televisão e os tritura e transforma, na ânsia de se transformar - reparem nisto - no programa de televisão definitivo. Corrigindo: no Programa de Televisão Definitivo.
Explicando melhor: tem sketches, tem histórias, tem conversas e estamos a considerar seriamente que um dos episódios tenha sexo e violência do princípio ao fim. É escrito por mim e pelo Francisco Martiniano Palma (prosseguindo uma colaboração cujos últimos frutos incluíram uma panóplia de textos para Os Contemporâneos), é realizado pelo Jorge Vaz Gomes e, como ao mesmo tempo que é um talk show e um programa de sketches, é também uma espécie de sitcom sobre um grupo de pessoas a tentar fazer um talk show e um programa de sketches, será interpretado por nós três, tendo depois várias pessoas conhecidas a fazer participações especiais e/ou a serem entrevistadas. No tal episódio com sexo e violência, entre nós três só irá acontecer a parte da violência.
Ontem estivemos a fazer o genérico. Isto são pessoas - o Jorge Vaz Gomes e a nossa produtora, Inês Eusébio - a filmar um genérico:
Aqui vai o serviço noticioso do Planeta Markl.
A Bela e o Paparazzo saiu em DVD...
... numa edição que contém extras gostosos. Nomeadamente ao nível das cenas apagadas. São cenas interessantes, mas que não encaixavam no filme e lhe atrasavam o passo, mas que agora podem ser apreciadas em todo o seu esplendor. Ainda não confirmei, mas creio que está lá o final alternativo filmado no Music Box, onde a minha personagem, Tiago, trama a vilã - a brilhante Maria João Falcão - numa cilada movida a coca. Que, na verdade, era leite em pó de bebé. O DVD inclui ainda comentário audio do António-Pedro Vasconcelos, o making of e o videoclip com a canção do Jorge Palma. Para quem tem preguiça de levantar o rabo do sofá para ir comprar a fita, ela está disponível nos serviços on demand da ZON e do MEO.
Entretanto...
A campanha TMN Banda Larga continua, desta vez com um anúncio criado pela TBWA produzido pela excelentíssima equipa da Tangerina Azul que muito gozo nos deu a filmar e onde o familiar e o profissional se encontram de forma explosiva, já que contraceno com a minha musa Ana Galvão numa aventura campista que poderão ver com mais algum detalhe em breve, na versão maior do spot. Esta é a versão de 30 segundos:
Hã, e não, não tive assim tantas namoradas. Mas agradeço aos criativos da TBWA por acharem que sim. Um tipo sente-se galvanizado - embora já me sinta isso todos os dias, ao partilhar a minha vida com uma Galvão.
Já agora, aqui estão os dois spots anteriores desta campanha:
Por fim: acedi ao simpático convite da revista Sábado para ser um dos protagonistas da experiência de Realidade Aumentada que eles vão fazer na edição da semana que vem. Na aventura, que poderá ser apreciada usando apenas um computador com webcam e ligação à net e a edição da Sábado, alinham também milady Ana Galvão, David Fonseca, Tim e o campeão de snowboard João Allen. Vocês vão ver todas estas pessoas ganhar vida nas páginas da Sábado, numa experiência que expande o conceito de revista de uma forma que será interessante continuar a explorar no futuro. Eu fiquei fã, e estou curioso para saber o que acham. A Esquire fez há uns meses uma experiência de Realidade Aumentada que fez furor; vamos ver que furor faz a nossa experiência! A Sábado de Realidade Aumentada sai dia 22 de Julho, quinta-feira.
Num registo mais deprimente, aproxima-se o dia em que faço 39 anos. Nunca mais voltarei a fazer anos com um 3 à esquerda. Aflitivo.
Como já é público, está prestes a abrir o canal de televisão das Produções Fictícias - chama-se Q, funcionará durante o horário nobre no canal 15 do Meo, e é lá que irei apresentar, às 2ªs, 4ªs e 6ªs, o programa A Rede. Vai ser divertido, porque é, no fundo, a versão televisiva do espírito deste blog, do Facebook e do Twitter - sobretudo no que toca a sugerir as coisas interessantes que há para ver / ouvir / ler / jogar / etc. E sempre com convidados de altíssimo gabarito.
Às 3ªs, 5ªs e 6ªs, A Rede terá como apresentadora a Carla Gomes, que alguns de vós reconhecerão das reportagens que fez para diversos programas da RTP e também da banda onde é vocalista, os Nicorette:
(Posso assegurar que a Carla não irá apresentar o programa envolvida no lençol.)
Não sei se repararam que a 6ª feira é um dia coincidente nos dois apresentadores. Significa isso que, ali à entrada do fim-de-semana, apresentaremos o programa os dois, numa dinâmica A Bela e o Monstro. Atenção: monstro, no sentido de monstro sagrado, porque eu, de alguns ângulos e com determinada luz, sou um indivíduo extremamente bonito. Bonito talvez não de uma forma George Clooney; bonito assim da maneira como se diz, por exemplo, que um cão é bonito. Um daqueles rafeiros de olhar meigo. Já não é mau.
Por várias ordens de razões, Jerry Seinfeld não precisava de fazer mais nenhum programa de televisão na vida: primeiro, porque fez uma sitcom tão revolucionária, definitiva e tão eternamente actual em todo o seu dissecar das pequenas coisas da vida, que poderá ser vista daqui a 100 anos e ter a mesma graça e impacto que teve quando estreou nos anos 90. Depois porque... bem, porque é multimilionário, continuará a ser e assegurará que os seus herdeiros continuarão a ser - basta a série Seinfeld existir e continuar a passar em canais de televisão pelo mundo fora e a vender DVDs.
Por isso, tudo o que ele fizer agora nunca poderá receber o carimbo de "fê-lo por dinheiro". Ele pode fazer o que lhe der na gana, e depois de ter co-escrito e interpretado um filme de animação que tive a honra de dobrar quando passou por cá - Bee Movie, que me valeu ainda esse momento histórico da minha vida que foi conhecer e conversar com o próprio Seinfeld! - agora deu-lhe na gana fazer um reality show cuja premissa soa menos a Seinfeld do que a João Kleber: casos reais de discussões entre marido e mulher, arbitrados por um apresentador que, na tarefa, é ajudado por um painel de celebridades. É claro que, estando Jerry Seinfeld por trás do projecto, esperava-se que The Marriage Ref fizesse pelos reality shows o que Seinfeld fez pelas sitcoms clássicas de três câmaras e público ao vivo: que, usando um formato batido, o minasse com acidez e inteligência, transformando-o em algo de novo. Acontece que, lendo praticamente todas as críticas que saíram na imprensa um dia após a transmissão do primeiro episódio, a ideia que fica é que The Marriage Ref é o pior programa de sempre da História da TV. Um crítico chega ao ponto de dizer que The Marriage Ref é tão mau que pode fazer um espectador questionar a própria série Seinfeld. (Este crítico é parvo.)
Nada como o pior hype do mundo para ter surpresas agradáveis. Talvez porque, em Portugal, estejamos habituados a reality shows tão xungas (o que diriam os críticos detractores de The Marriage Ref se vissem algumas das coisas que têm sido feitas por estas bandas?), ver The Marriage Ref tem o seu quê de refrescante: começa logo pela categoria do apresentador (Tom Papa é um excelente comediante de stand-up) e estende-se à categoria do painel de convidados (que incluiu, no primeiro episódio, o próprio Jerry Seinfeld, Alec Baldwin e Kelly Ripa), todos eles assegurando que o programa é eficaz, espirituoso... e rápido. Aliás, a duração é um dos pontos vencedores do programa: cada vez me convenço mais de que todos os programas de humor deviam ter 22 minutos. Infelizmente, em Portugal, tal duração é unanimemente considerada pelos canais de televisão como mau negócio.
Onde é que a coisa me parece que falha? Precisamente no que motiva toda aquela gente a estar ali no estúdio: as brigas dos casais, propriamente ditas. Analisando os dois casos apresentados no primeiro programa, há um cão empalhado a provocar uma tensão num casal e, noutro, um varão de striptease que um marido insiste em instalar no quarto, com o argumento de que "pode arrumar-se na garagem e parecer um acessório de pesca". As histórias são material que tresanda a episódios de Seinfeld ou Curb Your Enthusiasm, mas aqui isso não é exactamente um elogio: a verdade é que a parte de reality deste show soa tão espectacularmente forçada, tão escrita e tão pouco espontânea (e, sejam os elementos dos casais actores ou gente real, eles não são Jerry Seinfeld, Julia Louis Dreyfus, Larry David ou Cheryl Hines!) que isso acaba por provocar um certo desconforto durante todo o visionamento do episódio - apesar, lá está, do talento das pessoas em estúdio assegurar que há ali momentos hilariantes de conversa.
Seja como for, sou rapaz para ficar espectador de The Marriage Ref, sobretudo porque entre os próximos convidados estarão Larry David, Ricky Gervais, Madonna, Tina Fey e Sarah Silverman. Tendo em conta que as audiências não foram por aí além e que todos os críticos estão a crucificar o programa, é provável que ele não dure muito tempo - por isso, é de aproveitar enquanto dura!
A sempre atenta e pioneira HBO fez ontem História ao estrear dois programas de humor cuja génese está na Internet. Ambos são preciosas lições de como algo que já tinha na net uma vida forte e independente de grandes companhias e executivos com discutível gosto e poder de decisão, consegue ganhar uma nova e surpreendente vida na velha caixa (que, apesar de velha, ainda continua a chegar a muito mais gente do que a Internet). É claro que estes dois exemplos de "mau comportamento" nunca convenceriam os suits de uma NBC, ABC ou afins e que, a acontecer em televisão, só poderiam mesmo acontecer num canal de cabo como a HBO. Mas é um reflexo interessante da maneira como, na televisão, a Internet começa a ditar regras com projectos que não foram pensados para existir fora dela.
The Ricky Gervais Show pega no audio dos ultra-divertidos podcasts criados por Gervais, Stephen Merchant e Karl Pilikington para o jornal The Guardian, há uns anos, e serve-o em delirantes pedaços de animação deliciosamente surreal, a meio caminho entre a estética 60s-70s de Hanna-Barbera (Ricky Gervais pediu expressamente aos animadores que o transformassem numa espécie de Fred Flintstone) e o subversivo retro de John Kricfalusi no lendário The Ren & Stimpy Show. As conversas improvisadas do trio - geralmente consistindo em Gervais e Merchant provocando Pilkington devido à sua inenarrável visão do mundo - começam com os avatares do trio num estúdio e de lá vão saindo, ilustrando cada ideia delirante do diálogo e fazendo com que até um fã que já conhece aquelas conversas de trás para a frente (não só dos podcasts mas do livro Ricky Gervais Presents The World of Karl Pilkington) volte a chorar a rir com esta nova vida de um velho conceito. Ver as Monkey News sobre o macaco-astronauta ou a exploração de Pilkington ao velho casarão abandonado onde o papel com a inquietante mensagem "FLIES" antecede uma descoberta tão chocante como hilariante é uma experiência inesquecível.
Há uns anos, Will Ferrell e Adam McKay (dupla por trás de filmes como Anchorman ou Talladega Nights), criaram na Internet uma obra que devia valer-lhes um Nobel qualquer. Numa nobre tentativa de democratizar a comédia, inventaram o site Funny or Die, uma espécie de fusão entre You Tube e oficina de humor onde toda a gente - desde celebridades a desconhecidos - podia criar e fazer o upload da sua comédia, decidindo os visitantes do site se ela merecia continuar em exibição ou desaparecer para sempre. Os próprios Ferrell e McKay alinharam no jogo, produzindo experiências baratíssimas de comédia como a deliciosa curta The Landlord. E depressa a experiência atraiu o interesse de diversos consagrados, ávidos de testar material e fazer, em total liberdade e gozo, o tipo de coisa que Hollywood não costuma consentir. Agora a invenção de Ferrell e McKay surge também na HBO, na série Funny or Die Presents, uma selecção do melhor material do site, cruzado com material inédito e um conceito algo Tal Canal que, com muita piada, provoca o novo meio em que renasceu: a Internet organizando uma grelha televisiva semanal de meia-hora, composta de sketches, curtas-metragens, micro-talk shows e, em suma, as mais estimulantes obras que celebridades e desconhecidos criaram, a custo zero, para o site. Sublime, o conceito Drunk History: gravar o depoimento de alguém descrevendo um momento da História da América depois de beber duas garrafas de boa pinga e, a partir dessa descrição, encenar a reconstituição desse momento. Will Ferrell, Don Cheadle e Zoeey Deschanel estão magníficos e nada que vos possa aqui descrever fará justiça ao efeito desta Drunk History. E Playground Politics, transformando grandes e pertinentes questões de política interncional em brincadeiras de recreio de escola, com miúdos é uma ideia de génio!
As duas novas séries cómicas da HBO servem de ilustração não só do estrondoso poder da Internet como ferramenta de criação e divulgação de comédia, mas também que, quando comida requentada é servida com tanta imaginação e talento, ela pode saber-nos, de novo, como se tivesse sido acabada de fazer!
A RTP-2 começou ontem a transmitir, a ritmo diário, sempre depois da meia-noite, a série Paraíso Filmes, um dos programas de televisão que mais gozo me deram a co-escrever e mais saudades deixou - como já aqui disse, sempre achei que uma sequela tinha pernas para andar, sobretudo se fosse a Paraíso TV, e a troupe da louça sanitária passasse à produção de séries inspiradas em coisas como Lost, House, Heroes, Sopranos, Prison Break...
Acontece que uma produção como a Paraíso Filmes é, de facto, demasiado cara para as audiências que chama. Tivemos a sorte de conquistar uma massa de fãs nos anos que se seguiram à transmissão da série, quando se deram as reposições em canais como a RTP África e Internacional, mas ainda é uma proposta algo arriscada de televisão. Por outro lado, tivemos o azar da edição DVD, que estávamos a planear com todo o amor e carinho, acabar cancelada por causa dos direitos das músicas que parodiámos ao longo dos 26 episódios. A quantidade de melodias que usámos impunemente faria com que uma edição da série em DVD obrigasse a Castello Lopes Multimédia a pagar o tipo de quantia que leva empresas à falência. Por isso, à falta do tão desejado DVD, começámos, nas Produções Fictícias, a disponibilizar a série na PFTV; e agora a RTP-2, decidiu recuperar a série e exibir os episódios de 2ª a 6ª... Se os gravarem em DVD, será o mais próximo que alguma vez terão de um box set... Sobretudo se arranjarem uma box jeitosa onde os arrumar, depois.
Paraíso Filmes foi feita em 2002, uma produção da Diamantino Filmes, produtora com vasta experiência na publicidade e nos videoclips, que trouxe um look diferente de qualquer coisa que se estivesse a fazer na altura na TV. O elenco era de luxo, o cenário era gigante e continha a maior acumulação de equipamento de casa-de-banho jamais usado numa série de televisão, ou não falasse a série da empresa de equipamento sanitário - a Banheira 2000 - que tem um departamento de produção de cinema. Os guiões eram escritos pelo Filipe Homem Fonseca (agora prestes a voltar às sitcoms com um projecto apetitoso que estreará em breve), o Henrique Dias (hoje um dos argumentistas de Tele-Rural), o Eduardo Madeira (meu colega Contemporâneo) e eu. Pretendia-se criar um veículo diferente para a brutalmente bem sucedida dupla de Conversa da Treta, o José Pedro Gomes e o António Feio, e lá se criou uma série que tentava conciliar um lado mais popular com a paródia de reconhecimento cinéfilo - e a verdade é que o público português que vê TV em horário nobre não é particularmente cinéfilo nem poderíamos esperar que apanhasse todas as referências que a gente disparava, inspirados que estávamos pelas clássicas spoofs dos anos 80, como Aeroplano e Top Secret, ou o estilo de falso documentário de This is Spinal Tap.
Ontem passou Febre de Domingo à Noite que, visto a esta distância, e apesar de ter ideias que continuam a funcionar, ainda é um episódio lento e palavroso - faríamos depois melhores, ao afinarmos o estilo "documental", que era novo para nós, para o elenco e para a equipa técnica. Será um gosto que a Paraíso Filmes encontre novos fãs, agora que passa num horário bastante mais decente do que quando foi exibida pela primeira vez (houve episódios que estrearam às duas e três da manhã!) por uma direcção de programas que não acreditava minimamente na série (lembro-me que, na altura, havia alguém na RTP que odiava a Paraíso Filmes e que a apelidava de produto para intelectuais) e que acabaria até por deixar um episódio ou outro na gaveta. A ver se agora passam todos! Vê-los na net não é mau, mas já agora que se veja a série no sítio para o qual foi concebida. Um gigante agradecimento ao Jorge Wemans, director de programas da RTP-2, pela recuperação da nossa querida opus da Trafaria...
Antes de mais, devo aqui dizer que respeito Luis Aleluia. Não me revendo no estilo de humor que faz, sempre o achei e continuo a achar um excelente actor, e talvez por isso tenho pena do "advogado de defesa" que havia de lhe sair na rifa, na recente polémica envolvendo As Divinas Comédias, a série que co-escrevi e narrei para a RTP, contando a História da comédia na TV nacional:
Carlos, Carlos, Carlos. Carlos. Carlos. Isto era tão escusado, Carlos. Como haverá o mundo de acreditar que tantos anos de carreira jornalística significam inteligência, sabedoria e isenção, quando, por ignorância, surdez ou maldade (vamos acreditar que foi surdez; sempre é menos mau) inventa algo que não aconteceu n'As Divinas Comédias? Sim - aceito que fizemos uma referência rápida às Lições do Tonecas, como fizemos referências rápidas a inúmeros outros programas, incluindo vários das Produções Fictícias (e até achámos por bem apagar por inteiro qualquer referência ao Homem Que Mordeu o Cão, na TVI, que até tinha um share bem jeitoso ou a sitcom Não És Homem Não És Nada, por exemplo), porque a História da Comédia é vasta e o tempo era curto - e, convenhamos, alguém como o Nicolau, o Camilo ou o Herman merecerão muito mais tempo de antena que um projecto como o Tonecas, com todo o respeito pelo Luis Aleluia e o Morais e Castro. Mas o que se dizia no texto do programa é que na origem da sitcom As Lições do Tonecas estava um clássico da rádio dos anos 30, escrito por José de Oliveira Cosme e interpretado por Vasco Santana. Dizia-se "a série recuperava o espírito do original, trazendo para a actualidade o aluno irrequieto e o professor desesperado, interpretados por Luis Aleluia e Morais e Castro". Isto é mentira? Carlos, Carlos, Carlos. Reveja as suas próprias lições, antes de falar das do Tonecas... Se se considera chocante dedicar-se tão pouco tempo às Lições do Tonecas, mais chocante será ignorar o facto que essa série se baseia no imortal clássico de Cosme e Santana.
Para, como um dos guionistas do programa, pedir desculpa ao Luis Aleluia, mais desculpa teria de pedir a artistas que foram consideravelmente mais influentes do que ele, lamento, e que, infelizmente, tivemos de contornar numa série tão curta e sintética como As Divinas Comédias. Deveríamos ter falado de José Viana, Óscar Acúrcio, Vítor Mendes, Max, Florbela Queiroz, Maria Vieira, entre outros. Não o fizemos porque, dado o escasso tempo de programa, decidimos que deveríamos dar ênfase a quem teve programas concretos (boa parte desses artistas era, acima de tudo, de revista e as suas participações na TV estavam ligadas a quadros de revista e não a programas específicos de que fossem protagonistas). No caso da Florbela Queiroz, quisemos mostrar excertos dos seus programas históricos dos anos 60 e 70, ao lado de Norberto de Sousa - infelizmente, nada resta dessas emissões nos arquivos da RTP.
E, no entanto, não nos esquecemos d' As Lições do Tonecas. E, no entanto, para Luis Aleluia, foi pouco, e As Divinas Comédias "é um portefolio das Produções Fictícias". Como elemento das Produções Fictícias, fico honrado que haja quem ache que existimos assim há tanto tempo, e que estamos por trás de projectos como o Riso e Ritmo, do Francisco Nicholson e do Armando Cortez, o Eu Show Nico, de Nicolau Breyner, o Sabadabadu de César de Oliveira, A Mulher do Sr. Ministro, da Ana Bola, todas as séries do Camilo, etc, etc, etc. Quanto a referirmos os nossos próprios projectos... Parece-me que é normal, não será? Era um bocadinho difícil ignorar as coisas que fizemos desde 95 a esta parte. Calhou sermos nós a ter a ideia de criar uma História da comédia televisiva nacional. Quem protesta, porque não se chegou à frente? Nós gostamos demasiado de humor para contornar um projecto destes. Nunca dissemos que seria uma enciclopédia do humor; para mim, As Divinas Comédias sempre foi uma celebração do humor nacional e uma oportunidade para o espectador rever e redescobrir material há muito arredado da televisão. Foi pena não ter sido mais longo, porque teríamos de bom grado falado de mais (infelizmente não das coisas da TVI, já que não houve interesse por parte do canal de Queluz em disponibilizar material para o nosso documentário, ao contrário da SIC, que nos abriu as portas ao seu arquivo).
Quando leio os resmungos do Carlos Castro e do Eduardo Cintra Torres (há umas semanas, no Público), repletos de fel, de teorias da conspiração e de teses sinistras, só me consigo irritar dois segundos. O tempo suficiente até me lembrar do dia em que o Raul Solnado viu, connosco, o primeiro episódio, riu-se, emocionou-se, e exclamou "as pessoas vão gostar muito disto". Conviria ao Carlos e ao Eduardo pensar que o actor estava debilitado ao ponto de ser um joguete nas cruéis mãos das Produções Fictícias, mas lamento desiludir-vos: Solnado estava lúcido, divertido e mais saudável - num sentido mais vasto do termo - do que dois certos cronistas juntos.

Agora que comecei a ver os especiais de stand-up de Demetri Martin - If I e Person - e a série do Comedy Central, Important Things, devo dizer que estou, oficialmente, fã. Melhor: fanzaço. Ele é um comediante de observação tão minucioso, tão perfeito, tão hilariante e original (magnífico o quase poético uso de desenhos, gráficos, palavras escritas) que ontem tive vontade de comprar tudo o que o tipo fez, faz e virá a fazer. Para já, afiambrei-me ao CD These Are Jokes, à venda no iTunes por 10 euros e que é essencial a vários níveis. Primeiro porque, arrisco dizê-lo, é o primeiro CD da História da Comédia que é apresentado, na primeira faixa, pela avó do comediante; e depois porque, resumidamente, é brilhante. Exemplos:
E como estes, há mais. Como não adorar o comediante que inventou a piada "se um dia eu visse um amputado a ser enforcado, eu simplesmente começaria a gritar letras"?
Demetri Martin foi guionista de Conan O'Brien, participou num dos episódios da primeira temporada de Flight of the Conchords e agora, para além da sua carreira a solo, com o programa Important Things With Demetri Martin, é correspondente do Daily Show e estreia-se no cinema, dirigido por Ang Lee, com Taking Woodstock. É um génio, e isto não é um exagero. Só alguém com uma mente muito especial conseguiria escrever um poema que é um palíndromo - ou seja, a ordem inversa de todas as letras de resulta rigorosamente igual à ordem normal.

Qual a melhor série americana de sketches dos anos 90? Se não existisse The State, eu arriscaria um empate entre os extraordinários Mr. Show e The Ben Stiller Show. Só que a MTV, nos maravilhosos tempos em que ainda era um canal com coisas realmente interessantes e em que ainda a apanhávamos através das parabólicas que era moda ter nos inícios da década de 90, exibiu The State. E há poucas séries de sketches melhores e mais consistentes, na América, nos anos 90 (e noutros) do que The State. Durante anos penei em busca de material desta série (suponho que, numa qualquer VHS empoeirada perdida algures eu tenha alguma coisa gravada) e, finalmente, encontrei na net um velhinho best of que alguém copiou de uma cassete há muito fora de circulação e que nunca foi editada em DVD - o que faz com que a divulgação, aqui, dos links para esse vídeo seja um crime que, creio, não me catapultará para o Inferno quando eu morrer nem fará o FBI, a ASAE, ou uma força conjunta de ambos invadir-me a casa para me prender.
Uma raridade como esta compilação faz com que a sua divulgação seja serviço público! Alguém pôs o conteúdo da velha VHS no Rapidshare em partes separadas: esta, esta, esta, esta, esta e esta. Regalem-se na perfeição da escrita destes tipos, na liberdade total, no gosto pela desconstrução seja de um anúncio de detergente com uma mascote fofinha falante, seja da Última Ceia (sim, eles também têm um sketch sobre a Última Ceia, mas a MTV não se importou e os espectadores americanos não clamaram pelas suas cabeças).
Sim! Existe um pedaço de humor sobre a Última Ceia que inclui, repetidas vezes, a frase "I WANNA DIP MY BALLS IN IT!"
Parte do elenco de The State pode hoje ser visto em séries notáveis como Reno 911, a famosa paródia a Cops produzida pelo Comedy Central, ou num outro inovador programa de sketches chamado Stella. Um dos mais activos argumentistas e intérpretes de The State, David Wain, não só faz esta hilariante série de webisódios, como, recentemente, dirigiu esta magnífica comédia com Paul Rudd que por cá, infelizmente, saiu em DVD sem que ninguém desse por isso (com o título Modelos Nada Correctos).